Ai, Minhas Amídalas!

Anos 50. O grande problema que afligia minha mãe eram as constantes gripes e amidalites que eu e meu irmão sofríamos. Remédios ministrados eram vários, mas os efeitos, nada promissores. E abalados, perdíamos aulas e dávamos trabalho dobrado para a Dona Tereza.

Antibióticos (penicilina) não eram fáceis e custavam caro para serem ministrados por dá cá aquela palha. Então, o tratamento era feito à base de chá de limão com uma Cafiaspirina ou um Melhoral e, quando a dor era muito forte, um comprimido de Cibalena. A pomada de Vick Vaporub era esfregada em nosso tórax e, no pescoço, era amarrado um lenço embebido em álcool.

Após esse tratamento restava, então, aguardar o suador em baixo de cobertas grossas e torcer por uma melhora o mais rápido possível.

Foi então que, aceitando conselhos de vizinhos e aproveitando indicações que meu tio, Elias, obtivera mercê do alto cargo que ocupava na Secretaria da Saúde do Estado (ele trabalhava no Palácio da Saúde ali na Avenida São Luiz), minha mãe matriculou a mim, a meu irmão e a meu primo Roberto no Instituto de Higiene e Saúde, que ficava na Avenida Dr. Arnaldo, esquina com a Rua Teodoro Sampaio.

Consultas realizadas aproveitando o “jeitinho brasileiro” e com o diagnóstico conclusivo dos médicos, deveríamos ser operados das amídalas o mais breve possível. Crianças e inocentes, aguardávamos com ansiedade pela intervenção cirúrgica por saber que, depois da operação, deveríamos tomar muito sorvete para impedir uma possível hemorragia – e, como é sabido, a sorvete nenhuma criança diz não!

Chega o grande dia! Dirigimos-nos para o instituto na hora marcada (5h00 da madrugada). Às 7h00 começaram a chamar os pacientes – e nós na expectativa. Enfim ouço meu nome e a coragem já começava a querer me abandonar. Entro na sala meio que forçado. Vejo um médico todo de branco, acompanhado por duas enfermeiras assim vestidas também. Olho rapidamente a sala e nada vejo de anormal, a não ser uma cadeira de metal.

O médico se aproxima, me pega pelo braço, me leva até a tal cadeira e me faz sentar nela. Ela está gelada, mas não reclamo. Uma das enfermeiras pede para que eu junte meus pés e os coloque para trás. Assim procedo e percebo que uma barra de ferro é destravada e colocada na posição certa para que meus pés fiquem impossibilitados de se moverem.

As duas, então, se acomodam por detrás da cadeira e aguardam as determinações do médico. Este, por sua vez, empunha um aparelho que, de relance, me pareceu uma colher de fazer bolas de sorvete, côncava e com uma haste móvel para retirar a bola de sorvete.

Tento escapar, mas não consigo. O médico se aproxima, faz um sinal para as enfermeiras que, “muito delicadamente”, me agarram e enquanto uma me imobiliza o corpo, a outra aperta meus maxilares de tal forma que sou obrigado a abrir a boca na tentativa de amenizar a dor.

Pronto, o cenário está completo. O médico introduz aquela “colher” na minha boca, chega até a minha garganta e, num gesto brusco, laça uma das minhas amídalas e a decepa de forma cabal.

A dor é fulminante. Não tenho dúvidas: luto com todas as minhas forças e consigo fechar a boca. Não atendo as ordens para abri-la novamente. Sinto que um líquido quente e gosmento vai se formando dentro da boca. Num gesto de vingança e desabafo, cuspo todo aquele líquido para cima do médico, que vê seu uniforme branquinho se manchar de vermelho com uma placa de sangue e saliva. Sou liberado e, chorando muito, vou embora. Caso parecido a este ocorre também com meu irmão.

Sorvete? Quem poderia querer saber de sorvete depois daquela tortura?

Resultado final: tanto eu como meu irmão ficamos sem uma de nossas amídalas. Pior: três anos depois, passamos novamente por trauma idêntico para extrair a outra amídala; só mudou o hospital. Dessa vez, foi na Santa Casa de Santos. Como sofriam as crianças da minha época!

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