Assim como ela, é difícil da gente encontrar. Fácil é vê-la todas as manhãs, armada de vassoura, pá e saco de lixo, varrendo a praça que fica ao lado do córrego "Avenida dos Lagos", bem ali na esquina com a Avenida Artur Cordeiro e a Rua Luis de Pina, altura do 2300 da Avenida Robert Kennedy, em São Paulo.
Com suas luvas, vassoura e pá, vai limpando o lixo que toda essa gente deixa por aí. Gente que mora em casas e gente que mora na rua. Deixam todo tipo de sujeira: garrafas plásticas, papéis, roupas velhas e até cocô. Quando ela falta um dia, por motivo de força maior, a próxima limpeza é ainda mais dura.
Muita gente não entende e até critica essa atitude cidadã. Ao invés de criticá-la, devíamos é imitá-la. Dia desses, uma ave conhecida como "enfermeiro das árvores" surgiu com ânimo total a animar a praça. Era um pica-pau de cabeça amarela e um bigode vermelho (Celeus Flavescens). Este tipo de ave se alimenta de larvas, insetos, formigas e cupins. Para o pica-pau, a árvore oferece alimento; para a árvore, ele extrai as pragas e ajuda a manter-lhe a saúde.
É carpinteiro e também percussionista, tamborilando suas mensagens. Faz uma cavidade na madeira martelando com o bico. Geralmente na fase produtiva. Martelou que martelou. Chamou a fêmea, que era uma pica-pau de cabeça amarela, loiríssima, um pouco menor que ele, porém sem o bigode vermelho, naturalmente. Ela chegou meio tímida, entrou, olhou e parece que aprovou. Tudo indicava que aquela grande e velha árvore tinha sido escolhida para nidificar.
Uma praça bem cuidada por uma bondosa senhora. Zeladora incansável. O pica-pau ia consertar a natureza de seus insetos nocivos e tratar a madeira da velha árvore. Vida boa pros filhotes, que certamente viriam. Todos que passavam não se cansavam de admirar aqueles preparativos.
Não demorou muito e notou-se que a cavidade no tronco da árvore estava cheia de lixo e pedras. Nada de pica-pau de cabeça amarela. Morador de rua contou que viu menino capturar o pica-pau e até levar umas bicadas. Voou pra longe a alegria dos passantes. Silenciou a percussão na velha árvore. Não mais o colorido do pica-pau. Não mais reprodução.
Dona Olga continua seu trabalho solitário. Limpar o chão é fácil, difícil é manter limpa a consciência das pessoas. A primavera podia ser mais alegre.
Suely Aparecida Schraner (Conselho Gestor da UBS Veleiros)
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