Era uma vez uma princesa com seu vestido azul florido, com olhar meigo, uma postura altiva, contudo, sem uma única demonstração de arrogância. Seu nome?? Princesa Diana, ou simplesmente Lady Di. No ano de 1991, São Paulo recebeu a família real, cuja agenda, dentre as obrigações e passeios, constava uma visita à Febem dos menores abandonados.
Naquele mesmo ano, eu estava trabalhando na área de eventos da antiga Secretaria do Menor e tive o grande prazer de participar da organização deste evento: a visitação da Princesa Diana a uma das unidades da antiga Febem. Apesar do estigma do nome, a Febem a que me refiro aqui se localizava no Pacaembu e era destinada a crianças órfãs e portadoras do vírus HIV.
Todos aguardavam ansiosos a chegada daquele dia: crianças, monitores, funcionários, enfim, todo mundo, pois não é sempre que se encontra uma princesa em pessoa. Era uma manhã ensolarada, com uma temperatura bem agradável, as crianças com os olhos voltados para o portão de entrada e a equipe de prontidão para dar início ao evento. As ruas nas proximidades ali do Pacaembu estavam sendo monitoradas, e o trânsito estava congestionado naquela região. São Paulo é assim: chuva, passeatas, festas e comitivas sempre causam um pequeno caos nas nossas ruas.
Contudo, o momento tão esperado por nos estava a ponto de acontecer, mas os minutos pareciam horas de tanta ansiedade. Até que, finalmente, num alvoroço total, se avista a movimentação da chegada da comitiva. Carros e mais carros estacionando, todos muito parecidos, não sabíamos pra onde olhar, mas logo em seguida um motorista abre a porta de um dos automóveis e a princesa aparece e sai rodeada por seguranças e seu "staff", ajeita um pouco o vestido numa naturalidade sem par. Nossos olhos acompanham seu caminhar elegante e, ao sorrir, uma simpatia, ou melhor, empatia.
Rodeada por crianças e distribuindo sorrisos a quem se aproximasse, Lady Di e seu séqüito, pra não dizer súditos, percorreram todas as salas daquela unidade. A comitiva passava de sala em sala e não tinha quem não ficasse boquiaberto pela sua beleza e cativante personalidade. As crianças estavam encantadas com a presença dela, e apesar da tenra idade, elas sabiam que aquela que ali estava era uma princesa, e diziam: "A princesa daquelas das histórias, que mora num castelo".
Conto de fadas à parte, seria tudo perfeito, se não fosse um pequeno incidente que presenciei. Num dado momento, quando visitava o berçário, ela se aproximou de um dos bebês e começou a brincar, passando a mão na cabecinha, acariciando-o. Logo em seguida, a princesa começou a remexer em sua bolsa, como que procurando algo, retirou um pequeno pente em madeira torneado e o estendeu para o pequeno com o qual ela brincava. A criança logo sorriu e pegou o pequeno "brinquedo", o qual acenava alegremente no ar. Lady Di deu um beijo na testa do menininho e saiu, deixando seu pente como um presente. Saíram daquela sala e seguiram em direção a outro alojamento. Logo apos a saída do séqüito, qual não foi a minha surpresa quando uma das funcionárias que ali estava, sem pestanejar, surrupiou o tal pente da mão da criança, substituindo por um outro objeto qualquer. A dita cuja saiu da sala, feliz da vida, com seu pequeno souvenir "real", porém levando consigo uma atitude sem dignidade nenhuma.
Bom, este fato me incomodou um pouco, mas não tirou a sensação de grandiosidade do evento. Incidentes à parte e voltando ao que interessa, durante toda a visita pude observar o jeito "princesa" dela, muito simples de ser: movimentos sempre graciosos, um brilho especial no olhar de um profundo azul, realçados pelo vestido que usava e uma simplicidade apaixonante. Ao falar, mesmo quem não entendia o inglês, podia sentir o genuíno sentido da suas palavras.
Enfim, sua generosidade emanava no ar. Uma maneira de ser que não pode ser imitada, pois é inata; contudo, seus atos humanitários podem e devem sim ser imitados e multiplicados e servir como exemplo de compaixão para com o próximo. Este conjunto de adjetivos fazia dela uma princesa especial e popular, a princesa do povo, alcunha que ganhou pelo seu trabalho humanitário em vários paises do mundo.
No término da visita, assim como chegou, foi embora com sua elegância, simplicidade, generosidade e carisma. Em 1997, uma fatalidade a levou. Deixou o mundo com sua elegância, simplicidade, carisma.
e-mail do autor: [email protected]