Era o início dos anos 1950. Tempo em que se podia brincar nas ruas sem o perigo de ser atropelado. Um tempo que as brincadeiras eram pular sela, mãe da rua, pegador, jogar bolinha de gude, empinar quadrado, brincar de mocinho, entrar descalço nas águas do Rio Pinheiros, entre a usina da Traição e ponte Cidade Jardim, para catar guarus.<br><br>Mas o que mais gostava mesmo era de jogar bola. Na Vila Olímpia, depois que saímos do Itaim Bibi, o que mais fazíamos era jogar bola, e pela bola fazíamos de tudo, em termos de tarefa que os pais davam aos garotos.<br><br>Eu, por exemplo, tinha de regar as plantas todas às tardes depois que o sol se punha. No inverno, em que todo ano geava, tinha de regar antes de o sol sair para não queimar as folhas das verduras da horta.<br><br>Mais tarde minha mãe ficou doente e, por três meses consecutivos, tive de lavar louça depois do almoço. Para que a coisa fosse rápida, outros garotos me ajudavam naquela tarefa. O gordinho enxugava os talheres, o Zé do Lixo ia colocando na gaveta, o Getulio varria o chão e o Hitler passava um pano molhado.<br><br>Pronto, estava tudo ok para mais uma tarde cheia de "pelada" na terra preta do campo do cometa, naquele ano de 1952. O jogo rolava bonito, era uma molecada de doze a quatorze anos. Todos bem entrosados, sabíamos até as caídas da bola.<br><br>Já à tardinha, quando os adultos chegavam do trabalho, tinha aquele jogo de gente grande contra moleques. Com mais de três horas de molecada soltando poeira pelo campo todo, os adultos tomavam um passeio de bola. Ficavam todos eles com raiva e começavam a dar botinadas para assustar. Mas nem isso adiantava, éramos todos ariscos. Quando vinha nego louco babando, todos nós já estávamos pulando. Quando estava já anoitecendo e a molecada estava querendo decidir a partida, que estava empatada, já vinham as mães gritando: “Ei, chega de bola, já está ficando tarde”. Eu gritava para minha mãe: “Péra, o jogo tá onze a onze, quem marcar o doze ganha”.<br><br>Quando o jogo terminava, começava a via crucis em casa: “Olha que sujeira, todo preto de terra. Não tem outro campo para jogar?”. Então ela pegava um caco de telha, mandava a gente entrar no bacião de tomar banho aos sábados e começava a esfregar, principalmente no calcanhar, para tirar aquele cascão, que deixava ele bem grosso e quase rachado.<br><br>Quando não jogávamos bola íamos andar de bicicleta. O desafio era subir a Avenida Brigadeiro Luiz Antonio até a Avenida Paulista. Quase todos paravam na metade do caminho. Já que uns paravam, eu também dava uma parada, pois era um dos poucos que subiam até a Paulista, já que minha bicicleta era meia corrida, inglesa, importada. Então a gente ia até uma doceira que lá tinha, de nome Pão de Açúcar. Tomava uma água torneiral e ficava com água na boca vendo os doces sem poder comprar. Nenhum de nós tinha mesada. Éramos todos filhos de operários.<br><br>Todos nós fomos crescendo, estávamos na mesma faixa de idade. E vieram os catorze anos e, naquele tempo, com essa idade, tinha de começar a trabalhar para ajudar o pai. Meu pai me levou na fábrica de móveis Artesanal, Rua Arnaldo (hoje Rua Urussui); o Ciniro foi trabalhar de padeiro na Wikibold; o gordinho foi para a casa da Bóia, na Florêncio de Abreu, e levou meu irmão José. O Zeca foi trabalhar na fábrica de plástico Plavinil, lá no fundão da Chácara Santo Antonio, onde hoje passa a Marginal Pinheiros. O Valter continuou entregando roupas que seu pai, tintureiro, lavava na sua casa.<br><br>Eu levava todo mês o envelope fechado e dava para meu pai; mesada neca. Jogar bola e empinar quadrado, agora, só nos fins de semana. Aí vieram os dezoito anos e todos tiveram de ir para o exército. Eu me apresentei no segundo batalhão de saúde, Avenida Independência, no Cambuci.