Aclimação… Reminiscências

Na minha infância, Aclimação era o melhor e mais bonito bairro da cidade de São Paulo. Aliás, ir até à “cidade” significava tomar o ônibus 17 e ir até o “centro”. Ponto final: Praça da Sé. Já atravessar a pé o Viaduto do Chá era uma aventura que dava uma deliciosa sensação de independência.

Quando surgiram os primeiros trolebus, os ônibus elétricos, foi uma farra. Mesmo caminhando um pouco mais no bairro, meus irmãos e eu preferíamos ir até a parada do 16 só pelo prazer de fazer uso dessa moderna condução.

A Avenida Aclimação (depois Avenida da Aclimação), larga, longa, em curvas amenas, era pavimentada com paralelepípedos e ainda mantinha em seu leito os trilhos dos antigos bondes que, infelizmente, não circulavam mais… Mas esses mesmos trilhos nos eram extremamente úteis. Sobre eles colocávamos tampinhas de alumínio dos litros de leite e, ansiosos, aguardávamos um automóvel, um ônibus ou caminhão passar suas rodas sobre elas. Milagrosamente, depois de amassadas, passavam a ser, em nossa imaginação, moedas para diversas brincadeiras. As calçadas também eram bem largas e arborizadas. A avenida terminava no Jardim da Aclimação – outra maravilha de nossa infância. Os portões de entrada, de ferro e imponentes; a alameda a seguir, repleta de eucaliptos altíssimos, circundava um grande lago. Do outro lado o zoológico, com imensa variedade de animais. Nossos preferidos eram os macacos com suas caretas, guinchinhos e atitudes divertidas.

Na fachada de nossa casa, já na calçada, havia uma caixa de ferro, tipo baú, incrustada num pilar de alvenaria. Pelo lado de fora, nas várias divisões, podia-se ler: cartas-jornal-leite-pão. Cada fornecedor tinha a respectiva chave. Os horários de entrega variavam, mas o leite chegava sempre às quatro da madrugada. Suas garrafas de vidro, tilintando umas contra as outras, sempre me acordavam. Mas o ruído não me incomodava. Era como um som familiar no meio da noite. Pela manhã, às onze horas em ponto, o padeiro retornava, agora trazendo, em sua carroça fechada, vários cestos com diferentes tipos de pãezinhos. Por intermédio de uma estranha corneta de borracha, anunciava-se uma espécie de buzina de ar. Mal ouvíamos esse som, íamos correndo até o portão escolher nossos lanches para a escola. Meus prediletos eram as cavacas e as cocadas.

Uma senhora gordinha de origem portuguesa, com uma cesta de vime equilibrada em sua cabeça, passava anunciando com voz forte: “ovos frescos, ovos frescos, ovos frescos, quem quer comprar?”. Aquele homem estranho empurrando um carrinho adaptado com rodas de bicicleta e um único pedal, soprando numa gaita de boca a escala musical de dó a si e de si a dó, significava que podia amolar facas e tesouras e também ferramentas cortantes. O verdureiro aparecia na boleia de sua carroça puxada por burro oferecendo suas verduras e frutas frescas.

Uma grande lata presa às costas por uma correia de couro era o tesouro de vendas de um espanhol velhinho. Dentro dela estavam os famosos bijus, deliciosos biscoitos longos, enrolados e extremamente finos. Numa das mãos ele sacudia uma tábua repleta de bolinhas de madeira amarradas umas às outras. Produzia um som intermitente e característico.

O homem do ferro velho puxava, ele mesmo, sua carrocinha de madeira e ia comprando até mesmo garrafas, graças a seu forte berro: “ferro velho, ferro velho, ferro velho”, sem pausas.

Com a primavera na cabeça, a vendedora de flores vinha religiosamente todas as terças e sextas. Seus buquês, num grande cesto, eram vendidos ainda com seu perfume.

O “compa-ropa” era um judeu de terno, gravata e chapéu pretos. Repetia o mesmo slogan várias vezes, no mesmo tom de voz.

