Um balão apagado

O mês era de junho e o tempo era de balões no ar. Em um final de tarde, já bem um "lusco fusco" em que só se enxergava objetos maiores ou mais salientes, o Júlio deu um grito e berrou: "devagar, devagar, cuidado com o arame farpado da cerca". E todos os moleques da minha rua pararam de correr atrás do balão, que já quase chegava ao chão, que procuravam naquela quase escuridão, pela cerca de arame farpado que o Júlio avisara que ali estava, estendida com suas farpas muito cortantes.

Enquanto procurávamos pela cerca de arame, que em verdade não existia, o Júlio pegava sozinho o balão que lhe chegava às mãos e, assim, todos fomos enganados pelo nosso amigo, que não podia correr como nós, meninos normais, pois esse pobre Júlio tinha um pé "com defeito de nascença" e, como tal, não conseguia correr conosco em pé de igualdade.

Acontece que neste bem final de tarde, o Júlio sorrateiramente "achou" o balão sozinho, nada falou e saiu de fininho atrás do balão, que já caía com a "mecha" apagada, razão, portanto, de estar à nossa frente.

Esse fato aconteceu no início dos anos 60, em Indianópolis, na Rua da Gaivota, bem em seu final, onde corria o Córrego da Traição, que ia em direção ao canal do Rio Pinheiros. Nesse local da Rua da Gaivota, hoje esquina com a Avenida dos Bandeirantes, havia um grande número de frondosos eucaliptos dos dois lados da calha do Córrego da Traição, e a altura do barranco era de, seguramente, uns cinco metros de altura.

Alguns meninos desse ótimo tempo vivido ainda encontro, ou ao menos sei onde vivem e o que fazem, mas do esperto Júlio, que nos ludibriou com incrível presença de espírito, nunca mais tive notícias. Apenas uma alegre lembrança.

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