SESC – Rua do Carmo

Não me lembro como a coisa começou, mas foi interessantíssimo. Há aproximadamente trinta anos foi criada uma alternativa de lazer para os paulistanos por uma iniciativa do SESC. Na Rua do Carmo, todos os domingos pela manhã, havia a feira do troca. Podia-se levar de tudo: livros, objetos de uso pessoal, discos de vinil, rádios, óculos, relógios… Enfim, a única coisa que não valia era dinheiro.

Era um espaço gostosíssimo, um convite ao descanso pitoresco, com conversa, interesses variados. Tudo ali, bem na porta do SESC da Rua do Carmo.

Algumas vezes freqüentei o lugar. Cheguei até a fazer alguns planos. Eu sempre tive planos – tudo muito simples, divertido, inusitado -, mas planos, coisas diferentes, dentro dos meus limites… E sempre valendo uma conversa, rápida, simpática e inesquecível.

Uma vez levei um par de óculos que não me serviam mais. Troquei por um livro com um rapaz bem simpático. Eu via o movimento, observava as senhoras indo ali mais para se divertirem, pois não precisavam de nada. Era visível isso.

Enquanto a feira acontecia, havia um pequeno espaço mais alto em que as pessoas declamavam suas próprias poesias, com o microfone em punho, seguido de aplausos quentes e interessados. Normalmente eram os mais idosos que subiam nesse pequeno palco e contavam algumas histórias de vida, algumas memórias. Uma tia do meu marido, a tia Amália, de saudosa memória, adorava escrever suas poesias e chegou até a publicar algumas. O SESC era o seu espaço mais aberto e acolhedor.

Voltemos à feira. Aquele escambo aos domingos pela manhã me deu um prazer enorme e me provocou muita curiosidade.

Assim que fiz o meu vestibular para História na USP e fui aprovada – depois de um esforço desmedido -, resolvi me vingar do meu passado inglório na Matemática. Peguei todos os livros dessa matéria e levei para a troca. Eu me sentia o máximo ao fazer isso. Bem dizia o grande Mário Quintana: "Se quiser dormir bem, faça uma boa vingança". Eu aceitaria qualquer coisa em troca daqueles livros. Tudo seria bem-vindo, desde que eu não visse mais na minha pequena biblioteca o referencial para essa disciplina, que tanto havia me tirado o sono e provocado pânico nas provas. Na longa Idade Média, centenas de livros de Matemática foram lançados nas fogueiras da Inquisição, pois acreditava-se que tal matéria era obra do demônio.

Desculpem a minha ignorância, mas, nesse caso, eu me sinto um verdadeiro ser medieval, com medo do castigo eterno! Caso necessário, eu preferiria me auto-flagelar, com chicote bifurcado nas pontas, depois passar urina e sal grosso nas feridas a ter que fazer uma prova de tal disciplina…

Muito bem! Quando vi exposta uma máquina de moer café, verde, do século XIX, não me contive: ofereci os meus livros, mostrando que estavam todos em excelente estado de conservação. O senhor, então proprietário da máquina, aceitou a troca de bom grado, visto que o mesmo tinha três filhas em idade escolar. Fiz o negócio na hora. Feliz, encantada, radiante. Mas havia um imenso problema: o peso, para mim, era algo monstruoso, do outro mundo, e eu estava de ônibus. Naquele domingo eu estava acompanhada da minha grande amiga, Ana Isabel, que me ajudou a carregar o valioso objeto histórico tão desejado. Não foi nada fácil. Digo: foi até desesperador. Mas eu estava me sentindo a pessoa mais importante do mundo. Só eu teria uma máquina de moer café do tempo dos imigrantes, do tempo dos italianos que ajudaram como ninguém na construção de São Paulo. Aquela máquina cheirava a vida, trabalho, suor e, sobretudo, esperança.

Desci do ônibus. Aí eu já estava sozinha. Fui subindo a rua que levava ao nosso apartamento na Avenida Lacerda Franco, como uma penitente depois de uma numerosa série de pecados mortais. Cheguei ao apartamento. Ufa! Mas quando abri a porta e gloriosamente anunciei o feito, com brilho nos olhos, não sei por que cargas d'água a minha irmã – bem mais nova do que eu – me esculachou de forma impiedosa que jamais consegui compreender. Herdando as sobrancelhas em circunflexo da minha mãe – mostrando a brabeza e o não espaço para a minha humilde defesa -, disse para eu esconder aquilo do pai. Parecia que aquela pirralha era a minha mãe e que eu havia cometido algo de terrível, macabro, assustador, que eu havia ludibriado alguém, tirado proveito de alguma situação inusitada.

Aquela cena, aquele manancial de água fria que levei no meio de uma cabeça sonhadora e cheia de romantismo pelo passado, me fez esconder a máquina debaixo da cama por muito tempo… Até que me casei e a levei embora comigo. Hoje está aqui, na minha casa, deitadinha no lado de cima da estante carregada de livros de História, de boas memórias e de muita poesia.

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