São Paulo, outubro de 1973. O governador do Estado era Laudo Natel e Manoel Gonçalves Ferreira Filho, nosso grande catedrático da cadeira de Direito Constitucional da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Tínhamos como diretor o saudoso professor José Pinto Antunes, e Drynadir Coelho como sua fiel escudeira.
Não se sabe bem de quem foi a idéia e a decisão à época de transferir as Arcadas, com seu passado de tantas tradições e glórias, para a Cidade Universitária. Mas, na certa, quem foi não sabia que não se pode mexer impunemente com o Chão Sagrado da Velha Academia de Direito, pois sempre se vem à mente de todos que por lá passaram a velha trova:
“Quando se sente bater;
No peito heróica pancada;
Deixa-se a folha dobrada;
Enquanto se vai morrer”.
Cursava o terceiro ano e, junto com tantos outros, nos unimos e lutamos para que isso não se transformasse em realidade. Grupos se formavam pensando no que fazer para derrotar a absurda possibilidade.
Tínhamos o nosso, com Luis Eduardo Gotilla, José Renato Teixeira, Fernando Assumpção Galvão, Walter Lapietra e eu. E contávamos, como nosso articulador, com o amigo querido Caio Pompeu de Toledo, que de sua já boemia romântica traçava as estratégias nas madrugadas do antigo Carreta, na esquina da Pamplona com a José Maria Lisboa. Lembram-se da Pizza na Pedra? Do Luis? Do lugar que Toquinho freqüentava nos anos 70?
Dia 30 de outubro de 1973. Era o fatídico dia da traição. As vozes dos estudantes não bastaram para reverter a decisão que matava histórias, lendas e personagens.
Cerimônia marcada para as 10 horas da manhã na Cidade Universitária, com palanque de autoridades, imprensa e tudo o mais. Dentro de uma caixa de latão preparada para a data, é colocado um pergaminho com muitas nobres e inconscientes assinaturas com um texto com dizeres que terminavam com a frase “(…) para que continue no campus da USP a exercer sua função imorredoura de inteligência e civismo.”.
E às 11h00min. daquele dia, a “pedra fundamental” foi enterrada no terreno insalubre a ela desgraçadamente reservado.
Mas tínhamos tudo já planejado para que à noite roubássemos a “pedra” e a devolvêssemos ao Chão Sagrado das Arcadas, junto à Tribuna Livre. Sabíamos que muitos outros grupos estavam planejando o mesmo, e silenciar era preciso. Ficou acertado que o Gotilla e o José Renato iriam assistir à cerimônia para identificar o exato local onde fora cimentada. Eu tinha médico marcado, pois tinha fraturado uma costela em minhas aventuras de professor de caratê metido.
Estava tudo certo para a madrugada. Pedreiros contratados etc. Assim que a recuperássemos, só bastava acionar o esquema para avisar a imprensa com rapidez, pois na manhã do dia seguinte, a “pedra” reapareceria de onde nunca deveria ter saído.
Mas eis que, terminada a cerimônia, ficaram os dois a conversar sobre o que fazer, até que despertaram para o fato de que não tinha mais ninguém por perto, o local era deserto, o cimento fresco… Por que não ali?
E foi assim. Não mais do que uma hora após a pomposa cerimônia, a “pedra” já fora arrancada e levada. Fomos avisados por eles para que nos encontrássemos no escritório do Lapietra – se não me falha a memória – para comemorar o feito, tirarmos fotos da prova do roubo e encomendarmos uma placa de mármore que receberia os dizeres “Quantas pedras colocadas, Tantas arrancaremos”, de autoria do Caio Pompeu de Toledo.
E fomos até uma daquelas lojas em frente ao cemitério São Paulo retirar a placa, em mármore cinza claro, que na manhã do dia seguinte surgiria como o grande assunto da imprensa e da cidade.
E como vencedores em busca de seus ideais, curtimos vaidosos como ninguém aquele feito, que hoje é já lenda.
Talvez essa história nunca tenha sido contada como ela foi. Ainda me restaram três fotos que provam quem foram os providentes “ladrões”, que ajudaram a não deixar esquecidos os testamentos dos Varela, Azevedo, Bilac, Ruy, Castro Alves, José Bonifácio – o Moço…