Velórios Inesquecíveis

Até o final dos anos 60, o falecido era velado em casa. Velórios particulares e municipais (que começaram a ser implantados) eram um luxo acessível a poucos.
E velórios são complicados. Procuramos não lembrá-los. Fingimos que nunca aconteceram. Alguns velórios ficam marcados em nossas lembranças pelo trágico, pelo grotesco, ou, pela comicidade. E como de tristeza já chega a vida, vou narrando os cômicos.

Eu sou um perigo! Meu espírito é forte, a carne é fraca e o riso é frouxo, muito frouxo…

1958. Lá fui eu à casa do Gígio. A porta estava aberta para quem quisesse entrar. Era o velório da avó dele, "Nonna" Fiammetta, que, depois de longa doença, partiu desta para melhor.

Fui encontrar o Gígio à beira do caixão. Ele, com os olhos vermelhos de tanto chorar, olhava para avó e ruminava palavras ininteligíveis. Aproximei-me e, consternado, dei-lhe os pêsames. Olhei também para a "nonna" e comentei: "Pela cara dela, parece que sofreu muito com a doença. Está tão desfigurada, Não é a Dona Fiammetta que eu conheci…". Gígio, enxugando os olhos, cortou a minha observação e disse, num tom ríspido: "Que nada! A cara dela é assim mesmo. Está com a mesma cara que fazia quando estava dormindo.". Olhei para defunta e minha mente fértil, ou sórdida, imaginou a cena: "Nonna" Fiammetta, dormindo, com aquela cara apavorante, e roncando!

A custo, engoli o riso que estava aflorando e desconversei. Passada a vontade de rir, perguntei ao Gígio o porquê daquela rispidez com relação à avó. Gígio começou a chorar copiosamente. Tentei consolá-lo, mas ele me afastou e foi dizendo entre soluços: "Estou de mal com ela! Justo no dia do meu aniversário a "nonna" me fez essa desfeita”. Encarou a avó e disse gritando: "Bem feito que morreu, vecchia strega, maledetta! (Velha bruxa maldita!)".

A mãe do Gígio, escandalizada, levantou-se da cadeira e, gritando feito uma louca, deu-lhe uns bofetões. O pai dele agarrou-o pelas orelhas e o levou para o quarto, dizendo que ia mostrar-lhe "o que era bom pra tosse". Os presentes estavam todos indignados, a gritaria era generalizada. Não agüentei mais, saí correndo de lá às gargalhadas. Cheguei em casa chorando de tanto rir. Minha mãe pensou que eu estivesse histérico, ou coisa que valha. Mais ela perguntava o que havia acontecido, mais eu gargalhava. Levei muito tempo para contar o que se passara no velório.

1960. Antes de falar sobre este outro velório, é preciso que eu apresente o meu tio Amedeo. Era o benjamim dos meus avós – a "raspa de tacho", antes que a "fábrica" fechasse. Ele estava para nós, os seus sobrinhos, mais como um irmão mais velho do que como um tio. Era ele quem nos ensinava "certas coisas" que os nossos pais não queriam que soubéssemos, mas que, numa espécie de conivência passiva, preferiam que soubéssemos "em casa" aquilo que poderíamos aprender errado nas ruas… Vã esperança. Um molecão beirando os 25 anos, tio Amedeo era um sátiro por natureza. Pensava com a genitália. Nunca foi desrespeitoso; o erotismo ficava somente nos pensamentos. Nunca nas palavras. Até que ele tomasse uns copos a mais…

Eu estava com o meu tio Amedeo, junto à janela da sala onde se realizava o velório. Ele havia bebido muito por causa do defunto – o Pasquale, seu amigo de infância; mais que amigo, um irmão. Como disse, "zio" Amedeo, quando bebia, não pensava no que dizia. E lá estava ele, encostado à janela, encarando a viúva – a Dona Nietta -, que gritava e se descabelava implorando para que o Pasquale acordasse. Leo, o irmão de Nietta, aproximou-se do meu tio, abraçou-o e disse: "Veja o estado em que está a minha pobre irmã. O que será dela agora?". Sei lá o que se passava na cabeça do meu tio (ou talvez eu soubesse). Ele, ainda encarando a viúva, responde ao irmão dela: "Não se preocupe, Leo. Tudo vai ficar bem. Ela ainda está gostosona, não precisa nem de "meia-sola" (plástica). Logo, logo ela está arrumando uns amantes…".

