Ludicidade de uma época na Vila das Belezas

Bons tempos de criança na década de 1950, quando as brincadeiras nada se pareciam com as de hoje. Época em que o pai trabalhava e a mãe cuidava do lar, em sua grande maioria; usava-se o termo prendas do lar, em desuso hoje.

Em minha infância na Vila das Belezas e Jardim São Luiz, na década de 1950, ainda alcancei a época das histórias, dos causos, dos contos da carochinha e dos contos das arábias, narrados pelos nossos pais e que povoaram a minha imaginação e a das crianças dessa época, de uma forma geral. Anos ainda sem a televisão e sem rádio, pelo menos nessa região periférica da cidade, mesmo porque a TV era incipiente e o máximo que assistíamos no final da década de 1950 era o televizinho; o rádio, que geralmente não sintonizava bem, era mais ruído que som musical ou programas. Para se ouvir a copa do mundo de 1958, o som era terrível, inaudível, colava-se o ouvido no aparelho para tentar ouvir algo.

Tempo dos pequenos secos e molhados e armazéns, onde nossos pais compravam os alimentos e utensílios em geral e mandavam marcar na caderneta. No final do mês, somávamos em casa para ver se batia a conta final com a do dono do armazém – no nosso caso, o armazém do Manézinho, da Rua Artur Bliss. Quando Manézinho ia lá no fundo do bar buscar algo que pedíamos, aproveitávamos sua ausência e tirávamos algumas guloseimas da vitrine de madeira com tampo de vidro, de fácil abertura e que servia de balcão. O maior armazém da região, porém, era o do Primo Gazzotti, na estrada de Itapecerica. Tinha de tudo, de ferramentas a alimentos.

Era muito bom buscar o leite naquela garrafa bojuda de leite Paulista com a tampinha frágil de alumínio, a qual furava para ir bebendo o líquido. Quando chegava em casa, faltavam uns três dedos de leite e a bronca da mãe era inevitável. No açougue de geladeiras de madeira, a carne era enrolada com jornal; por baixo, tinha um filme plástico para proteger. As padarias ainda não tinham o pãozinho francês – era filão, broas.

Como a maioria das crianças dos bairros de São Paulo – principalmente aqueles após o Rio Pinheiros e Tietê e outros, muito distantes do centro da cidade na época -, tinha como divertimento a rua. Havia os mais diversos tipos de brincadeiras, desde cedo até à noite, mesmo sem iluminação pública e ruas sem asfalto, lembrando muito as chácaras e fazendas distantes. Mesmo assim, havia o lúdico para todos os gostos.

As décadas de 1950 e 1960 foram o auge dos álbuns de figurinhas esportivas, distribuídas pelos saudosos carros Ford baús verde-escuro das empresas Doces e Balas Bela Vista e Doces e Balas Neuza. As figurinhas, primeiramente, eram envoltas em balas e depois em envelopes. Era uma verdadeira festa quando anualmente se lançava essa promoção, em que quem completava o álbum ganhava muitos prêmios, bolas, fogão, rádio etc. E como dava gosto de colecionar! Sempre faltava uma para completar o álbum, e era a carimbada. Quando não tínhamos algumas, jogávamos o chamado bafo. Às vezes se molhava a palma da mão para virar o maior número de figurinhas possível, ou se fazia a troca. Uma coisa aproveitávamos bem: sabíamos escalar todos os times, coisa impossível hoje em dia. Prova é que hoje os álbuns seriam um fracasso, pois os jogadores não ficam, na sua maioria, mais do que uma temporada nos seus times.

Nas ruas tínhamos brincadeiras como mãe da rua, bate lata, pula cela, pique, malha, caxeta, futebol, carrinho de rolimã, triciclo, esconde-esconde, queimada, peteca, rodar pião, bolinha de gude, soltar balões, balões tipo chinezinho, balões tipo galinha morta (era um jornal fixo pelas quatro pontas formando um balão e tocava fogo nele; quando ficava todo queimado, ele subia pela diferença de pressão e se desmanchava no ar, virava cinza), soltar quadrados ou pipas, capuchetas (um tipo de pipa feito de jornal dobrado em triângulo; era frágil, mas subia), pescar, caçar.

Nadávamos nos lagos sujos e barrentos formados pela água da chuva. Nesse caso, íamos logo cedo, pois, após algumas horas, a água ficava barrenta pela movimentação da meninada, e depois do meio dia ninguém entrava mais de tanta lama; aí, nadar, só no dia seguinte, cedo. Melhor era ir no córrego límpido da região baixa do bairro, córrego do morro do S, que desaguava no Rio Pinheiros a céu aberto. Pescava-se e nadava-se nele. Hoje, é todo canalizado e puro esgoto e ladeado pela Avenida Carlos Caldeira, Giovanni Gronchi e Avenida João Dias.

