O fusca do Seu Gelulffo

Dizem que amor de brasileiro é automóvel. Acho que é a pura verdade. Até recentemente, uma rede de postos de combustível chegou a fazer peças publicitárias sobre o tema. Principalmente para nós, paulistanos, o automóvel tem papel importante nas nossas vidas, nas nossas famílias, nas nossas casas.<br><br>É bem verdade também que numa cidade como São Paulo, onde as distâncias são longas e o transporte coletivo é deficitário, o carro acaba se tornando essencial. Então, vale o sacrifício para se comprar um, mas, às vezes, a coisa chega ao exagero. Sei de gente que deixa de almoçar, passando a base de lanche (saca aquele hot-dog com suco por dois real?) para ver se, no final do mês, sobra algum para pagar a parcela do consórcio.<br><br>Até penso que há uma inversão total de valores. Passando pelas ruas, vejo certas casas que não condizem com os automóveis presentes na garagem. Ou o contrário: os carros é que não condizem com as casas. Já vi carro de luxo, versão CD (a mais equipada) em garagem de sobradinho geminado de bairro da periferia. O carro devia valer o dobro ou o triplo da casa. Tá certo que trocar de casa é muito mais difícil e oneroso que trocar de carro. E o que eu tenho que me meter? Como cada um é cada um, e o dinheiro não é meu mesmo, respeitemos o direito de todos, independentemente de seus valores.<br><br>Na minha infância, poucas eram as pessoas que tinham automóvel. A cidade não era tão grande e os ônibus e os bondes nos levavam onde precisássemos, mesmo porque não precisávamos ir muito longe mesmo. Era tudo muito perto de tudo. Parece até que o ritmo das nossas vidas era outro. Não havia tanta pressa. Não havia essa sensação de perda de tempo, esse negócio de que tempo é dinheiro. Aliás, esse era o bordão de uma propaganda da loja de lustres Bobadilha (na Consolação até hoje).<br><br>O balanço do bonde e o solavanco do ônibus nos cadenciavam e sempre chegávamos na hora certa aos locais. Nunca estávamos atrasados e exacerbados pelo trânsito ruim, que não havia. O único aborrecimento que tínhamos era quando algum cabo elétrico de algum bonde saía dos fios suspensos que forneciam a eletricidade para movê-lo. A corrente elétrica era interrompida e ele parava de imediato, causando toda a paralisação da linha. Assim, todos os bondes que vinham atrás estancavam formando um congestionamento. Parecia até uma composição de vagões cargueiros enfileirados.<br><br>Lembro que, na época, não era tão comum nossos vizinhos possuírem carros. Até mesmo muitas casas nem garagem tinham. Mas, o Seu Gelulffo, que, por acaso, era o pai de um dos meus melhores amigos de infância, já possuía um.<br> <br>Ele era chefe de diagramação do Estadão. Como trabalhava na produção do jornal, ele trocava o dia pela noite. Saía de casa ao anoitecer e só retornava pela manhã, quando o jornal já estava nas ruas. E pelo incomum horário de trabalho, quando a disponibilidade de transporte era escassa, senão inexistente, era inevitável que tivesse um meio de locomoção próprio.<br><br>O carro do Seu Gelulffo era um Volkswagen, o carinhosamente conhecido fusquinha. O segundo carro a ser totalmente fabricado no Brasil. Era branco, mais propriamente da cor gelo, acho até que para combinar com o nome dele. Lembro bem daquele carro, todinho branco, digo gelo, de estofamento de tecido cinza mais escuro. Tinha um emblema no capô dianteiro que era a figura de dois bandeirantes, um ao lado do outro. Não sei por que essa figura. Talvez representasse a cidade onde era fabricado o carro: São Bernardo do Campo. Ou alguma alusão ao Estado de São Paulo, não sei. Sei que o Américo, filho dele e meu amigo, vivia lustrando aquele emblema.<br><br>Como o jornal não circulava as segundas – engraçado não circular as segundas, parece até que nada de notícia acontecia aos domingos -, o Seu Gelufo, ao voltar do trabalho de manhã, já emendava o dia, pois à noite teria a reposição normal do seu sono. E ele não queria desperdiçar seu domingo. Então o que fazia: lavava seu fusca na porta de casa. Esse ritual era sagrado. Todo domingo pela manhã, Seu Gelulffo lavava aquele fusca.<br><br>Lavar o fusca até que era o de menos. Afinal, aquele carrinho que o levava ao trabalho para o ganho do sustento familiar merecia esse trato. O problema é que ele tinha uma vitrola (para esclarecimento dos meus amigos mais novos, trata-se de um aparelho reprodutor de som gravado em disco de vinil, os populares bolachões). Era uma ABC (Voz de Ouro) em móvel de jacarandá, maravilhosa, onde ele tocava seus discos de óperas.<br><br>Eu, que acordava cedo todos os dias (seis da matina) para ir para escola, mais queria dormir aos domingos. Mas não tinha jeito. Lá estava o Seu Gelufo, o fusquinha e a ABC a todo vapor. Logo às 8 da manhã do domingo. Não bastassem os pulmões de aço dos sopranos e tenores, o problema maior era o Seu Gelulffo cantando junto. Nem gato na vizinhança agüentava!!!<br><br>E brigar não dava. Éramos vizinhos e a política da boa vizinhança não permitia. E como não tinha jeito mesmo, para não pegar raiva do pai do meu melhor amigo, comecei a gostar de ópera. Viva Carreras, Pavarotti e Plácido Domingo. Mesmo nas manhãs plácidas de domingo!<br><br>e-mail do autor: [email protected]