Música na Janelinha

Dos bondes, lembro-me pouco. Algumas imagens: o cobrador, a falta de porta, o som. Depois andei de ônibus elétrico, quando ia do Largo da Concórdia ao centro da cidade, nos anos de 74/75. De vez em quando, o motorista parava para o cobrador descer e encaixar o cabo no fio. Eu achava um charme o ônibus elétrico: espaçoso, romântico por ser mais lento e mais suave o balanço.

Com quatro anos de idade, mudei da Zona Leste para a Zona Oeste, para mais perto da família de minha mãe. A do meu pai ficou, na maioria, no bairro da Penha, para onde íamos passear e visitar depois que rumamos para a Freguesia do Ó.

No caminho Lapa-Penha, ou vice-versa, o ônibus ia pela Marginal Tietê. À beira do rio, vaquinhas pastando, e eu me encantando com a paisagem. Ajoelhada no banco e grudada na janelinha, ia cantando e apreciando os caminhos. O vento escondia minha voz; por isto, podia me soltar e cantar à vontade, menos quando o coletivo parava e eu, envergonhada, silenciava.

Não sei exatamente quantos anos tinha e qual o trajeto que percorríamos, quando resolvi jogar pela janela do ônibus meu anelzinho de ouro que ganhara de meu pai. Vai ver quis ver o efeito da argola dourada passeando ao vento.

Minha irmã mais velha é que dava trabalho. Chorava e esperneava porque não queria entrar no ônibus; depois, a mesma coisa, porque não queria descer. Eram uns tais de comentários: “Ah, se fosse minha filha!”. Meus pais ficavam apreensivos e não entendiam porque ela chorava tanto. Aos sete anos, quando entrou para a escola, parou de chorar e espernear. Caso de muita inteligência que precisava por em prática.

Depois, ônibus para ir ao colégio estadual: ginásio e colegial. Um dia, um pé do meu sapato caiu quando subi. A avó de minha amiga, que nos acompanhava ao ponto, correu atrás do coletivo e, quando o motorista parou, encaixou-o no meu pé franzinho.

Ônibus também quando ia com meu pai ao seu trabalho, no Bom Retiro, quase que mensalmente, para consulta médica no sindicato dos comerciários. Ele sempre dormia e eu morria de medo que passássemos do ponto. Se o acordasse, ele ficava zangado; então eu tossia, de leve. Aí ele abria os olhos, espiava para ver onde estávamos, avisava que ainda estava longe e voltava a cochilar. Nunca perdemos o lugar de descer.

Depois, o ônibus lotado para ir ao trabalho. Cadernos no braço para o cursinho à noite, marmita e carteira profissional, que eu achava obrigatório carregar na bolsa. À noite, quase uma hora no ônibus para ir do bairro da Lapa à Rua Augusta, e o cansaço do dia trabalhado batendo o nariz no vidro com as cochiladas. A mesma janela, que antigamente eu usava para cantar, me servia agora de apoio para o descanso.

Mesmo depois de motorizada, ainda resistia a dirigir e preferia o coletivo para me transportar, principalmente ao centro da cidade, onde é tão difícil estacionar. Atualmente, quando é possível, gosto de viajar de ônibus e observar as pessoas, ler, escrever e até mesmo cochilar, agora por puro relaxamento que o balanço provoca em mim.

Assim vai viajando a minha vida. E eu na janelinha do mundo, espiando o tempo, a memória e mil histórias que vou cantando com o vento como uma eterna menina sonhadora.

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