As meninas brincavam de boneca mesmo, casinha, amarelinha, pula cela, peteca e bambolê.

Também, como a região era de muita mata, caçávamos todo tipo de passarinhos, com estilingue, com forquilha de pé de goiabeira; a borracha era da câmara do pneu da bicicleta do pai, e o couro, do sapato velho.

Na mata encontrávamos vários tipos de frutinhas, como Maria pretinha, gabiroba, coquinho, sapé, cujo caule era docinho, conhecido como caninha, goiabinha, araçá. O mês de agosto era tempo dos iças ou tanajuras, formigas de traseira arredondada, bolota, que saíam voando dos formigueiros de saúva e logo caíam. Muito se pegava para tirar o traseiro e fritar e comer com farinha; a turma se deliciava com essa iguaria. Alguns tinham nojo de ver aquela gosma branca: ao estourar essa bolota, saía um liquido semelhante ao da jabuticaba.

Entre a Vila das Belezas e Jardim São Luiz, havia um bairro recém loteado chamado Jardim Brasília, que na sua parte baixa era um brejo muito grande e havia uma proliferação de taboa, que apanhávamos para dar e até vender para quem fazia artesanato. Sempre perdíamos o tênis ou sapato no lodo, pois atolávamos até o joelho. Sem esquecer que também pegávamos muitas rãs e às vezes sapos, por engano, naquele lodo.

O nosso futebol era jogado nas ruas ou então em terrenos carpidos e não construídos, que geralmente tinham as medidas de 10m x 25m, ou 25m x 50m – medida padrão dos terrenos que viravam verdadeiros campos de futebol e onde se disputavam grandes rachas (partidas de futebol). Os times eram formados por nomes das ruas. Jogava a rua 25 contra a rua 36, rua A contra a rua C e assim por diante. Revelavam-se meninos bons de bola que depois iam para os melhores clubes da várzea da região, como o E.C. Jd. São Luiz, Vila das Belezas F.C., Continental F.C, A.A. Portuguesa da V. das Belezas, Vasco da Gama (Vasquinho do S. Luiz) e Estrela do Norte F.C., dentre outros. Jogava-se descalço, de alpargatas rodas ou conga, com bola muitas vezes de meia de seda de nossas mães com recheio de papel, jornal e, às vezes, com bola de borracha, que se ganhava no Natal. Quando parecia uma bola de capotão, a alegria era geral, e o dono da bola era titular do time. O gol era feito de pedaços de tijolos, pedras ou tocos. Quando a bola batia na pedra era uma briga se era ou não gol, e quando a bola ia por cima também, a culpa era do goleiro que era baixinho. Portanto, valia o gol. Quando no melhor do jogo a mãe resolvia chamar a gente para ir embora, era uma bronca só, mas tinha que ir.

Também numa certa época do ano brincava-se de um jogo chamado taco. Consistia em usar uma bola de tênis e um pedaço de pau qualquer, que chamávamos de taco. Usava-se uma rua reta e plana e numa distância de aproximadamente 20 a 30 metros. Colocava-se no chão uma casinha formada de forquilha e a intenção era arremessar a bola de tênis e derrubá-la, e o parceiro oponente ao lado tinha a função, por trás dessa casinha, de rebater a bola. Muitas vezes a bola se perdia nas casas do lado, ou o taco saía voando pelos telhados ou mata da vizinhança.

Quantos colegas dessa década de 1950, que nasceram aqui em nosso bairro, ou crianças que vieram de outros, dos quais agora lembramos uma pequena parte como: Dito, Negrinho (mas era branco), Zé Evaristo, Todinho, Aparecido, Oliveira, Canhão, Tião, Nelson, Gute, Zé Baiano, Aimoré, Germano, Raimundo, Américo, Luiz, Same, Hélio, Isaias, Juca, Catito, Carlos, Rosevaldo, Macalé, Zezé, Sebastião, Antonio, o popular Cidade (pois tinha vindo criança da Cidade Adhemar), Vavá, Moacir, Waldemar, Baltazar, Beto, Carlão Agamenon, Zezinho, Gandolfo, Osni, Orli, Caetano, Marcílio, Chico pé descalço e tantos outros que fizeram a história desse bairro e região.

