(este texto é um extrato de um artigo maior em que relacionei a história das salas de cinema de São Paulo com a evolução da Sessão da Tarde dos anos 60 até a atualidade, em meu blog www.oescaravelho.blogspot.com )
As salas de cinema tinham um conceito muito diferente do atual. A localização das salas de cinema paulistanas era no centro da cidade, e havia algumas poucas nos centros regionais dos bairros. Ainda não existiam os shoppings.
O tamanho e padrões de funcionalidade também eram diferentes. O público chamava pejorativamente as salas menores de "caixinhas de fósforo", mas estas salas não tinham menos de trezentos lugares – enormes para os padrões atuais. As salas mais badaladas costumavam ser tão grandes que várias delas se orgulhavam de ter uma, ou até duas platéias suspensas, além da platéia principal, que já não era pequena.
Recordo-me das inúmeras sessões que assisti nos anos 70 no extinto Cine Universo, localizado num dos principais clusters cinematográficos da cidade de São Paulo: a Avenida Celso Garcia, na região central. Seus vizinhos eram o Cine Bruni (depois, Cine Brás), Roxy, Fontana I e II, Piratininga. Hoje, num único shopping, você pode encontrar um número de salas muito mais elevado.
O Cine Universo era tão grande que possuía platéia suspensa e uma particularidade: teto solar com clarabóia circular. Não recordo o tamanho com exatidão, mas acho que era algo em torno de cinquenta metros de diâmetro, que era aberta em dias de muito calor, já que os sistemas de ar condicionado da época, além de custosos, eram pouco eficientes para grandes recintos.
Havia ainda as salas que se distribuíam pelos centros regionais de São Paulo, tais como o Amazonas na Vila Prudente, Ouro Verde e Patriarca na Mooca, Aladim e Japi no Tatuapé. Havia ainda cinemas nas regiões de Santo Amaro, Penha e Lapa, dentre outros.
Naquela época os lançamentos ocorriam em número bem menor do que atualmente. Grandes produções da época, como Superman e Guerra nas Estrelas, de 1977, aconteciam apenas uma ou duas vezes ao ano.
Havia as sessões exclusivas, com filmes diferentes do principal em cartaz, as quais ocorriam no meio da tarde para atender ao público infanto-juvenil. Eram as famosas matinês.
Os costumes da época eram bem diferentes. A censura moral era rígida. O juizado de menores fiscalizava com rigor as salas. Cenas hoje corriqueiras, usadas até em comerciais exibidos em qualquer horário na TV aberta, como beijos ardentes ou moças de biquíni, eram suficientes para se fixar a censura de um filme em dezoito anos. Na entrada, funcionários exigiam com rigor a apresentação de documentos de identidade aos freqüentadores. Como lei é lei, se você comparecesse na véspera de completar dezoito anos, com certeza ia ter de voltar para casa sem diversão.
A fiscalização do juizado de menores (hoje conselho tutelar) era intensa e severa. Um flagrante podia ter conseqüências drásticas para a sala, que iam desde multas pesadas, interdição da sala, ou mesmo a prisão dos proprietários. Isso sem falar que a ocorrência de um caso assim afastaria o público da sala, que seria classificada como "antro de imoralidade" ou "pulgueiro mal administrado". E pasmem!, ainda havia casos de limites de censura fixados em 21 anos, raros, mas não impossíveis, como foi o caso da estréia de "O Exorcista".
A rigidez da censura era tanta que há de se considerar tais fatores: lembrar do fato de que filmes com cenas de sexo explícito, ou de violência em alto grau de realismo, eram coisa vista somente de forma clandestina, geralmente por fechados grupos de pessoas que possuíam recursos financeiros para possuir seu próprio projetor e acesso ao tráfico de material pornográfico, que era ilegal.
Para se freqüentar uma sala requintada do centro, como o foram os Cines Marabá, Ipiranga, Marrocos e Anchieta, dentre outros, era necessário estar "adequadamente trajado" – entenda-se: terno e gravata para homens e vestido abaixo dos joelhos e decotes discretos para as mulheres. Caso contrário, a entrada era barrada.
A decoração das salas de cinema mais badaladas era extremamente requintada, incluindo painéis artísticos nas paredes e primorosos projetos de design para ambientes internos de alto luxo.
