Desde que foi implantado o transporte coletivo em São Paulo pela Light and Power, se tem historias mil a contar. Nascido, praticamente, nos anos 1940, posso dizer que em 1947 deu-se, talvez, a primeira confusão, em termos de revolta do povo, contra o aumento da passagem do bonde, que de vinte centavos passou a cinqüenta. Muita coisa ruim aconteceu naquele dia, ou talvez dias. Os veículos foram apedrejados, houve mortos e feridos. Pelo menos um morto houve, pelo relato do meu pai quando chegou em casa do serviço.<br><br>Segundo ele, um motorista de ônibus deu um tiro num garoto que atirou uma pedra no veículo. A partir daí, o transporte coletivo passou da empresa privada para a prefeitura, quando foi criada a CMTC (Companhia Municipal de Transportes Coletivos). Já nos anos 1950, eu era usuário dos coletivos de cor amarela com alguma coisa de vermelho. Para quem não queria pagar com dinheiro por causa do troco (que sempre faltava), eram vendidos passes, o que facilitava a vida dos passageiros.<br><br>Esses passes também eram usados no comércio para pequenas despesas. E, em muitos locais tinha uma placa que dizia: “não aceito passe”. <br><br>Eu morava no Brooklin e estudava no Brás, no período de 1954 a 1956. Tomava quatro conduções por dia, ida e volta, dois ônibus e dois bondes. O ônibus eu pegava na Avenida Santo Amaro – me lembro que quando não era o 79 Santo Amaro vinha o 81 Brooklin. Tinha o 52 Itaim, mas ficava muito longe para pegar. Mais tarde, veio o 152 Vila Olímpia, que ficou mais perto de casa, com ponto inicial na Rua Clodomiro Amazonas e, logo depois, transferido para a Rua Nova Cidade, esquina com a Rua Casa do Ator, em frente à padaria Mondego. <br><br>Descia no Anhangabaú e seguia para a Praça da Sé, onde pegava o bonde na Praça Clóvis Bevilaqua, por onde ele fazia a rotatória vindo do bairro ao centro, passando pela Rua Irmã Simpliciana, e só parava para a subida dos passageiros voltando ao bairro em seguida. O bonde descia a Avenida Rangel Pestana, entrava à esquerda na Rua Vasco da Gama e, depois, Rua do Gasômetro, onde ficava a escola.<br><br>O bonde também teve sua história. Para muitos não passava de um trambolho, que fazia muito barulho devido ao atrito de suas rodas de ferro com os trilhos. Era também chamado de “Cara Dura”. Durante muito tempo, os bondes eram puxados a burros e ajudaram a diminuir o isolamento de Santana, permitindo que, por meio de uma das linhas mais extensas de São Paulo (Liberdade – Ponte Grande), seus moradores atingissem a cidade.<br><br>Em 1904, os bondes eram elétricos e passaram a servir a Ponte Grande, e o transporte para além do Tiete ainda eram feitos por bondes antigos, puxados por dois animais. Com isso, os moradores eram obrigados a fazer uma baldeação na Ponte Grande. Apenas em 1908, os bondes elétricos chegaram ao bairro, com seu ponto final, inicialmente, na Rua Duarte de Azevedo e, mais tarde, graças à ingerência das irmãs de São José, próximo ao colégio de Santana. Nessa época, os bondes dividiam com tropas e carros de boi o espaço da Rua Voluntários da Pátria.<br><br>Naquele tempo, a condução não ficava a dever em nada para os dias de hoje, tanto em ônibus lotados como em trânsito infernal no horário de pico. Havia muito respeito para com as senhoras ou moças grávidas, com as pessoas cedendo seu lugar. É bem verdade que tinha muita gente que dava uma de João sem braço fingindo que estava dormindo.<br><br>No ano de 1955 ou 1956, surgiu um ônibus com a idéia de facilitar um pouco as pessoas. Era um ônibus enorme, que tinha capacidade de carregar mais ou menos trezentas pessoas. Totalmente diferente dos outros. Mais parecia uma carreta. Tinha um cavalo mecânico que puxava aquele trambolho. Seu apelido era Papa Fila.<br><br>Os bondes que iam para o Brás eram todos abertos com estribo e tinham o cobrador, geralmente português ou oriundo, que cobrava três passagens e puxava duas vezes a cordinha do marcador, ficando com um pouquinho para ele. Segundo a italianada, funcionava assim: “Um per ti. Duê per Mi!”. E assim, muita gente se fez na vida. Teve historia que teve cobrador que até casa comprou com o dinheiro que deveria ser da CMTC. <br><br>No centro da cidade e Consolação tinha os bondes fechados, também chamados de “camarão”, por causa de cor vermelha que se destacava. Tinha outro que era chamado de Gilda; segundo línguas, por causa de um filme com esse nome, estrelado por Rita Hayworth.<br><br>Em 1958, a história de 1947 se repetiu. Houve um aumento nas passagens do ônibus, de 3,50 para 5,00. O povo não aceitou aquele aumento. Muitos protestos no centro da cidade. Protestos que eu participei ativamente. Penso que durou dois ou três dias, e só acabou quando quatro pessoas morreram perfuradas por baionetas (uma faca amarrada na ponta do fuzil) nas escadarias da justiça, na Praça João Mendes.<br><br>A CMTC era um verdadeiro cabide de emprego. Político, quando precisava arrumar um lugarzinho para amigos ou amantes, pensava logo na CMTC. Era uma empresa deficitária, que tinha que ter subsídios dos cofres do município. Em 1957, quando o Doutor Adhemar de Barros foi eleito prefeito da capital, nomeou seu genro, João Jorge Saad, para a presidência da CMTC, que foi o período em que ela teve melhor momento, dado ao saneamento financeiro feito por aquele homem.<br><br>E assim foi a vida da cidade com aquele tipo de transporte. Até que, faltando dois anos para o final da década dos anos 1960, resolveram acabar com os bondes. E, aos poucos, eles foram desaparecendo. Eu usava muito o bonde que vinha do Largo Sete de Setembro, na Liberdade, até Santo Amaro, passando pela canaleta da Avenida Ibirapuera. E foi justamente essa linha a escolhida para ser a última a funcionar, o que se deu em 1968, com a presença do prefeito Faria Lima e o governador Abreu Sodré, e mais autoridades Civis, Militares e Eclesiásticas – coisa que não podia faltar em qualquer evento. <br><br>De funcionários da CMTC, lembro de muitos, mas destaco o Marino Nardelli, casado com uma prima da minha mãe. Trabalhava na linha 152 Vila Olímpia e nunca dava o bilhete para mim, que ia sempre de graça quando coincidia com ele trabalhando.<br><br>Como motorneiro de bonde, eu destaco Augusto Barbosa, conhecido como Bailarino. Ele trabalhava na região norte da cidade, mais precisamente no bairro de Santana. Você vinha vindo, Bailarino parava o bonde, você dava uma corrida, ele dizia: "Não corra, você cai e se machuca. Por favor, venha!". Ele parava o bonde e você subia. Quando tinha uma senhora para subir, ou com uma criança, ele dizia: "Por favor, alguém ajuda essa senhora a subir".<br><br>e-mail do autor: [email protected]