A saga de meus bisavós: Francesco Coffoni e Angela Ceraphina Runho Coffoni

Chegaram a São Paulo no mesmo navio da família Matarazzo.

Meu bisavô trouxe com ele um sonho, que era montar uma olaria, e trouxe consigo uma amostra de tijolo. Conseguiu realizar seu sonho e comprou uma vila, com casas para cada filho, na Rua Almirante Marques de Leão, Bela Vista. Minha avó, Maria Coffoni, e seus irmãos passaram a vida ali.

O tempo passou e minha avó teve duas filhas: Maria Thereza e Josephina, ambas já falecidas. Minha mãe veio morar em Angra dos Reis, mas nunca esqueceu sua origem. Ela faleceu em 12 de fevereiro deste ano.

Lembro-me das festas de fim de ano, quando íamos para a vila. No quintal, uma grande mesa era montada e a família reunida. Cantavam canções napolitanas, dançavam a tarantella, riam muito e contavam histórias de suas vidas.

Miguel e Domingos Coffoni adoravam futebol e falavam muito do Palestra Itália. Tia Joaninha só pensava em economizar, pois na época da Segunda Guerra meu tio Augustinho se alistou para lutar como italiano. Ainda bem que tudo terminou bem e ele voltou ileso.

Costumava sempre cantar as músicas desta época em sua sapataria, no mesmo bairro. Tia Antonieta, mesmo na cadeira de rodas, costurava e era muito alegre. Tia Aurélia, filha de tia Achirophita, que nasceu na Itália, era muito animada e gostava de jogar cartas.

Na vila, somente existia um banheiro coletivo e todos ficavam na fila esperando a sua vez; de vez em quando saía uma confusão, mas tudo terminava em boas risadas.

Minha mãe trabalhou até os 22 anos no Laboratório Paulista de Biologia, e lembrava sempre do seu encontro com o Presidente Getúlio Vargas, por ocasião de sua visita ao laboratório. Ela contava também que foi vizinha da família de Agostinho dos Santos, que tornou-se um cantor famoso, mas infelizmente teve uma morte trágica. Ela guardava, com carinho, o seu primeiro disco lançado e autografado para a sua família.

Lembro das feiras concorridas na 13 de maio, das exposições na Praça Dom Orrione e da escola de samba Vai-Vai, nascida ali no bairro. Também era famoso o Bar da Carmela, nossa prima, e tive a boa sorte de ver cantar Adoniran Barbosa ali.

Guardo com muito carinho o paliteiro que minha bisavó trouxe da Itália, que simboliza a continuidade de nossa saga.

Residem ainda na vila alguns de meus familiares. Quando vou visitar e rever a vila, volto ao passado e consigo ver as imagens daqueles rostos felizes. Revejo vó Assunta com quase cem anos, de lenço amarrado na cabeça, saia comprida e parlando italiano. Ouço notícias das festas de Achiropita, que relata minha prima ter sido doada pelo meu bisavô.

Sinto que corre em minhas veias o sangue napolitano e calabrês, que fizeram de minha mãe uma mulher corajosa, que criou dois filhos labutando e sorrindo.

E viva a nostra bela Itália, que trouxe para o Brasil alegria, trabalho, felicidade e uma bela pasta, arrivedete!

Grata pela inédita oportunidade!

Obs.: Existem fotos de minha família no Museu do Bixiga (Coffoni e De Roza)

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