Quando alguém se machucava, a solução estava em urinar no esfolado do joelho ou na unha arrancada do dedão e depois jogar em cima a poeira do solo – melhor remédio não tinha. Ou ainda uma alternativa de Dona Brasília, uma senhora cheia de segredos: colocar teia de aranha no machucado com um pouco de cinza que sempre tinha no fogão a lenha. Curava na certa.

Todas essas atividades infantis tinham a sua época certa; não sei quem determinou isso, mas era interessante a ordem, por exemplo: balões nas festas juninas, quadrados ou pipas em julho e agosto, devido à época de ventos mais fortes e férias escolares. As outras brincadeiras também tinham sua época certa e assim passava-se o tempo, o ano.

No início da década de 1960 começaram a aparecer os circos em nossa região. Um dos mais conhecidos era o Circo do Querosene e Circo Rosália, que se instalavam sempre perto do ponto final de ônibus S. Luiz e V. das Belezas. Para promover o espetáculo, saíam em caravana pelas ruas de terra do bairro cantando e brincando, convidando os moradores para comparecer à noite, e a molecada em bando ia atrás, como se fosse uma procissão. Era mais uma coisa para passar o tempo. Em troca, ganhava-se um ingresso. Aqueles que não ganhavam passavam por baixo da lona e entravam. Por aqui, nos anos 1960, também aparece um circo especial, que se fixou onde hoje é o CEU Vila das Belezas: era a caravana do peru que fala, nada menos que o Silvio Santos com seus artistas, ainda no inicio de carreira.

Geralmente à noite íamos um na casa do outro para conversar e ouvir histórias contadas pelos mais velhos, mas a preferência era ir num vizinho que morava numa chácara, um casal de idade vindo de Pindamonhangaba, Senhor João e Dona Brasília. Não possuíam filhos e eram os que mais sabiam contar causos. Eles tomavam conta de uma chácara onde tinha um casarão com fogão a lenha, mesas rústicas de madeira, paredes fortes e mal pintadas e cheias de teia de aranha, que propiciava histórias de terror. A água era obtida de um poço e extraída por sarilhos, corda e um balde, como em todas as casas da região – nem bombas Rymer havia ainda.

Na entrada da chácara, um jardim com traços de que um dia foi bonito, parecendo ter sido casa de fazenda. A frente da chácara era toda fechada por uma barreira de ciprestes que, em época de ventania, até assoviava, parecendo o morro dos ventos uivantes, de Emily Jane Bronte. Vale salientar que nesse local havia três grandes casarões, que tínhamos medo de entrar, e todos cercados por ciprestes. Até hoje indago quem morou por aqui até a década de 1940, que nem sinal de vida deixou em plena mata fechada.

A iluminação era feita com lampião a querosene, um em cada cômodo. Eram pendurados no centro dos salões, tinham os vidros sujos de fuligem, dando um aspecto sombrio; ali ouvíamos os causos e o medo tomava conta da gente.

Era muito bom ouvir as histórias, lendas e contos de Pedro Malazarte, Jeca tatu, mula sem cabeça, saci pererê, bruxas, lobo mau. Quando a história era de fantasmas, o arrepio era geral. Depois, para ir para casa o medo era grande; qualquer ruído nos arbustos era motivo para correria e estas histórias, creio, contribuíram para que a meninada começasse a ler gibis de todos os tipos – e quem sabe, devido a isso, nasceram muitos escritores.

Nas noites de verão, era comum a revoada de vaga-lumes que enfeitava as noites com seu pisca-pisca de cor esverdeada, que atraíam todas as crianças e adultos. Era gostoso pegar esses insetos que, em nossas mãos, davam estalos querendo fugir. Onde andam esses pirilampos e as borboletas coloridas de nossas ruas?

Hoje, passados 58 anos, nosso bairro praticamente já está incorporado ao Morumbi, onde os prédios brotam como sementes de feijão e vem para nossa direção como rolo compressor. Mesmo os bairros novos que surgem no chamado fundão da zona sul, queira pobres ou não, invasão ou condomínio, já nascem com toda infra-estrutura e a modernidade atual, como asfalto, luz elétrica. As casas ricas, ou não, já tem TV, som, computador, telefone – é a globalização.

E quanto ao lúdico? As crianças hoje em dia, ainda novinhos, já ganham celulares, mp3 a mp7, notebook, walkman, e por isso ficam preso em casa dia e noite, a ponto de a maioria não conhecer seu vizinho, mas sempre haverá uma casinha, uma família incrustada em algum canto, lembrando tempos antigos e que povo sem história é povo sem memória.

e-mail do autor: [email protected]