De todos os fornecedores, o mais curioso era uma espécie de pastor de cabrinhas, que eram amarradas umas às outras com uma cordinha e todas com um sininho no pescoço. Ele as ordenhava recolhendo leite em uma grande jarra. Éramos obrigados a levar até ele nossos copinhos para que enchesse. Para os pais, o leite de cabra era tido como ótimo para ajudar no crescimento. Eu, particularmente, detestava, mas mesmo assim o tomava.

Os sons de nossa infância foram os mais variados, mas tão marcantes que mesmo hoje chego a ouvi-los em minha memória.

A escola primária “Externato Macedo Vieira”, comandada por sua diretora-proprietária Dona Filhinha, era um exemplo de ensino e a disciplina bastante severa.

Na Rua José Getulio ficava a única farmácia do bairro. Santo Agostinho era seu nome comercial. A famosa Mitzuco, farmacêutica, era conhecida por todas as famílias. Uma espécie de paramédica, dedicadíssima, aplicando injeções em domicílio, a qualquer hora e, por essas razões, contando com toda a nossa confiança.

As travessas da avenida foram aos poucos sendo asfaltadas. As mais planas (Esmeralda, a Safira e a Topazio), para as crianças, verdadeiras pistas de patins e bicicletas. Os meninos fabricavam, eles mesmos, seus carrinhos: uma longa tábua de madeira, uma menor e mais estreita como trave de direção, quatro rodinhas com pequenas esferas dentro e estava pronto.

O campinho de futebol foi promovido a pracinha com o pomposo nome de General Polidoro, redonda, com chafariz e iluminando uma estátua central. À noitinha, ponto de encontro de adolescentes. Críticas espirituosas e inocentes dos meninos deixavam as meninas com seu “ego” lá em cima ou lá em baixo.

A inauguração do Cine Climax, na Rua Espírito Santo, foi uma verdadeira festa. Até então, todas as salas de cinema encontravam-se no centro da cidade. Essa deliciosa diversão veio para pertinho de nós e estava sempre lotada.

O Tênis Clube Paulista, apesar de quase no bairro do Paraíso, merecia cansativas galgadas a pé – ladeiras pra subir e mais ladeiras para descer. Os esportes, desde o tênis, passando pelo vôlei, futebol e basquete e natação, eram levados a sério: competições internas ou interclubes, eventos sempre concorridos.

O “Morro”, como apelidamos o morro da Aclimação, foi pouco a pouco se transformando numa prolongação do bairro. Novas casas foram sendo construídas e o ponto culminante foi a edificação da Igreja Matriz: Nossa Senhora do Carmo. Padre Neves, além de rezar missas, dava uma atenção especial aos paroquianos. Assim, aos domingos, tínhamos mais uma programação prazerosa.

Os nomes das ruas do bairro eram bastante curiosos. De um lado da avenida estavam os planetas Júpiter, Saturno, Urano… Do outro lado, pedras preciosas: Jaspe, Esmeralda, Safira, Rubi, Ágata, Diamante…

Das famílias (todos se conheciam) poderia citar um sem número, tais como Carvalho Pinto, Nogueira Garces, Simonsen, Delfim Neto, Anhaia Mello, Gebara, Esper, Daher, Cardamone, Pinotti Chaves, Esteveaux e tantas outras que como a nossa tiveram a felicidade de lá passar parte de suas vidas. O mais ilustre morador do bairro foi, sem dúvida, Monteiro Lobato, uma figura ímpar. Recebia em sua casa, sempre com alegria, todas as crianças do bairro. A conversa era inteligente e divertida e ele nos presenteava sempre com um de seus livros infantis.

Aclimação! – onde nasci.
Aclimação! – onde cresci.
Aclimação! – onde casei e onde fui mãe.

Ter respirado, por mais de trinta anos, esse ar puro infiltrado de solidariedade, sossego e muita paz, foi um pedaço do céu na terra.

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