Leo deu um soco na cara do meu tio e começou a gritar: "Tá pensando que minha irmã é putana, seu desgraçado? Eu te mato!". A turma do "deixa disso" veio separar os brigões e acabou levando uns sopapos. E, como era de se esperar, retribuíram. E o "pau comeu" no velório. Quebra-quebra, gente gritando… E a rádio-patrulha chegando…

Mais tarde, em casa, tio Amedeo, com um olho roxo e sem um dente da frente, deitou-se no sofá. Meu pai disse-lhe poucas e boas e saiu da sala. Eu fiquei e olhava o estrago feito na cara do meu tio. Ele piscou para mim e disse baixinho: "Que ela está gostosona, está!”. Segurei o riso. “Você acha que eu devo ir ao enterro do Pasquale, amanhã?". Minha gargalhada explodiu, trazendo meu pai de volta à sala. E só parou com uma cintada bem dada.

1963. Aqui, neste relato, a minha memória falha. Não lembro se foi no Hospital Humberto I ou no Santa Rita. Mas, com certeza, sei que foi o primeiro velório que fui em que o defunto não era velado em casa.

Faço também um parêntese para falar da viúva. Ela sempre foi uma mulher esforçada. Trabalhou duro em uma fábrica para pagar os estudos e formou-se em Letras. Casou-se com um pequeno comerciante e, juntos, lutaram para fazer o negócio evoluir. E assim foi. Um belo dia, ele deixaram a Mooca e se mudaram para Higienópolis. As más-línguas da família, por puro despeito, diziam que ela havia "enricado" e esquecido os mais pobres.

Eu, acompanhando o meu tio-avô Isaía, fui ao velório do marido de uma sobrinha dele, minha prima em segundo grau. Beirando os 90 anos, tio Isaía começara a caducar. E a incomodar as pessoas. Juro que tentei policiar os movimentos dele. Mas meu tio era imprevisível e ágil. Chegou no velório como quem chega em uma festa. Sorriu para todos, fez brincadeiras com os familiares, riu alto, sem se incomodar com os cutucões nas costas que eu lhe dava.

Repentinamente, lembrou-se porque estava ali. Pigarreou meio sem-graça e dirigiu-se à sobrinha viúva. Cumprimentou-a e, aí, a gravidade do momento desapareceu da sua mente. Foi dizendo que a sobrinha estava muito bem. Muito conservada e que ele estava contente porque ela parecia muito feliz. A viúva congelou. Os presentes pasmaram e alguém murmurou: "Como assim? Muito feliz?". A encrenca estava armada. Fiquei imaginando os comentários que a frase do meu tio iria suscitar. Depois, ele olhou para o defunto e comentou com a viúva: "Ele está bonito, gordo. É imagem da saúde. Do que foi que ele morreu?". Ela, muito incomodada, respondeu secamente: "Foi pneumonia…". E Tio Isaía, rápido, responde: "Ah! Isso não é nada!". Este comentário foi demais para a pobre mulher. À beira de um ataque de nervos, a viúva, irritadíssima, gritou: "Está morto, não está? Como não é nada? Cazzo!".

Pronto! Chegou minha hora e vez da dar vexame. A palavra "cazzo", na boca daquela senhora tão distinta e culta, foi a gota d'água. Surtei e comecei a rir. Agarrei tio Isaía e saímos de lá o mais rápido que pudemos. No caminho de volta para casa, tio Isaía olha na minha cara e dispara indignado: "Que vergonha! Você rindo daquele jeito dentro de um velório.".

Fazer o que, senão continuar rindo mais e mais.

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