Homenagem à Rádio Eldorado

Eldorado! Quem te viu e quem te vê! Ou seria melhor dizer: quem te ouviu e quem te ouve!

Posso afirmar que a vi nascer e, apesar da diferença de idade, crescemos juntas. Na verdade, no início da década de 60, quem me apresentou a você foi meu pai, um funcionário público municipal de carreira, que ouvia o jornal das 7h às 7h30 da manhã e me alertou para a compacta objetividade daquele noticiário, que sem se alongar, informava todas as notícias do dia, até aquele momento; isso, ao contrário de outras estações que passavam mais ou menos as mesmas informações, mas diluídas em duas ou três horas.

E foi assim que, para mim, tudo começou: ouvi umas vezes, gostei e mudei definitivamente de estação. Se ainda me lembro bem, parte da programação era ocupada com música e notícias; às 12h, o Concerto do Meio-dia; às 18h, Um piano ao cair da tarde; e aos sábados, Tardes de Turfe.

Minha família brincava dizendo que, apesar de menina e ainda jovem, já era ligada em corrida de cavalo. Na verdade, nas tardes de sábado, colocava em ordem as muitas tarefas de casa que as boas escolas públicas passavam aos alunos. Os páreos eram curtos, a interrupção rápida, e diante dos programas populares ou esportivos, a opção continuava a ser a Eldorado – apesar da gozação, porque não gosto nem de loteria.

Naquele tempo parecia que os locutores eram orientados a falar com voz muito pausada e calma, sempre na mesma intensidade, quase como se o ouvinte estivesse lendo e não ouvindo um jornal; era como se o diretor quisesse garantir assim a objetividade da informação, do fato em si, sem nenhuma espécie de direcionamento de interpretação. Hoje, quase como as palavras emitidas pelo computador – quase, porque a voz do locutor era muito mais agradável.

Mas tudo foi mudando e você teve de mudar também ou não iria sobreviver, pelo menos como AM.

A última alteração que pude presenciar foi já na década de 80, com a substituição do Um piano ao cair da tarde. Retornava para casa da escola nesse horário (agora como professora), e entre o pôr-do-sol e o solo de piano, enfrentava com prazer o trânsito da Marginal Pinheiros. E, de repente, o programa não existia mais. Meio inconformada, liguei para a Rádio (que já colocava o telefone à disposição dos ouvintes) protestando: “Moço, cadê meu programa de piano? A resposta: “Nossa programação mudou e, para isso, a senhora deve procurar ouvir a FM.”.

E hoje você está aí: uma jovem senhora de cinquenta anos, disposta, cheia de energia, que continua mudando (porque tem até futebol e programa esportivo!) e segue informando sobre tudo, mas agora interpreta, brinca, ri, carrega nas cores e até direciona, sem deixar de garantir a objetividade, porque faz questão de tentar levar ao ar todas as cores.

A amizade ficou ainda mais sólida, porque nos falamos com frequência: quer saber o que penso e gostaria, e até me põe no ar, como ouvinte repórter; assim, somos parte uma da outra, junto a milhares de outros ouvintes.

Rádio Eldorado, parabéns pra você, que nasceu paulistana pequenina e nesses cinquenta anos cresceu e ficou global, mas sem nunca perder de vista a missão maior de formar e de informar, sempre tão responsavelmente, de múltiplas perspectivas.

e-mail do autor: [email protected]