Mais Memórias Alimentares

Mesmo sabendo que o Miguel Glutão de antigamente já não mais existe, gosto de lembrar das minhas aventuras nas mesas das casas de pasto, restaurantes e cantinas da minha São Paulo.

Foi assim que fui buscar na memória uma cantiga muito antiga e que já não existe mais. A Cantina do Lucas ficava no Brás, situada na Rua do Gasômetro com o Largo da Concórdia, bem ao lado do Viaduto do Brás, que foi uma obra idealizada para terminar com os problemas do trânsito congestionado, em conseqüência das porteiras da passagem de nível ali existentes.

Lembro-me que a cantina mantinha um “outdoor” na sua fachada, em que um “mestre-cuca”, devidamente paramentado com um chapéu tradicional e ostentando um magnífico bigode, apresentava, em uma das mãos, um garfo enrodilhado de espaguete ao sugo, e com a outra mão, tocava na orelha no gesto tradicional, para dar a entender que estava realmente delicioso.

Embora cantina e incrustada no velho Brás, a especialidade da casa eram as rãs. Enormes e saborosas. Preparadas de várias formas: fritas ao alho e óleo, à dorê, à milanesa, mas sempre deliciosas. Em São Paulo, essa iguaria tinha em poucos locais especializados; a Cantina do Lucas e o Restaurante Parreirinha (ponto tradicional da noite paulistana e do seu compositor Adoniran Barbosa) eram os principais.

Sempre gostei dessa iguaria. Um sábado à tarde, estando na casa da minha noiva, conversava com sua avó a respeito de comidas e o assunto rã veio à baila. De todos que ali estavam, só eu e a Vó Maria sabíamos como era aquele acepipe. Minha noiva e as primas, além de não conhecerem, disseram que não gostavam.

Conversa vai, conversa vem, perguntei para a Vó Maria se eu podia buscar umas rãs para ela preparar. Ela concordou e eu fui. Peguei um ônibus na Rua Augusta e fui direto até o Largo da Concórdia. Comprei doze rãs pimenta! Eram caras, mas valiam a pena.

Já de volta, entreguei as “meninas” nas mãos da Vó (já repararam no corpo de uma rã depois de extraída a sua pele?), que, como grande cozinheira, me informou que as ia preparar ao alho e óleo.

Ao começar a fritura das mesmas, a casa começou a ser impregnada por um aroma agradabilíssimo, e esse cheiro, infelizmente, começou a instigar a todos os presentes. Prontas as rãs, era chagada a hora de degustá-las e, para minha surpresa, todos os presentes se candidataram a pelo menos experimentar aquela gostosura.

Para gáudio da cozinheira e pesar do patrocinador, todos experimentaram e gostaram. Assim, aquela oportunidade que eu tinha me proporcionado a comer uma grande parte das doze rãs me permitiu saborear apenas duas rãs, e, lógico, com muito custo e briga.

Foi uma tarde inesquecível!

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