São Paulo não foi só construída por paulistanos, imigrantes japoneses, italianos. Na década de 20, muitos navios europeus aportaram no Brasil, trazendo gente de diversos países pequenos que, até bem pouco tempo, poucos sabiam onde ficavam. É o caso dos povos dos Bálcãs (Lituânia, Letônia e Estônia).
Eu sou descendente de estonianos. Meus avós paternos chegaram no porto de Santos em 1922 e, como eles não eram "mão de obra qualificada", foram enviados para as Minas Gerais – especificamente para Senador José Bento, perto de Pouso Alegre , para o cultivo de terras. Achando o trabalho árduo demais, no início da década de 30, meu avô resolveu vender as terras que havia ganhado do Governo Federal e, em cima de lombo de um burro, mulher e quatro filhos, resolveu vir para São Paulo a pé, pela "picada" que é hoje a Fernão Dias.
Com o dinheiro das terras vendidas, comprou uma casa no Jd. Piratininga (Cangaíba). Meu pai, com 14/15 anos, foi trabalhar numa fábrica para ajudar a sustentar a família. Acabou aprendendo a profissão de tecelão, trabalhando por 37 anos – 2 anos de Textilia e 35 de ITA (Indústria de Tapetes Atlântida), que ficava em Santana, Zona Norte, Rua Voluntários da Pátria – por onde se aposentou.
Meus avós maternos vieram em 1926. Meu avô materno era marceneiro e foi encaminhado para Paranapiacaba para trabalhar nas oficinas da antiga São Paulo-Railway (já foi Santos-Jundiaí – RFFSA – FEPASA – e hoje é CPTM), fabricando os bancos de madeira usados nos vagões.
Minha avó era ótima costureira e atendia aos pedidos da vizinhança. Como trabalhador da companhia inglesa, meu avô tinha direito a moradia gratuita. Hoje, a Vila de Paranapiacaba tem a parte velha e a parte nova. Eles moravam na parte velha – casas de madeira. Ao que consta, Paranapiacaba é a única cidade fora de Inglaterra que ainda conserva parte da arquitetura original. A estação antiga pegou fogo, mas conseguiram conservar a cópia do Big Ben.
Em 1938, meu avô faleceu e minha avó teve que deixar Paranapiacaba e rumou para São Paulo. Ela e minha mãe trabalharam em casa de família estrangeira já estabelecida aqui. Moraram na Lapa, Perdizes, Tatuapé. Durante a Segunda Grande Guerra, minha avó fez o trabalho de formiguinha: costurava pijamas de flanela e outras peças de roupa masculina, que eram enviadas por meio da Cruz Vermelha Internacional para os soldados brasileiros no front. Pouco antes de 1950 (talvez 1948/1949), meus pais se conheceram e acabaram se casando em 1951. A história seguinte vocês já conhecem: “Minhas Memórias do Bairro do Cangaíba”.
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