Boleiro é boleiro sempre, em qualquer campo, em qualquer lugar, com chuva ou com sol, com qualquer tempo. Sempre está correndo atrás de uma bola, quando não, o contrário, é a bola que corre atrás dele.
Tenho muitos amigos boleiros, mas um em especial, o Nelsinho, merece ter sua história contada, mesmo porque boa parte dela eu posso atestar, pois sempre batia uma bolinha com ele. Mas na minha pouca pretensão de ser um boleiro igual, nem me esforçava para chegar aos seus pés, melhor, às suas chuteiras. Minto, pretensão até tinha. Mas o bom Deus não me privilegiou com essa ferramenta, pois isso é um dom que vem com cada um.
Todo domingo de manhã a turma se reunia no campo do Juventude da Cidade Líder, lá pros lados de Itaquera. Eu, apesar de ser de outros lados, diga-se de passagem, bem do outro lado, de vez em quando dava as minhas caras por lá. Ou era convidado, ou me fazia convidar, só pra poder bater uma bolinha com eles.
Na verdade, a bola era o de menos, pois, como disse, nunca tive esses dotes exigidos ao bom desempenho dentro das quatro linhas. O que me atraía mesmo era a conversa da turma, aquelas horas de entretenimento, de bate-papo e, sobretudo, daquele líquido cor de ouro: a cerveja. Aliás, à medida que a cerveja rolava, ou melhor descia redonda como uma bola, o bate-papo fluía mais descontraído, mais redondo, indo desde o futebol, o time predileto de cada um, até os últimos fatos políticos, acompanhados dos mais abalizados comentários e críticas radicais, de fazer inveja ao Boris Casoy. Daí pode se inferir a temperatura de nossas conversas, felizmente resfriadas pela cerveja sempre bem gelada.
Mas voltando aos boleiros, a várzea – e o Juventude era um claro exemplo dela – é pródiga nesses amantes despojados da prática mais rudimentar do futebol. Despojados de tudo, de fardamento (como diria meu avô), de condição física dos jogadores, de condições adequadas de gramado (grama? onde?), de rede em bom estado de conservação (sempre muito furada e remendada), de trave pintada e bem conservada, de marcação a cal, de baliza nos escanteios, etc. Mas, em compensação, sobrava disposição do pessoal para o jogo e geralmente muita gente apinhada nas laterais do "gramado", acompanhando os lances cômicos nas divididas de bola ou na corrida desembestada do ponta-de-lança (posição inexistente no futebol atual, mas ainda de destaque na várzea).
A disposição da turma era tanta que raramente não havia um ou dois jogadores machucados no final das partidas. Mas daí, tinha a semana inteirinha pra se recuperar para a rodada seguinte, no próximo fim de semana. E lá estavam eles totalmente recauchutados para novos machucados, por meio de tratamento próprio, receitas caseiras e da mão santa do Seu Manoel, massagista do time, que lembrava um pouco o Mário Américo, eterno anjo-massagista da seleção brasileira.
O Juventude era sempre composto pelos mesmos jogadores, mas todo domingo o desafiante era um diferente. Eram times igualmente desprovidos de tudo, como o Juventude. Era o Benfica da Vila Maria, o Independente, o Democratas (no plural, por favor), o Acadêmicos (também no plural), o Aliança, o XV (em romano) de Novembro, o 7 de Setembro, o Sporting. Repararam como time de várzea tem sempre os mesmos nomes? Corinthians, por exemplo, deve ter uns quinze por aí, até na série A (maldade a minha!).
Vinham de outras vilas com muita disposição para a disputa e a rodada de cerveja garantida por quem perdia. Parece que disputavam a hegemonia territorial, quem era o melhor do pedaço. Daí a turma se matava em campo. Tudo por beber de graça, digo, às custas do time perdedor. E às vezes era o Juventude, mas geralmente era o convidado, pois no campo do Juventude, o árbitro fazia o resultado. A menos que o adversário fosse visível e infinitamente superior. Mas isso raramente acontecia, pois a diretoria, encabeçada e composta exclusivamente pelo João Negrão, sabia escolher os adversários, geralmente bem mais fracos, e, modéstia a parte, o Juventude era bem mais time.
O João Negrão não era só diretor não. Era também tesoureiro, técnico, preparador físico, roupeiro e pai dos jogadores. Dava conselhos, recomendava namoro, emprestava dinheiro e cobrava disciplina de cada um, dentro e principalmente fora do campo. "No meu time bandido não joga", vivia dizendo aos quatro ventos, ou melhor, às quatro linhas. Se soubesse que algum daqueles seus pupilos tinha saído dos eixos durante a semana, no domingo a bronca era inevitável. Nem escalava o cidadão para o jogo. Ele era um grande anjo da guarda de todo mundo. Com sua sabedoria e a sua maneira, era sempre muito ouvido e respeitado.