Não podemos deixar de falar dos famosos lanterninhas, que eram uma espécie de recepcionista, geralmente uniformizado no estilo de atendentes de hotéis de luxo. Portava um farolete (daí o nome) e tinha por função recepcionar os freqüentadores e conduzi-los aos lugares mais confortáveis, ou acompanhá-los caso quisessem se ausentar da sala por algum motivo, para que não sofressem algum tipo de acidente e para minimizar o estorvo aos demais. Durante as matinês, os lanterninhas se transformavam em bedéis, que zelavam pela disciplina das crianças e adolescentes, garantindo uma exibição confortável e tranqüila, sem estorvos, já que era comum grupos de adolescentes prepararem traquinagens que complementavam sua diversão no cinema, sendo as mais "clássicas": o chiclete grudado na poltrona, que sujava a roupa do próximo a se sentar ali; as bolinhas de papel atiradas nos espectadores mais concentrados; as vaias e versinhos sacanas cantarolados durante as cenas mais polêmicas.
As pessoas iam aos cinemas para ali ficar por pelo menos quatro horas ou mais, já que as sessões costumavam exibir dois filmes: sempre alguma reprise ou produção de segunda linha, seguida pelo filme principal. Além disso, as grandes produções dos anos 50, 60 e 70 costumavam ultrapassar três horas de exibição, como no exemplo de clássicos de estupendo sucesso como Ben Hur e Dr. Jivago, dentre outros.
Não somente a sessão era dupla, mas também no intervalo entre os longas eram exibidos curtas, geralmente de produção nacional, dada a lei protecionista que a isso obrigava as salas. Nesta questão, é impossível não se recordar dos maravilhosos cinejornais do Primo Carbonari, em especial das suas espetaculares reportagens futebolísticas as quais até hoje são apreciadas.
Em resumo: o contato do público com a sétima arte era bem mais intenso e diversificado que hoje… Assim como era bem mais controlado pelo poder público.
Era usual lançar mão das reprises, algo totalmente impensável para as salas de hoje. Por exemplo, eu cheguei a assistir por umas duas ou três vezes, além do lançamento, a reprise de Guerra nas Estrelas no cinema, que várias vezes voltou ao cartaz em algumas salas nos dez anos subseqüentes ao lançamento. Cheguei a assistir reprises nos anos 80 de filmes PB produzidos nos anos 50 e 60, como Marcelino Pão e Vinho e Dio Come Ti Amo.
Assim, para um filme ir para a TV, já devia estar "bem batido" no cinema. Por exemplo, o megaclássico Os 10 Mandamentos, dos anos 60, só foi para a TV nos anos 80, depois de ter sido reprisado a fartar nos cinemas… E chegou na TV não como um filme qualquer para tapar buraco num horário de pouca audiência, mas como uma super atração a ser exibida em data e horário especiais com forte aparato de divulgação. Isso nos mostra como a força das obras cinematográficas era bem maior e menos banalizada que hoje.
Na segunda metade dos anos 80, o mercado cinematográfico começou a assumir novas características com o incremento dos meios de comunicação, o advento dos shoppings, que alteraram significativamente o conceito de sala de exibição, e o surgimento do VHS.
O fim da ditadura militar afrouxou a censura, já que todo aquele aparato descrito acima tinha como objetivo mais a censura política que moral.
O advento da pornochanchada, com sua pseudo-pornografia, abriu as portas para a banalização do gênero “sexo explícito”, que disparou em produções nacionais e depois estrangeiras. O lançamento dos eróticos Calígula e O Império dos Sentidos nos anos 80, obras de conotação erótica, porém de sólido fundamento cinematográfico, serviram de argumento para os produtores nacionais obterem anuência do poder público.
Foi o início de uma época de radicais mudanças e de decadência nos formatos tradicionais das salas de cinema.
Para sobreviver, as salas regionais tiveram de aderir rapidamente às sessões duplas de pornografia + produções orientais trash que banalizavam as artes marciais, baixando significativamente o preço dos ingressos, atraindo, assim, um público composto basicamente de pessoas de baixa instrução e pouco poder aquisitivo do sexo masculino.
As salas centrais conseguiram resistir um pouco mais ao fenômeno, mas não por muito tempo, inclusive incluindo em suas programações pseudo-espetáculos teatrais de sexo explícito ao vivo, ampliando a decadência e o alcance da famosa boca do lixo, região de prostituição do centro de São Paulo.
Após esta fase, muitas dessas antigas salas transformaram-se, no final dos anos 80, em estacionamentos ou igrejas evangélicas, até terem seu projeto arquitetônico demolido ou modificado para outros fins.
As tradicionais salas Ipiranga e Marabá, na Avenida Ipiranga, imediações da Praça da República no centro novo paulistano, foram as que mais heroicamente resistiram à nova tendência, estendendo até os anos 90 a oferta de uma programação de qualidade, incluindo lançamentos. Havia filmes famosos, que muitos desejavam assistir, ou mesmo rever, pelos quais se esperava pacientemente a exibição na TV aberta.
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