Procurando casa em São Paulo – Parte I

Chegando da Europa para morar em São Paulo no ano de 2001, resolvemos procurar uma casa para alugar. Estávamos hospedados em Atibaia até conseguirmos moradia, e alguém nos indicou um corretor de imóveis conhecido do bispo local para nos ajudar.

No dia marcado, mal o sol havia nascido, lá estava o bom homem no portão da chácara onde estávamos. O nome dele era Edson, era baixinho, de bigodes e cabelos empastados de brilhantina.

Durante um mês e meio, o Edson fielmente nos esperava na estação Tietê ou até nos buscava em Atibaia para nos levar por diversos bairros de São Paulo, atrás da casa de que precisávamos.

Edson mostrava muito bom humor no inicio da aventura, mas isso mudou gradualmente para uma quietude desconcertante e para um mau humor aparente, quando chegamos à casa número quinze e ainda não havíamos nos interessado por ela. Depois de umas vinte e duas casas, ele ainda estava nos dirigindo pra cá e pra lá, porém, num silêncio total.

Depois da casa número vinte e cinco, e do que aconteceu em seguida, nunca vimos o Edson de novo e tivemos de nos virar sozinhos. Eu conto o que aconteceu, mas primeiro quero descrever as casas que ele nos mostrou. Todas elas tinham uma característica em comum: jamais moraríamos nelas. E o maior problema com o Edson é que ele não conseguia enxergar o porquê.

A primeira casa que ele nos mostrou era o que chamamos de Casa Amarela. Cruzamos uma ponte e lá estava ela, brilhando ao sol. Não poderia deixar de ser vista nem à distância, porque era realmente amarela-ovo, por dentro e por fora. Ao entrarmos, sentimos como se estivéssemos pisando numa gema de ovo que se espalhara nas portas, paredes, teto, escadas etc. Tudo, mas tudo mesmo, era amarelo. Não havia como se esconder da cor. Fiquei só alguns minutos dentro da casa e saí para tomar ar – era sufocante. Corri escada abaixo, segurando no corrimão, no caso de ficar cega com tanta luz amarela, seguido por Edson, muito chateado e perguntando o que estava errado. Mas ainda era o começo.

Vimos, em seguida, a Casa do Cachorro (demos nomes para todas as casas que vimos). Esta era uma casinha branca, no bairro da Saúde. Havia um pequeno jardim na frente e um quintalzinho atrás. Um corredor separava o jardim da casa ao lado, e no muro, um portão azul, pelo qual um cachorro enorme e peludo entrou correndo e se atirou em nós, latindo e tentando morder minhas pernas. Edson parecia completamente indiferente ao ataque do cão e continuava falando sobre a casa, a rua e o supermercado “logo ali”. Não agüentando mais, chamei o dono do cachorro que estava calmamente pegando abacates da sua árvore. “Num adianta brigá com esse cachorro”, disse o vizinho se apoiando no muro. “Ele pensa que a casa é dele e vive aí. Eu fecho o portão, mas ele pula”. E, olhando pra mim, com um jeito meio sem graça, ele perguntou: “A senhora gosta de cachorro?”. “Não, eu não gosto, e tenho um gato. Especialmente os cachorros do vizinho que não foram convidados.”

Novamente dissemos não para o Edson, que já havia perdido metade do sorriso.

Semana seguinte, vimos a Casa Branca e a Casa do Grafite, uma na Aclimação e a outra na Vila Mariana. A Casa Branca ficava no alto e, para chegar à porta, precisamos subir uns trinta degraus. Edson entrou primeiro e imediatamente foi engolido por aquela branquidão toda. Do mesmo jeito que a Casa Amarela era… amarela, a Casa branca era branca. Clinicamente branca. Banheiros e azulejos, cozinha e chão, paredes, portas, tudo pintado de novo. Em branco. Parecia que tinha caído neve dentro.

Andei em volta um pouco, pensando que talvez algo tivesse acontecido com a minha visão, esperando que um médico e algumas enfermeiras passassem (quem sabe o Edson nos trouxe a um hospital por engano). Edson tentava minimizar o problema nos dizendo que poderíamos usar acessórios coloridos. Concordei em falar com a firma que estava alugando o imóvel e perguntar se poderia pintar algumas paredes de outra cor. No escritório, sentada à frente de um homem carrancudo, coloquei a pergunta. “Imagine só, mudar a cor da casa! Acabamos de pintar. Não, não pode mudar nada e quando sair da casa queremos tudo do jeito que está agora. Se estragar alguma parede, pinte de novo, de branco.”.

Pensando em meus dois adolescentes e seus amigos e no gato, decidi que branco seria uma escolha terrível. Saí do escritório seguido por Edson, muito calado, me seguindo a certa distância.

A Casa do Grafite era isso mesmo: uma casa cujo muro estava coberto de grafite. Corações e flechas, palavras de baixo calão, frases sem sentido. Do lado da casa, as mensagens eram nas próprias paredes. Três sujeitos estavam sentados ao lado do muro, fumando algo que não cheirava bem. Tivemos de pedir licença para entrarmos na casa, mas eles simplesmente estenderam as pernas e demoraram a se mover. Tentei dar um sinal ao Edson indicando que já não estava interessada na casa, mas ele estava de costas para mim, no jardim imundo, pegando papéis e latas de cerveja do chão enquanto conversava alegremente comigo. Ele simplesmente não conseguia ver os problemas e nos considerava clientes muito difíceis.

A Casa com a Mulher era uma outra versão da Casa do Cachorro, mas mais sinistra. Vimos esta casa num dia lindo de sol e até o Edson estava de bom humor, como no início da nossa saga. Ele nos disse que iríamos ver uma casa muito boa e desta vez nós ficaríamos com ela. Edson havia trazido um amigo com ele no carro, um homenzinho franzino e muito sorridente, que reforçou a idéia de que a casa era excelente. Era no bairro do Ipiranga.

A primeira impressão foi muito boa. Muito limpa, jardim bem cuidado, cômodos grandes. Pela primeira vez havia um raio de esperança. Seria esta a nossa casa? Saímos no quintal, e ali, atrás de um murinho baixo, no quintal do vizinho, estava a Mulher. Ela parecia ter uns cem anos e era imensamente gorda, espalhada numa cadeira de lona, vestindo uma espécie de sarongue. Ela olhava fixamente para nós e não tirou os olhos do nosso lado do quintal nem por um minuto. Eu tentei cumprimentá-la, mas ela não respondeu, apenas continuou sentada olhando para mim. Andei até o canteiro de flores. Seus olhos me seguiram até lá. Passei por baixo da linha do varal. Ela continuava me acompanhando. Entrei na cozinha e olhei pela janela. A Mulher estava agora debruçada no muro, olhando para dentro do que seria o meu quintal. Fixamente. Edson tentou contornar a situação. “Não ligue para a Dona Maria aí do vizinho”, ele disse, com uma voz forçadamente alegre. “Ela não faz nada. Só olha. Ela não gostava do casal que morava aqui antes, mas vai gostar de vocês”.

Fiquei imaginado o que havia feito o casal mudar da casa e se tinha algo a ver com a Maria do lado. Tive que recusar a casa “perfeita” e tive que pagar um guaraná e um lanche, para animar novamente o Edson e o colega que ele havia trazido junto para ajudar a me convencer.

Aguardem a segunda parte da aventura “Procurando casa em São Paulo”.

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