Na manhã da véspera de Natal, três amigos – Zé Martins, Zé Macumbeiro e Siriri – se encontraram na porta do boteco e combinaram de tomar uma, uma só pros três, porque pra tomar outras tava difícil. E essa uma não era nada tão chique, como cerveja, por exemplo, que pra eles era luxo – era cachaça mesmo e das brabas.
Entraram, pediram a cana, que enquanto era derramada no copo enchia as três bocas de saliva e, num gesto pra lá de fraternal, cada um deu uma beiçada, como se diz no popular, não sem antes despejar um tiquinho pro santo. Como diz mestre Pardinho, outro cachaceiro de respeito nestas paragens paulistas, isto não pode ser esquecido de jeito nenhum, sob pena de "secar a fonte de onde saiu a disgramada".
Aí, no enleio do bar, com o movimento se avolumando, fregueses chegando, trocando rápidas palavras, fazendo suas compras e saindo, alguns, outros ficando pra bebericar, os três companheiros matutavam como seria sua noite de Natal, já que dinheiro eles não tinham; família que os acolhesse, muito menos. Eram sozinhos no mundo, compartilhando essa solidão a três, porque se assim já é ruim, solidão a sós então é ruim demais.
Zé Martins, experimentado nas agruras da vida, teve uma idéia que, se não era nova, era uma idéia. Sabia de uma rinha de briga de galos mais ou menos perto dali, onde, ouvira dizer, os apostadores costumavam dar os galos que morriam em combate, ou então que saíam muito feridos ao primeiro que pedisse pra se livrar logo do trambolho. "Galo que perde briga? Quem vai querer um bicho desses?". Claro que o galo, quando não era só um pedaço de galo, vinha muito machucado no corpo e, principalmente, na alma, porque nada é mais triste para um macho do que "apanhar na briga"; trata-se, então, de um derrotado, um fracasso como galo, mas para quem o receberia e o comeria ensopado com algumas batatas de xepa, tava bom demais. Até porque, em termos de apanhar na vida, os quatro eram pra lá de escolados. Claro que tiveram seus lampejos de vencedores, mas ficou só no lampejo, vide o exemplo recente e concreto do galo estraçalhado que ali jazia, lembrando a cada um dos três amigos os primeiros embates e as primeiras derrotas que tiveram. Até que estas somaram um número tão grande que já nem lembravam mais. Era beber!
Zé Martins pediu e recebeu o galo – ou pedaço de galo -, enrolou o presente num jornal velho, pôs no bolso largo do paletó roto e saiu contente. O sangue vermelho/enegrecido manchando tudo, jornal e paletó.
Um pouco atrás, na rua úmida de garoa fria, Siriri – também conhecido como matusquela – cochichou pro Macumbeiro: "Galo morto na briga? Como não!". Zé Martins ouviu e ficou brabo: "Então passa fome, nego véio". Macumbeiro, que tinha lá suas sapiências, falou de um matadouro de porcos cujo dono era evangélico, promovia a matança, lucrava com o morticínio, mas o sangue pra chouriço ele não dava nem vendia, deixava escorrer pra alimentar a terra. Então, Macumbeiro, que não era bobo nem nada e sabia que o sangue corria a mancheias, delineou um projeto que tinha: antes da mortandade começar, enfiariam um garrafão na terra, fariam um duto meio escondido e aproveitariam o sangue que a "terra não havia de comer". Claro que o projeto era meio maluco, mas projeto que não tem um pouco de maluquice, no geral, não funciona.
Foram, fizeram e se estreparam. No inicio deu tudo certo, mas na hora de retirar o garrafão foram pegos com a boca na botija. O pastor/exterminador de porcos tomou-lhes o garrafão e despejou o conteúdo em um riacho, que se avermelhou como se fosse o Nilo dos dez mandamentos. Coisa triste de se ver!
Pra mostrar seu bom coração, no entanto, ofereceu-lhes uma cabeça de porco semi-descarnada, que alguém menos avisado sobre a delicia que é uma cabeça de porco assada deixara ficar. Receberam a suína cabeça – que, na verdade, já começava a exalar um cheirinho comprometedor e por isso foi dada com tanta facilidade – como quem recebe uma medalha olímpica, e partiram mato adentro.
Na clareira da rocinha, ao lado de um olho d'água, doidos pra tomar mais uma, confabulavam embatucados com dois problemas. Primeiro: como fazer a cabeça de porco – e o que restava do galo – sem tempero e sem fogão? Segundo: como tomar mais uma sem um níquel no bolso?
O primeiro problema foi rapidamente resolvido por uma cadelinha grávida e extremamente suja que passava, e que aproveitou a reunião para comer o que restava de carne na carcaça, abocanhar o galo com jornal e tudo e sair em desabalada carreira. Já o segundo, por insolúvel a curto e médio prazo, acharam melhor esquecer por hora, porém Siriri, que além de enjoado era teimoso, disse de si para consigo: "Passar o Natal sem comer nada e sem molhar o bico é que eu não passo!".
Aí, foi escurecendo, dormitaram, acordaram, tornaram a dormir, sempre com o estômago nas costas, a boca seca e a cabeça tonta senão pela cachaça, pela falta dela.
De repente Siriri levantou. Olhou pra torre da igreja. Cutucou os amigos que esbravejaram, escoicearam, mas atenderam o chamado de levantar. Apontou pro relógio da torre e disse baixinho: "Daqui a pouco começa a missa do galo". "E daí?", perguntaram os outros dois. "Missa tem pão e vinho", respondeu Siriri pensativo. Demorou um tempinho, mas os outros compreenderam e trocaram olhares cúmplices, diria que até felizes.
Macumbeiro perguntou desesperançado: "E o padre não pode negar?". "Claro que não", respondeu Zé Martins, já juntando seus trecos. "Vamos nessa". E lá foram os três maltrapilhos em busca do alimento para o corpo, que a alma esta já estava pra lá de judiada.
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