Andanças pela Barra Funda

Conforme já citei em outro texto, quando nasci, meus pais moravam na Barra Funda, na Rua Albuquerque Lins, 241, num quarto de pensão. Meu pai, na época, trabalhava numa fábrica chamada Westinghouse, a qual produzia geladeiras e máquinas de lavar, localizada na Rua Conselheiro Nebias, 1661. Os donos eram um americano e um cearense, combinação esta que parece não ter tido muito futuro, pois a fábrica fechou no final dos anos 60.

Bom, mas vamos ao que interessa. Ao final do expediente, às cinco da tarde, meu pai saía do trabalho e ia a pé até em casa: saindo da Rua Conselheiro Nebias, entrava na Alameda Eduardo Prado, seguia pela Rua Barra Funda, chegando finalmente até a Alburquerque Lins.

Mesmo cansado do trabalho e desta andança toda, chegando em casa, ele me levava para passear na Praça Marechal Deodoro. Para este passeio especial, ele havia comprado um triciclo, o qual eu não sabia pedalar, contudo ele improvisou uma cordinha e me puxava durante todo o percurso, da Rua Alburquerque Lins até a praça.

Chegando lá, ele, como todo orgulhoso, "desfilava" comigo me puxando pra tudo quanto é lado lá da praça. Segundo ele, naqueles tempos, a praça era a mais "elegante", as árvores, as mais frondosas, e o ambiente, mais seguro. O ar que se respirava era mais limpo; enfim, na descrição que ele faz daquela época, tudo era melhor.

Ele também menciona uma estátua de um índio segurando um tamanduá, da qual não me recordo; aliás, daquela época não me lembro de nada. Entretanto, esta história do passeio com a bicicleta sempre esteve em algum lugar escondido na minha memória, pois ele já havia mencionado algumas vezes.

Lógico que depois de adulta, passei várias vezes pela Praça Marechal Deodoro nas minhas correrias diárias indo em direção ao metro do mesmo nome, e nunca me detive nos detalhes daquela lugar. Quantas vezes olhamos e não vemos durante os caminhos automatizados do nosso dia-a-dia.

Contudo acredito que deixamos nossos passos marcados invisivelmente nos caminhos percorridos. A vida passa diante de nossos olhos e debaixo de nossos pés. Os passos de meu pai estão marcados nos asfaltos da Barra Funda, como também minha bicicletinha deixou seu rastro, ali no caminho entre a Albuquerque Lins e Praça Marechal Deodoro.

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