Quando Seu José estava já há vinte anos com sua mercearia Alvarve, próximo ao numero 800 da Avenida Dr. Cardoso de Mello, pensava em vôos mais altos: ter uma padaria. Afinal, português que é, não teria muito mistério para tal. Caso fosse preciso, o que não faltava na Vila Olímpia era português dono de padaria para dar sugestão. E como eles entendem de padaria!<br><br>Local para tal, já tinha. Era um belo armazém de esquina da própria Avenida Dr. Cardoso de Mello, esquina com a Rua Ponta Delgada, construída por outro português que tinha uma padaria na Rua da Ponte (Clodomiro Amazonas), esquina da Rua Amélia (Jesuíno Cardoso). Se tinha que botar a mão na massa, Seu José não regateava. Era um homem muito trabalhador. Sua esposa, Dona Maria, também não fazia cara feia se tivesse que pegar no batente. E muita vezes ela ajudou na mercearia, mesmo tendo que cuidar da casa e dos filhos. Coisas que todas as mulheres portuguesas faziam com maestria.<br><br>Também os filhos, Antonio e José, estavam nessa empreitada desde pequenos. Entregavam mercadorias de bicicleta e, anos mais tarde, ambos de carro.<br><br>Finalmente a padaria estava montada. Os convites eram dados de boca em boca. Você vai à inauguração da padaria do Seu José? Era o que eu e outros falávamos. Não demorou muito e toda a Vila Olímpia estava sabendo. Isso se deu em 1967: um mundaréu de gente estava lá, tomando cervejas e beliscando quadradinhos de queijo regado a azeite Galo.<br><br>Seu Mario, feirante e muito amigo e vizinho de Seu José, financiou a sardinhada, mais conhecida como sardinha inteira na brasa, onde se assava o peixe do jeito que saiu da água. Na grelha, o bichinho saía incólume, sem ficar grudado na grade.<br><br>Seu José ficou por uns seis anos com a padaria, mas segundo os negociantes, não se deve ficar por muito tempo, para vender o valor mais alto. Seu José, penso que, pelo peso da idade, e também cansado de sair da padaria às 22h30 e andar uns 150 metros até sua residência (com revolver na mão para não ser assaltado), achou por bem vender seu comércio.<br><br>Até então nunca tinha sido assaltado. Seu José era muito bem quisto pelo povo do bairro. Estava sempre sorridente, amigo de todos, adquiriu respeito quando cedeu seu espaço na mercearia Alvarve, para que ali fosse a sede do Flamengo. Desocupou algumas prateleiras para que fossem colocadas as taças ganhas pelo time.<br> <br>Tanto ele como sua esposa, Dona Maria, os filhos Antonio, José e Graciete, nunca se meteram em confusão ou fofocas, coisa comum na Vila Olímpia. Estavam em todas as festinhas de aniversário, batizados e festas da igreja do Divino Salvador, onde eram católicos praticantes. Seus filhos congregados Marianos e a filha, na instituição das filhas de Maria.<br><br>A Padaria Vitória Regia passou a ser o ponto de parada para uns bebes antes da janta, para abrir o apetite. Quando não à noite, antes de ir para casa, para falar de futebol e contar algumas mentiras. Era o caminho de minha casa. Obrigatoriamente tinha eu que passar em frente e sempre dava uma parada para um papo.<br> <br>Em 1974, quando a padaria já tinha outro dono, uma sociedade Ítalo-Brasileira, continuávamos a dar uma parada para bebericar e conversar. Um dia, véspera de uma sexta-feira santa, estava eu passando lá pelas 22 horas e ela estava fechada. Coisa que, até então, nunca tinha acontecido. Então passei reto. Acontece que ela estava sendo assaltada.<br><br>Os primeiros malácos que entraram já foram direto para um canto e pegaram o ferro de baixar as portas. Feito isso, colocaram os que estavam na padaria para dentro do balcão.