Mas a turma ultimamente já andava meio cansada de jogar sempre com os mesmos times. A coisa estava muito monótona, aquela chatice. Daí, o nosso grande "manager", o João Negrão, sacando essa desmotivação geral, numa brilhante tacada de marketing, resolveu estreitar o relacionamento com alguns amigos cariocas, que também comandavam o futebol periférico por aquelas plagas. Entrou em contato com um deles, um tal de Marechal que chefiava um time chamado Ameriquinha, de Engenho de Dentro. Seria um grande confronto Rio-São Paulo do futebol de várzea, como sempre soe ser, na rivalidade interestadual dessas duas unidades vizinhas da federação.
O João reuniu todo o time no meio do gramado e deu o comunicado: no próximo final de semana iriam disputar uma partida contra um dos mais fortes clubes do futebol carioca (pura jogada de marketing) e que, pela importância da partida, seria necessária uma preparação físico-tática durante a semana, fato novo para todos, já que eles nunca haviam treinado.
A notícia foi recebida com muito entusiasmo, pois quase ninguém dali houvera tido a chance de conhecer o Rio, mas, ao mesmo tempo, houve um protesto geral por essa novidade de ter que treinar. Muitos jogadores alegavam que não era necessário treino nenhum, visto que todos ali se conhecerem de longa data, de saberem as "mumunhas" de cada um e que o time era muito bem entrosado, etc. e tal. Mas o manager, como um grande dirigente déspota, que soe ser no futebol, não abriu mão de sua posição, principalmente pelo fato de que haveria a presença de um meia-direita novo na equipe, um tal de Adauto, que segundo ele, o João, seria a solução para os problemas de armação de jogadas, de falta de criatividade e de combatividade do meio de campo.
Todo mundo ficou quieto, pois quem ousaria contestar as decisões do todo-poderoso João Negrão, inda mais em véspera de viagem pro Rio. Mas pairava uma dúvida no ar: quem era esse tal de Adauto, que ninguém nunca ouvira falar? Será que era esse cracasso todo? E na opinião geral, o Nelsinho, que não era lá nenhum Gerson, tampouco um Zidane, bem que dava conta do recado.
Discussões e dúvidas a parte, a semana transcorreu com muita ansiedade e expectativa. Todo mundo queria jogar no Rio. Só o Nelsinho é que estava meio cabisbaixo e muito p. da vida, mas fazer… Quem podia com o João Negrão?
O tal de Adauto até que deu as caras por lá e até que tinha pinta de boleiro, e daqueles convencidos, arrogantes e presunçosos. Pouco ou quase nada conversou com a turma e nem chegou a treinar junto. Só ficou de fora observando o time.
Na sexta-feira, às onze da noite, o ônibus encostou na "sede" do clube, carregou todos os jogadores e tralhas e zarpou rumo ao Rio. O jogo seria no domingo pela manhã, onze horas, mas a turma não podia perder a oportunidade de conhecer a Cidade Maravilhosa, e assim teriam o sábado todinho pra isso.
E assim foi…. Ônibus lotado rumo ao Rio.
Todos ansiosos para chegar. O coração de cada um era como a bola quicando no campo de várzea na expectativa de conhecerem o Corcovado, o Pão de Açúcar, o Aterro do Flamengo, Copacabana, Leblon, Ipanema, Tunel Dois Irmãos, Barra, e muita gente já perguntando do Maracanã. Esse era inevitável. O Maracanã, templo maior do futebol, local de muitas glórias e craques. Duvido que haja ali alguém que não tivesse ao menos sonhado um dia jogar no Maraca.
Depois de rodar a cidade em seus pontos turísticos, inevitável era um banho de mar, até pra tirar a uruca, curar da manguaça e energizar a turma pro jogo no dia seguinte. E quase todos entraram na água. Menos o tal do Adauto, pra não se misturar, lógico, e o João Negrão, que tinha que controlar a turma e os horários.
À noite, ficaram sabendo que não havia um local reservado para dormir, afinal, a verba era pouca. Passariam a noite dormindo no próprio ônibus. Muitos optaram, a revelia do João, ao invés de dormir, encher o carão em algum boteco, já lá próximo ao local do jogo, no Engenho de Dentro. O João, apesar de preocupado, não teve como evitar isso e confiou nos seus pupilos, que eram afeitos a essas noitadas de farra e jogos na manhã seguinte. O time parece até que rendia mais. Mesmo porque também não havia exame anti-doping.
Dia seguinte, a grande partida. O campo não era muito diferente daquele do Juventude. Nada de grama, nada de marcação, rede tão furada quanto, nada de nada. Nada que fizesse a turma estranhar. A ansiedade aumentava até a hora do jogo. Coração batendo forte, cada vez mais.
Desceram todos já vestidos do ônibus e caminharam rumo ao campo. Antes, porém, a velha e tradicional preleção do João, pedindo empenho e garra aos seus pupilos, seguida da reza coletiva: Ave Maria e Pai Nosso, numa velocidade de locução de corrida de cavalo, quase nem se entende as palavras.
