Há trinta anos morei na Iraí, entre 54 e 74. Escrevi este ano um conto para Secretaria da Cultura sobre o bairro. Como vocês gostam do bairro como eu, vou reproduzi-lo aqui. Como não cabe inteiro, vai aos pouquinhos. Não sei se era bem assim, mas é do jeito que eu me lembro.
Há muitos anos atrás só havia os índios. Eram as tribos Guainumbis, Uapés, Uapichanas, Mirunas, Aratãs, Guaicanãs e Iraí, que eu nem sei se era tribo ou nome de rio. Devia ser rio, porque as coisas giravam em torno dela. Era tudo terra, e quando chovia, dois pequenos riachos se formavam nas laterais.
Por causa da terra e do mato havia, além de pés de goiaba e de mamona, muitos campinhos de futebol, onde times de moleques jogavam de manhã à noite. No meio da molecada havia um craque chamado Cisca, sobre o qual diziam que as pernas tortas à la Garrincha é que davam o diferencial.
“Esse vai ser jogador!”. Não foi. Virou médico, como todos nós viramos alguma coisa, mas mantivemos um pouco daquele espírito de bairro, de turminha.
A turminha, por sinal, se reunia na padaria. A tarde rachava um tijolo, de sorvete, milimetricamente para ninguém ter vantagem. À noite se definia em que festa iríamos. Algumas "de bico", como uma famosa do Júlio Bico, da Rua Itacaré, travessa da Iraí, que foi a uma festa e não nos avisou. Descobrimos. E o berro do Mané na porta da casa selou o apelido desse Júlio para sempre: Júlio Bicooo!!!
Esse não é o nosso Júlio, da Aratans, o Júlio Cruz, nervoso jogador de war e de pôquer, nosso neurocirurgião a caminho do Nobel, que infelizmente nos deixou, mas o nosso Nobel é seu, Júlio.
Mas havia festinhas que não íamos de bico. Eram as festas dos grandes festeiros do bairro: a Carmem do Waldir, a casa do Delloso, na Uapichana, as festas em volta da piscina do Marcello, e outras inesquecíveis que infelizmente agora esqueci.
Nessas festas, além de aprender a beber uísque, mal da nossa geração, aprendíamos a namorar. Alguns aprenderam tão bem, ou não, que se casaram com nossas amigas.
A trilha sonora dessa época eram os Beatles. Mas dançávamos mesmo quando as músicas italianas dos Endrigos, dos Morandi e das Pavones começavam a tocar. Sappore di Salle era o hino para tirar uma garota pra dançar, ou La Mer e Aqueles Ojos Verdes com o Ray Connif. Acho que foi por nossa causa que ele acabou vindo tanto ao Brasil depois.
O mais importante: a maioria desses discos estava nas caixinhas de madeira do Mário, o Marijan da Iraí. Será que ele ainda tem? Junto com aquela coleção de compactos para o lançamento da Pepsi-cola no Brasil. Ele deve ter, mas não me empresta.
No fim de noite, atravessávamos a pé a favela e os campinhos de futebol que ficavam ao lado do Córrego da Traição, ali onde hoje é a Bandeirantes, e íamos tomar café no aeroporto. Os meninos da favela e nós tínhamos muito mais em comum do que jogar bola. Apenas o acabamento das nossas casas nos diferenciava. Espero que suas casas e suas oportunidades de vida sejam agora iguais às nossas.
O Aeroporto de Congonhas! Havia até a AFA – Associação dos Freqüentadores do Aeroporto, em que o Sergio Montemurro era o presidente. Tomávamos café, líamos os gibis na livraria La Selva, com o dono batendo na mesa de vez em quando gritando "Vamos ler", para espantar garotos como nós que só liam e nunca tinham dinheiro para comprar uma revista…
Por sinal, um dos meus maiores divertimentos na época era trocar gibis. Suplemento valia dois, almanaque valia três gibis. Meus parceiros eram o Spiro, que morava na esquina da Araes com Aratans, o Evandro da Mairi, o Tuca da Moaci, o Celso e o Joacir da Araes. Guardo esses gibis até hoje: Cavaleiro Negro, Superman, Bolinha e Luluzinha, Mickey e Pato Donald, Tarzan, Mandrake e Fantasma. Já vendi muitos deles para pagar prestação atrasada do BNH – se não pagasse ia para leilão…
"Que as meninas dos Santos Anjos sejam os anjos das outras meninas" – esse era o lema da escola que ficava pintado na parede. O açougue que o Jair se escondia era o do Norberto e da Sonia e do irmão mais novo, o Russo. Os hipermercados mataram esse comércio de bairro. Tô com vontade de iniciar uma campanha para voltarmos a comprar no comerciante do bairro, na banca do bairro, na padaria etc.
Em frente dos Santos Anjos, e no quarteirão imediatamente acima do Jair, morava a Sandra Schulz. Nos fundos da casa dela, havia uma quadra de vôlei, onde jogávamos todo sábado. Tinha o Junior, o Zé Francisco, o Baixinho, o Toninho. Era a Rua Mairi, onde morava, e ainda mora, o Nani (Ext. SPaulo e Alberto Conte, concorrente do Levy). A Rua era de terra e dava para o outro campinho da Guainumbis, em frente à padaria. Se a gente ganhasse no futebol, tinha que correr para não apanhar da turma desse campo, que era mais velha do que nós. Tinha muito pé de goiaba e mamona em volta do campinho.
A Ginkana Kibon, em que dançava a Linda, era apresentada pelo Vicente Leporace, o Trabuco no rádio, e a Clarisse Amaral, uma das minhas paixões de moleque. O programa era domingo à noite, ao vivo. Isso era nos anos 50, a tv era só ao vivo. Em 62 é que chegou o videotape.
A manhã de domingo na TV Record era com Circo do Arrelia e do Pimentinha.
É só começar a falar que a gente lembra de tudo… E tem o Alberto Levy. “Um viva ao colégio, entoemos com essa canção juvenil…”. Depois eu conto.
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