<br> <br>Dois apontavam armas para os fregueses. Outro para o caixa. E mais dois vasculhavam onde se fazia o pão para tirar os padeiros e confeiteiros de lá. Um dos padeiros era jovem, mas alto e bastante corpulento, porém um cara pacato. Devido a seu porte físico bastante avantajado, levou uma tremenda bofetada na cara para ter mais respeito com quem estava “trabalhando”. <br><br>Outro foi mais além e viu outro funcionário, completamente o oposto daquele, magro meio corcunda, cabelos em desalinho, o tipo de uma pessoa que não fazia mal nem para uma mosca. Não é que um ladrão ficou com medo dele? Sem que o funcionário percebesse, o ladrão voltou com revólver e tudo na mão pedindo ajuda, porque sentiu que tinha um sujeito esquisito lá dentro. O chefe do assalto, que estava rendendo o dono da padaria que estava no caixa, ficou muito bravo, trocou de função com o ladrão medroso e foi lá.<br><br>O dono da padaria, que estava com um berro na cara, me disse que teve vontade de rir. E lá foi o chefão de encontro com o esquisito. Chegando lá, já foi dizendo: “Levanta daí seu vagabundo”. O “esquisito”, ao ver que era um assalto, se levantou dizendo “sim senhor, sim senhor”.<br><br>Tudo dominado, com o dinheiro do caixa no bolso, pacotes de cigarros na sacola e pertences dos fregueses também, o líder do assalto disse: “O italiano de merda me leva até o cofre!”.<br><br>E lá foram o dono da padaria e o ladrão que não tinha medo de nada. Com o revólver encostado no ouvido do dono da padaria, fazia com que ele ficasse nervoso e não conseguia abrir o cofre. Irritado, o ladrão começou a gritar. E o italiano, na maior calma, pediu para ele tirar o revolver do pescoço dele para não se enervar. O ladrão concordou. Ai o cofre foi aberto.<br><br>E maços de notas eram colocados numa sacola. O que chamou a atenção do dono da padaria é que um maço de notas o ladrão colocou na sua meia. Quer dizer: ele estava roubando seus colegas de “trabalho”.<br> <br>Não durou muito tempo e a padaria foi assaltada de novo. Só que, desta vez, às seis horas da tarde. Hora da Ave Maria, e também hora em que saíamos do trabalho para tomar o pingão do apetite. O primeiro a ser rendido não trabalhava na padaria, era o dono da banca de jornais que tinha na calçada. “Senhor, dá uma moral pra gente, disse o ladrão”. E lá foi Seu Benedito, tremendo que nem uma vara verde, para dentro. Dessa vez as portas não foram baixadas.<br> <br>Ficou tudo aberto, só que não se via ninguém nem dentro e nem fora do balcão. Foi quando Gavião, que saído do trabalho a caminho de casa, estava louco para tomar uma pinga e, não vendo ninguém, gritou: “E aí, vagabundagem, tem alguém aí para molhar o bico do Gavião?”. Tinha sim: saiu um ladrão lá de dentro e, na maior calma, foi até a porta e, daí para frente, Gavião viu um berro nas costas se encaminhando a pedido para os fundos da padaria.<br><br>Aí que os ladrões se tocaram que as portas tinham que ser fechadas, mas enquanto isso, mais clientes vinham chegando e sendo convidados a entrar, dentre essas pessoas, uma mulher grávida em estado já adiantado.<br><br>Os ladrões não eram os mesmos de antes, e eram mais malvados. Todos tiveram que tirar a roupa, inclusive a mulher grávida. O que chocou a todos. Ainda bem que a coisa ficou só nisso.<br><br>Daí para frente, os donos resolveram vender e quem comprou foi Augusto, um português que já tinha a padaria na Rua Iguatemi, esquina com a Rua Tabapuã. Essa Vila Olímpia tem história, gente.<br><br>e-mail do autor: [email protected]