Na década de 70, o "barato" não era cheirar, levar picada, pegar "uma mina"; o "barato" era cabular aula (quando se estudava à tarde ou noite) e ir para o Florão, uma lanchonete no Tatuapé.
O que a gente pedia? Vaca amarela (sorvete com Fanta), vaca preta (sorvete com Coca-Cola), milk-shake, banana split, sunday e o que mais de novidade a lanchonete podia oferecer. O sabor em moda era o pistache – um sorvete verde. O "barato" era fofocar dos colegas, dos professores, falar dos trabalhos – e a gente se divertia!
Quando tínhamos uma "graninha" sobrando, íamos ao cinema ou teatro (na Penha – no Martins Pena). Quando estava no 3º colegial (1978), certo dia resolvemos cabular a aula. Éramos cinco e resolvemos ir até o Teatro Martins Pena assistir ao Grupo Tarancón. Naquela época havia as peruas que vendiam os ingressos a preços populares (tipo dois reais). Estamos lá meu namorado, eu e mais três amigas (segurando vela!). Eis que chega a Rede Globo para entrevistar os espectadores. Microfones e holofotes prontos e pegando todo mundo que já estava pronto para entrar. Eu me escondi como pude – já pensou eu sair na televisão? Meus pais assistindo e querendo saber a que horas eu tinha ido lá etc., etc., etc.? Escapei, mas minha colega foi pega.
Dia seguinte, depois da edição da matéria, lá estava o rostinho dela dando a entrevista, aparecendo na televisão! À noite, quando enfrentamos a aula, outros colegas nossos disseram que viram nossa colega. Ufa! Já pensou se fosse eu???
Esse era o "barato": enfrentar alguns perigos, correr riscos e sair ileso. Isso que eu chamo de adolescência limpa!
Hoje moro em frente a uma escola. Desculpem, mas há cenas tristes. O dicionário de palavrões corre solto – há alguns que até desconheço! O aroma no ar não é de pistache, mas meio adocicado… Não se fofoca mais: já cheguei a ouvir armadilhas sendo preparadas para colegas.
Faço ouvidos moucos, pois se me mostro ofendida ou tomo alguma atitude, sabe lá o que podem fazer comigo ou com meu carro. Como moro em frente, vão acabar marcando a minha rotina…
Saudades da adolescência limpa!
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