Quando era criança, o futebol se destacava. Não tinha jeito; parece que nascemos com a bola na mão, ou melhor, nos pés. Jogávamos descalços e chutávamos de todo jeito. Nunca vi ninguém torcer o pé ou sair machucado devido aos campos, até mesmo improvisados, que nós mesmos fazíamos.<br><br>Quando já aos catorze anos, colocando chuteiras nos pés a coisa era diferente: tínhamos que se adaptar ao novo acessório nos pés. Então, um time de molecada, agora com camisas, embora rotas rasgadas e desbotadas pelo uso dos adultos, formamos um time que estava bastante azeitado, depois de anos jogando peladas diariamente.<br><br>Um dos primeiros jogos foi na Favela do Vergueiro. Boca era o goleiro – por ser gordinho e ruim de bola, para ele sobrou o gol (o que era feito a todos que queriam, de qualquer jeito, jogar, principalmente se o garoto era o dono da bola). Naquele domingo pela manhã, na preliminar de um jogo dos favelados, lá estava o "Mirim" do Flamengo da Vila Olímpia, chamado de Flamenguinho. Estavam todos os garotos descontraídos. Medo de favelados, que nada. Neguinho dava dribles, chaleira, fazia bolinha na frente dos adversários sob os aplausos dos assistentes, canetas, carretilhas e outras coisas para um brilhareco de moleques irresponsáveis, acostumados a fazer essas coisas entre nós, nos terrenos baldios ou campos da Vila Olímpia.<br><br>Quem destoava da turma era justamente Boca, o goleiro. É bem verdade que a turminha nem pensava em placar; o que gostávamos mesmo era de dar show, mas ver a bola entrar toda hora já estava enchendo o saco de todos. E as reclamações já estavam pipocando. “Boca, todas que vão aí, entram”, diziam, gritando. Quando fui buscar a bola na rede, num dos gols dos favelados, falei para o Boca: “Presta mais atenção”. Ele, trêmulo, disse gaguejando: <br>- Taaaa veeendo aqueleee cara ali? <br>- Sim, e daí?<br>- Ele está com uma faca dizendo que vai furar minha bunda.<br>Então, estava justificado o porquê de muitas bolas entrando.<br><br>Naquele tempo já tinha picaretagem e muita vagabundagem. Afonso, filho da dona Iésse, era um. Trabalhar nada. Jogar bilhar tudo. Mas e o dinheiro, posto que ele não trabalhava? Um dia, pela madrugada, sua mãe acordou com um barulho. Foi na cozinha ver o que se passava por lá, e viu seu filhinho querido e mimado roubando dinheiro que ela escondia em latas de arroz e feijão. Surpreendido com a mão na massa, disse, na maior cara de pau: “Mãe, estou com fome, e procurando a lata de mandiopã”.<br><br>Roubar frutas nos quintais ou chácaras – o que tinha muito nos bairros de Itaim Bibi, Vila Nova Conceição, Vila Olímpia e Brooklin Novo – era uma farra. O único problema eram os tiros de sal que os donos das propriedades invadidas faziam. O sal era colocado numa espingarda, feita artesanalmente, chamado de ronqueira. O alvo eram sempre as nossas nádegas. Gente, como ardia quando o sal penetrava naquela pele, geralmente bem tratada pelos papéis ali passados quando das necessidades!<br><br>Quem fazia aquele armamento (ronqueira) era o Heitorzinho, filho de Dona Julia, tia de minha mãe, uma costureira de fino trato cujas clientes eram do Jardim Paulista. Eram constantes as refregas que ele tinha no bairro do Limão onde morava. Como Dona Julia morava longe e demorava a chegar ao serviço, resolveram arrumar uma moradia nos Jardins para ela. A rua era a Peixoto Gomide, mas Heitorzinho se recusou a morar com ela. “Não mãe, pra lá eu não vou; é um bairro de frescos, não se pode fazer nada que ficam enchendo o saco. Prefiro ficar por aqui mesmo”.<br><br>Só que as estripulias dele com ronqueiras davam o que falar no pedaço, e reclamações para Dona Julia eram aos montes. E quem tinha que resolver esse problema era ela, já que Seu Heitor, o marido, tinha dado o pirulito e não se sabia de seu paradeiro?<br> <br>Aí vieram os anos 1960, que foram ótimos, pois foi uma década de muita cultura e muitos movimentos musicais, desde o grande Show do Teatro Paramount, organizado por Walter Silva (o pica-pau), onde surgiu para o público Elis Regina, que fez a festa com Jair Rodrigues, de onde saiu o LP dois na Bossa.<br><br>Logo depois, o primeiro festival de música que a TV Excelsior fez, cujo palco foi o Guarujá, apresentado por Kalil Filho. Depois, os festivais ficaram a cargo da TV Record, já que o dono da Excelsior tinha caído em desgraça com os donos do poder (os militares). O festival mais lembrado foi o de 1966, quando Chico Buarque e Jair Rodrigues empataram em primeiro lugar por causa do fanatismo dos fãs-clube de ambos. Na verdade, “Disparada”, de Geraldo Vandré tinha sido escolhida como vencedora. Mas para evitar uma confusão maior, o empate foi consenso de parte a parte.