A Madonna Doloratta

A característica marcante das correntes de imigrantes europeus que chegaram nestas Terras de Piratininga era "fazer a América" e, posteriormente, compartilhar o sonho de retornar ao seio de suas terras de origem. Poucos conseguiram tal intento, ou por falta de oportunidade, ou mesmo por falta do interesse; afinal Deus é brasileiro, e esta é uma terra abençoada.

Os velhos italianos que se radicaram na cidade de São Paulo, primeiro na Baixada do Glicério e, logo após, no nosso querido Brás, possuíam certa coesão cultural, mantendo os traços e laços de origem; certamente, a religiosidade foi o grande elemento aglutinador destes fenômenos.

Dificilmente existirá um paulistano que não conheça, ou não tenha ouvido falar, em São Vito, em São Gennaro, na Madonna da Achiropita, na Madonna de Casaluce, em São Cosme e São Damião – os santos irmãos possivelmente de origem armênia -, ou (o "famoso") Santo Expedito, reverenciado pelos paulistanos pela incansável obra do padre e capelão da Polícia Militar Elisio de Oliveira.

Sem puxar a "sardinha para minha brasa", boa parte da perpetuação desta memória foi obra de colônia de italianos nascidos em Polignano a Mare, da qual descendo.

A ABSVM – Associação Beneficiente São Vito Mártir surgiu somente em 1918, e foi responsável pela construção da capelinha demolida (em frente ao "spaca legna", na antiga Rua Álvares de Azevedo), transformada em paróquia em 1940, bem como da atual Igreja.

A primeira imagem, todavia, é bem anterior à organização daquela entidade, pois foi trazida em 1885 pelo polignanese Modesto de Luca, para que São Vito continuasse a proteger os imigrantes de Polignano na terra brasilis. Aliás, grande parte do atual acervo de imagens na Igreja e da antiga Capelinha (São Cosme e São Damião e Santo Expedito) foi obra de doações daqueles trabalhadores – os velhos italianos -, que, possivelmente, importaram as imagens que faziam o ponto alto das procissões pelo bairro.

A propósito, as procissões passariam a ter nova performance depois da chegada dos italianos detidos na época da guerra, que ficaram famosos com a Cantina do Marinheiro (mas esta é outra história, não estória), pela forma de conduzirem o andor.

Ocorre que, em determinada época, resolveu-se introduzir nos altares da Capelinha a imagem da "Madonna Doloratta", ou, Nossa Senhora das Dores. E não existia a possibilidade da importação, os tempos eram difíceis.

Minha avó, a Maestra, tomou a responsabilidade. Primeiro tratou de conseguir um artista, mas quel maledetto teimava que não poderia dar continuidade à obra apenas pelas estampas da santa. A velhinha não teve dúvidas: escolheu uma modelo viva por meio de uma das italianinhas mais bonitas do bairro, a filha da Dona Anita, vendedora de bananas, que morava na Rua da Alfândega, perto do açougue do Seu Praxédes.

O artista ficou maravilhado pela modelo viva e, em pouquíssimo tempo, se desincumbiu da encomenda, que, hoje, se encontra em um dos altares e que "andou" bastante pelas procissões de Jesus Morto, nas páscoas da minha juventude.

"… e assim termina a história (não estória); entrou por uma porta, saiu por outra, quem quiser que conte outra".

(Fragmentos e anotações de Roque Theophilo, apresentados na Igreja de São Vito, em 15 de junho de 1996.)

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