Casar na Penha, pela tradição e beleza da igreja, era o sonho de todas as moças que lá moravam – inclusive das de outros bairros. Para marcar um casamento, tinha que ser com muita antecedência e pagava-se um preço alto por isso; dependia muito da escolha dos adereços. Ex.: tapete vermelho, quantidade de flores, iluminação, etc.
Era comum retirarem o tapete, os arranjos e diminuírem as luzes entre um casamento e outro. Tudo dependia do preço pago. Eram casamentos em série. Começavam às 18h00, iam até às 20h00 e tinham a duração de quinze minutos cada. Havia também uma senhora encarregada de fiscalizar os decotes dos vestidos das noivas. Se ela achasse saliente, colocava uma capinha branca sobre o vestido, o que tirava todo o charme do modelito.
Assistir casamentos na igreja era um programa para os sábados. As pessoas iam até lá para reparar e criticar. Por conta de tudo isso, resolvi casar na Capela de Nossa Senhora de Fátima, que, apesar de não ter a beleza da igreja matriz, foi enfeitada, iluminada, só para meu casamento, com direito a um belo coral, que sempre se apresentava nas missas de domingo. Emmanuel, irmão do meu marido, fazia parte desse coral.
O ENXOVAL
As meninas começavam bem cedo a fazer o enxoval. Para arrumarmos um bom marido, tínhamos que aprender a bordar, costurar, etc. Eu nunca tive muita habilidade com linhas e agulhas, e meus trabalhinhos manuais eram horrorosos. Tudo que fazíamos era guardado num baú e ficava à espera de um pretendente. Eu sempre perguntava para minha mãe: “E se não aparecer ninguém para casar comigo? E se aparecer e ele não gostar dos meus bordados???”.
Ainda bem que o Eliseu (meu marido) interessou-se mais pelo meu jeito de pular corda, brincar de amarelinha e do meu desempenho no teatrinho de rua. Foi assim que o conheci. Ele tinha 19 anos e eu apenas 12. Quando fiz 15 anos, ele foi pedir minha mão ao Sr. Pedroso.
A MORADIA
Normalmente, os noivos alugavam um quartinho em um cortiço, ou moravam junto com os pais, num cômodo e cozinha construído nos fundos da casa. Eu e Eliseu alugamos um sobradinho numa vila. O aluguel consumia todo meu salário de escrituária.
A CERIMÔNIA
A noiva roubava todas as cenas. Ninguém queria saber se o terno do noivo era emprestado, surrado ou comprado nas Lojas Garbo ou Ducal. Todos queriam ver a noiva com seu belo vestido, escolhido com muito carinho, meses antes do casamento. O meu era simples, mas muito bonito. Foi feito e bordado pela Dona Olga, sogra de minha irmã mais velha.
A FESTA
Normalmente, os convites eram com o tradicional "os noivos despedem-se na igreja". Mas quem agüentava as críticas dos parentes? “Que pão duro! Não vão oferecer nem um bolinho??”.
No meu casamento teve uma festa, com os quitutes preparados pela minha mãe, Dona Linda. Eram as tradicionais coxinhas, rissoles, sem esquecer dos palitinhos com picles, azeitonas e salsichas espetadas no repolho. O tradicional bolo era encomendado de uma doceira, que caprichava no recheio e na decoração. O chopp e refrigerantes eram servidos no quintal, o lugar com maior concentração masculina.
LUA-DE-MEL
Normalmente, os noivos iam para Santos (Praia-Grande) numa furada, como o Modesto relatou. Quem tivesse mais posses, ia para Poços de Caldas.
Eu e Eliseu tivemos sorte, pois ganhamos de presente do Zalli, ex-jogador do Juventus, que era meu vizinho, uma semana no seu apartamento de quarto e sala em São Vicente. Vilma, mulher do Zalli, enfeitou o apartamento com muitas flores e frutas. Estava muito bonito, mas eu, aos 19 anos, nunca tinha visto o mar, e tudo que desejava naquele momento era vê-lo. O Eliseu, no entanto, tinha outros desejos, e tentava me tirar da pequena varanda que ficava na lateral do apartamento. “Vem, meu bem, vem deitar”, dizia ele, “Amanhã você vê o mar”. Mas eu não queria saber de nada, só queria ver o mar. Infelizmente, não consegui realizar meu desejo nessa noite, acho que o Eliseu também não ficou muito satisfeito. Só no dia seguinte, depois de curtir a praia e o mar, é que a lua-de-mel começou de verdade.
A VOLTA
Quando os noivos voltavam, tinham que abrir todos os presentes que eram deixados em cima da cama do casal.
Comigo não foi diferente. O pior foi no dia seguinte, constatar que tínhamos ganhado oito ferros elétricos, doze aparelhos de café, oito jogos de caipirinha, muitos vasos e fruteiras, mas não ganhamos nenhum prato, nenhum talher e nenhuma panela. Tivemos que pedir emprestado para minha mãe.
A CONVIVÊNCIA
Conviver depois de casado é difícil. As dificuldades financeiras, as rusgas, etc., atrapalham. Mas a alegria da chegada dos filhos supera tudo.
Eu e Eliseu tivemos duas filhas, Elisabete e Adriana, que nos deram cinco netos maravilhosos. Fizemos, em junho, 43 anos de casados, de uma feliz união.
“E o mar, quando bate na praia é bonito, é bonito."
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