Havia uma grande e inóspita torcida local, que recebeu-os com muita vaia. O time do Ameriquinha era muito parecido a todos os adversários do Juventude. Nelsinho inconformado, sentou-se no banco de reservas e olhava com desdenho praquele tal de Adauto que lhe roubou o lugar.
Juiz apita, começa a partida. Já quase dez minutos de bola rolando, bola ia, bola vinha e nada acontecia. O Adauto ainda não tinha tocado na bola. Como um jogador de meio de campo não participa do jogo? Boa pergunta. Os jogadores e o banco de reservas começam a olhar meio esquisito pra aquilo.
Finalmente, primeiro lance do Adauto, lançamento pro lateral direito, um chutão sem direção pra fora do campo. João Negrão diz pra todo mundo que ele ainda está frio.
Segundo lance do "cracasso": bola dividida com o meia do Ameriquinha. Falta na entrada da área do Juventude. Por sorte, o jogador deles era ruim e na falta cobrada, a bola passou longe do gol. Mas a turma começou a pegar no pé do tal do Adauto e do João Negrão.
E aí foi se sucedendo uma porção de divididas e passes mal feitos pelo tal do Adauto. Todo mundo começou a perceber que ele não entendia nada do negócio. E o João Negrão, já sem desculpa. Até que saiu o gol do time adversário. Um a zero pro Ameriquinha.
Acaba o primeiro tempo e até que o um a zero estava de bom tamanho, pelo deficiente futebol apresentado pelo Juventude. O Ameriquinha já merecia estar ganhando de mais. E a turma no barracão-vestiário passou a reclamar com o técnico a presença do Nelsinho no lugar do Adauto.
O juiz chama para o início do segundo tempo. Os dois times entram em campo com as mesmas formações. Oito minutos de bola rolando, escanteio para o Ameriquinha. Bola alçada na área, o Adauto não sobe, o zagueiro do Ameriquinha cabeceia e gol. Dois a zero.
Todo mundo olha pro Adauto, olhares de recriminação. O cara não jogava nada. Olham pro banco de reservas clamando providências ao João Negrão, que imediatamente chama o Nelsinho para o aquecimento. Dá-lhe as instruções, ao pé-do-ouvido (tipo, vai lá e mostra o quê você sabe). Adauto é finalmente sacado do time.
O Nelsinho entrou com vontade. Tanto que, na primeira bola, colocou o ponta-de-lança cara a cara com o goleiro. Só não foi gol por capricho. Mas o time não era mais o mesmo. A saída daquele elemento estranho e, principalmente, a entrada do Nelsinho, deu outra dinâmica ao grupo, que já esboçava uma reação.
Terceira jogada do Nelsinho, lançamento para a direita, cruzamento da bola na área, cabeceio entre zagueiros e gol. Dois a um.
Mais quatro, cinco lances, Nelsinho mostrando qualidade, se aplicando como nunca. Falta na entrada da área. Quem vai bater? Nelsinho, lógico. Chute de três dedos, com efeito, meia distância. Bola colocada no canto esquerdo superior do goleiro. Golaço… Dois a dois.
O tal do Adauto diminuiu no banco de reservas e até saiu pro barracão pra se trocar.
Juiz olha o cronômetro. Quarenta e cinco minutos. Placar de bom tamanho. Ninguém ganha, ninguém perde. Garantia de um churrasco harmonioso com confraternização entre as equipes. E o nosso grande Nelsinho, consagrado!
Rolou muita carne, muita cerveja e até um pagode bem animado, até a hora de tomar o ônibus de volta pra Sampa.
Todos estavam muito alegres, não sei se pelo passeio ou se pelo resultado da partida. O único que não participou da farra foi o Adauto, que foi a viagem inteirinha sentado na cabine do motorista sem contato com ninguém. E o Nelsinho era o jogador mais festejado.
Bem, fiquei sabendo dessa história contada pelo Nelsinho, meu grande amigo boleiro, e confirmada pelos demais jogadores do Juventude. E quando do meu primeiro encontro com o João Negrão, fiz questão de lhe perguntar aquilo que todos queriam saber e ele não revelou a ninguém: qual o motivo da escalação daquele tal de Adauto, um verdadeiro perna-de-pau?
O João Negrão relutou em responder. Mas depois de quase uma caixa de cerveja e umas boas doses de pinga, me chamou de canto, conversa de pé-de-ouvido e me disse:
– Sabe o que é? O pai do menino é meu "cumpadre" e me pediu pra escalar o filho no jogo.
– Pô, João, até aí tudo bem, mas quase comprometeu, né! – eu observei.
– Eu sei – ele retrucou, e continuou – é que o "cumpadre" era o dono do ônibus.
– Ah, já entendi!
Esse é o João Negrão, xará do João Havelange. Os dois grandes managers do futebol. Um do internacional, o outro da Cidade Líder.
e-mail do autor: [email protected]