<br><br>O Ciniro e meu irmão foram no IV RI, em Quitaúna. Eles iam até a Estação da Luz e lá pegavam o trem que os deixava perto do quartel. O Bolinha, Balotta e mais alguns foram no II esquadrão da Rua Manoel de Nóbrega. Lá, os selecionados que não fossem recrutados para aquele quartel iam ser enviados para Pirassununga, no esquadrão de cavalaria.<br><br>Todos estavam aprovados, com exceção do Bolinha, que tinha estatura menor e já estava praticamente excluído. Foi quando o Balotta disse: “Capitão, de todos nós, esse rapaz é o que mais sabe montar”. Então ele foi incluído no rol dos que iam pegar a farda. Foi uma maneira de fazer com que todos fossem – para desgosto do Bolinha, que já estava se vendo livre do exército. Depois, cada um vinha contar o que tinha acontecido nas provas de seleção.<br><br>Lá no quartel do Cambuci, eu cheguei numa segunda-feira com um jornal A Gazeta Esportiva para ler, pois julgava não encontrar nenhum conhecido. Que nada, lá estavam dois colegas que estudavam comigo no Senai e um amigo da Vila Olímpia e mais um que se juntou conosco. Nos juntamos e a farra começou (verbalmente, pois estávamos acostumados com o coletivo, ao contrário dos outros quarenta rapazes que, tímidos, ficavam quietinhos e muito assustados).<br><br>Todos nós fomos levados a uma sala grande, totalmente vazia, e todos ficamos encostados na parede, pelados, para fazer exame médico. Minha Gazeta Esportiva foi toda desfolhada para que as roupas não ficassem ao chão empoeirado. Risos aos montes partiam da turma de "sem vergonhas" e descontraídos. Nós que jogávamos futebol e estávamos acostumados a ficar pelados no vestiário estávamos todos descontraídos. Os outros, não. Cada um mais envergonhado do que o outro.<br><br>Na hora do exame de vista, foi colocado um pedestal no meio da sala, e cada um tinha de ficar de frente uns dois metros para ler as letras. Foi aí que a turma da "bagunça", que fazia até os militares rirem, deitou e rolou. Não dava para ficar sem rir. Tinha um ou outro que colocava a mão na frente e outra atrás querendo tapar as partes baixas, de vergonha. Tinha cara de todo jeito. Uns barrigudos com bilau do tamanho de um amendoim. Agora, o que mais fez a turma rir foi um japonês que tinha os pelos pubianos lisos, diferente dos nossos que eram crespinhos.<br><br>Dei o maior fora. O praça marcou meu peso errado, e eu, para consertar, disse: “Capitão, meu peso foi anotado errado”. Quem riu foram os militares, por ter chamado o praça de capitão. Teve um praça que gritou “foi promovido, Zé!”. Nunca entendi direito aqueles risquinhos que eles tinham nos ombros.<br><br>Na hora de fazer o exame escolar para saber a capacidade cultural de cada um, foi que a coisa ficou engraçada. Já era quase duas horas da tarde e ninguém tinha comido nada, portanto o mais rápido que saíssemos de lá era melhor. Falei para meus "cupinchas": “Olha, vamos errar tudo, porque os mais burros eles dispensam”. E assim foi feito, apesar de que tudo que tínhamos de responder era muito fácil. O sargento que atuava como professor começou a andar pelas carteiras e percebeu que todo mundo estava errando. Mandou todos pararem e foi explicando que aquela prova era para saber quem ia servir naquele quartel. Os que não tivessem condição boa de estudo iam servir em Mato Grosso. Foi um tal de desvirar páginas e apagar todos os erros.<br><br>Daí para frente, a coisa mudou de figura, e cada um foi procurar uma moça para casar. E todos casaram.<br><br>e-mail do autor: [email protected]