Eu sou filha de gente do interior, nasci na Vila Mariana, vivi em muitos lugares, tenho alma de nômade. Meu pai nasceu em Limeira e criou-se em Atibaia; veio para São Paulo em 1924. Minha mãe nasceu em Queluz, viveu algum tempo em Taubaté e depois veio para São Paulo, onde conheceu meu pai. Casaram-se na década de 30. <br><br>Quando eu era criança aqui em São Paulo, em minha casa, durante uma época, havia fogão à lenha, depois de carvão e, mais tarde, com gás de rua. Havia um porta-chapéus no corredor interno, logo antes da sala; o rádio "capelinha", na mesa de canto. Nos armários, eram comuns toalhinhas e bicos de papel de seda, que nós picotávamos para enfeitar as prateleiras. Nos fios de luz elétrica, colocávamos tirinhas de papel de seda. Sobre o fogão, na parede, sempre havia um pano bordado, pois não existia exaustor.<br><br>Fazíamos nossos próprios tapetes, de crochê, usando meias velhas de algodão. As cortinas eram de renda grossa, nas vidraças e nas portas divisórias dos aposentos. Na cozinha, havia uma trempe onde eram colocadas as panelas – as maiores em baixo -, e houve uma época em que minha mãe pendurava as tampas numa cordinha presa na parede.<br><br>Minha mãe gostava de fazer doces, principalmente de laranja azeda e, para isso, havia um boião de louça de cor verde; lembro-me bem: ela trocava a água da laranja durante vários dias, até ela ficar no ponto, isto é, perder o amargo. Havia colheres de pau e o suporte para o coador (de pano) do café era de madeira, bem rústico.<br><br>Mamãe gostava de panelas de ferro. Suas roupas ficavam sempre muito branquinhas, porque usava um coradouro de madeira, que meu pai mesmo fazia. A lata de lixo era uma de querosene ou óleo, adaptada com uma alça de cabo de vassoura. O capacho era de madeira, com tampinhas de garrafas pregadas para limpar os sapatos, e ficava do lado de fora da casa e ninguém roubava.<br><br>Nós tínhamos colchas de retalhos nas camas, os travesseiros eram de paina, de penas, de algodão, de macela… E no quintal havia um galinheiro, canteiros com flores, cheiro-verde, ervas… Tempos simples e felizes!<br><br>e-mail do autor: [email protected]