Lá pelos anos de 62, 63, eu estudei no Liceu. Ou, melhor dizendo, eu freqüentei o Liceu… Para ser mais honesto, eu estava matriculado no Liceu.
A turma da minha sala era fenomenal. Todas as noites, todos chegavam antes das aulas e nos reuníamos no pátio. Antes que o sinal batesse, já tínhamos nosso programa: “Hoje vamos no Rialto, que está passando O Cão dos Baskervilles”. Será que vocês acham que alguém era louco de perder um filmão daqueles?
Íamos rapidamente pela Monsenhor Andrade, comprávamos meias-entradas e nos esparramávamos nas poltronas, reclamando para que o filme começasse logo.
Durante a exibição, era um tal de vaiar, assobiar, xingar, aplaudir, rir e engolir a seco aquelas cenas mais românticas.
O desinteresse pelas aulas não eram justificados, pois os professores do Liceu eram todos muito bons, mas sabe como é… Ter quatorze ou quinze anos de idade é um encargo muito grande para quem estava apenas ingressando numa liberdade de estudar no período noturno, e as tentações eram enormes para a falta de vontade de ser aprisionado durante o período das 19h30 às 22h30; era muita vida capitalizada.
Pena que só descobrimos nossas perdas depois de jogadas fora as oportunidades, e assim, quando remexemos os arquivos do tempo, notamos certas lacunas e não encontramos nada que possam justificá-las.
Hoje, o Liceu não mais existe. A Rua Oriente é uma Babel onde não passam mais os bondes, onde não transitam mais os casais de namorados que marcavam encontros em suas esquinas, todas as terças, quintas, sábados e domingos.
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