<br><br>Quando faltava quase um ano para terminar a década dos anos 1960, houve o escurecimento por causa do AI-5, baixado no dia 13 de dezembro de 1968. E o ano seguinte foi pior ainda, com prisões e luta entre militares e guerrilheiros, e não melhoraram nos três primeiros anos da década dos anos 1970.<br><br>Já estávamos em 1972, e o córrego da Traição já era uma avenida. Tinha sido canalizado. Ainda bastante calma em termos de trânsito. Por ser uma avenida de três faixas e sem semáforos, a velocidade não era controlada. Então, os carrões da época, Opalas, Mavericks e Fuscas envenenados, apostavam corrida.<br><br>Ficava com meu filho (o único, até então, com seus pouco mais de dois anos) vendo o movimento. Ele já era um expert em marcas de carros. “Que carro é esse filho?”. “Obala”, referindo-se ao Opala; “Maverik”, “Voks”, e assim por diante. Quando passava um carro antigo, ele dizia: “Carro tio Zé”.<br><br>Meu irmão tinha um Ford 1940. Numa noite quente, que era mais para ficar na rua, ficávamos meu filho e eu vendo os carros passarem, na calçada de casa. Numa noite ainda na escuridão, pois não tinha iluminação, um barulho chamou atenção. Era um atropelamento. O atropelado era um favelado que fora buscar a mulher que estava numa igrejinha de crente ao lado da minha casa. O atropelante era um japonês que, devido à escuridão, não viu o cidadão, que era moreno e estava de roupa escura.<br><br>Prestamos socorro e fui anotado como testemunha. Como o atropelado era pobre e morava numa favelinha que ficava num terreno da Rua Gomes de Carvalho, o atropelante contribuiu com mantimentos e roupas, por livre e espontânea vontade. Devido a isso, passou a ser explorado pelo favelado, que exigia mais dinheiro para comprar sapato, que tinha perdido na hora do atropelamento. Na verdade, sempre quando se vê um atropelamento, os sapatos saem do pé do atropelado. Quando um sapato é visto na via pública, para mim existiu ali alguém atropelado.<br><br>Num domingo, o japonês foi em minha casa, para que eu fosse testemunha que ele tinha ofertado o calçado que fora pedido pelo favelado. Era um domingo antes do almoço; comigo foi meu filho Mário Sérgio, que estava com dois anos. Conversa vai, conversa vem, meu filho ficou brincando com uma criança da favela. Voltei para casa e minha mulher perguntou onde estava o filho. Aí que me dei conta de que tinha esquecido ele na favela. Voltei na favela para buscar o garoto e ele estava numa brincadeira que, pelo jeito, estava muito legal. Era esconde-esconde. “Onde está meu filho?”, perguntei. A resposta veio da mulher do pedinte: “Olha, ele está escondido debaixo da cama, esperando ser descoberto pelo meu filho”.<br><br>Favela ainda era coisa incipiente pelos lados da Vila Olímpia e Brooklin Novo, e até que demorou muito para invasores de terras públicas descobrirem o vasto terreno à beira do córrego da traição. Eis que, de repente, um barraco é erguido quase em frente a minha casa, e depois que o zinco foi colocado em cima, surge um mancebo com um saco de estopa nas costas cheia de babilaques, entre os quais cachimbos e pontas de charutos catados do comitê político do doutor Adhemar de Barros. Objetos estes que ele guardava como relíquias, já que era um adhemarista roxo.<br><br>A coisa ficou mais valiosa quando Capuleta falou que as pontas de charutos eram de Getulio Vargas, quando veio no Anhangabaú fazer comício na eleição de 1950. Na verdade era cascata, porque qualquer burguesão da época fumava charuto. A partir daí, foi um tal de construir barracos que perdi a conta de quantos tinha.<br> <br>Era um tal de vir mulheres sem maridos, com várias crianças sem roupas correndo pelas ruas, ou então tocando campainhas pedindo comida e roupas. Sabia-se que, pelo menos, três das mulheres com barracos ali construídos eram de um mesmo homem, que no total de filhos tinha mais de dez.<br><br>A favela estava cada vez maior. Só não cresceu mais porque era o tempo do esquadrão da morte, que em uma madrugada baixou por lá e deu mais de trezentos tiros e incendiou todos os estofados que estavam pelo lado de fora dos barracos incendiados, todos os que estavam pelas imediações. Com a promessa de voltar e botar fogo nos que sobraram, não mais se construiu barracos, ficando somente aqueles remanescentes. Quando veio o projeto de construção da Avenida dos Bandeirantes, os favelados saíram na marra, sem que moradias para eles fossem prometidas.<br><br>e-mail do autor: [email protected]