O Balneário do Cambuci

Talvez muitos não se lembrem, mas antes de ser um balneário, era apenas um parque infantil municipal, chamado Regente Feijó. Ocupava um quarteirão inteiro, formado pela Lins de Vasconcelos, Lacerda Franco, D. Duarte Leopoldo e Senador Carlos Teixeira de Carvalho.

Foi lá que tive a minha primeira experiência pré-escolar, logo que nos mudamos para o bairro, vindos da Aclimação. Eu tinha cinco anos e resolveram me matricular. Era um parque, onde se ficava o dia todo. As crianças, cujas mães trabalhavam fora, inclusive almoçavam lá. Eu fiquei com tanta vontade de comer a comida de lá que minha mãe teve que mentir, dizendo que trabalhava fora. A cozinheira, lembro até hoje, era a Dona Batalha, que tinha a filha Guaraciaba como ajudante.

O uniforme de verão era calção vermelho e camiseta branca. O de inverno, calça e blusa de flanela marrom, acompanhado de uma sacolinha de brim azul com alça de elástico. E o meu número, que vinha bordado no uniforme, era 2307. Todos tinham direito à merenda pela manhã e à tarde. Eu detestava. Era geralmente um copo de leite frio, sem açúcar, com um pãozinho com manteiga. Eu, em casa, só tomava leite em pó.

As turmas eram divididas por sexo e por idade. Havia os pequenos, os médios e os grandes. Eu entrei como pequeno e saí como médio, quando iniciei o 1º ano do Grupo Escolar Oscar Thompson.

Ficávamos enfileirados, aguardando a chamada da professora que ficaria com a gente durante todo o período. Não era sempre a mesma, infelizmente. Nessa época, nem se imaginava chamá-las de tia. Era a maior felicidade quando a dona Vera, a mais boazinha, dizia: “Sigam os meninos”.

Havia atividades nas salinhas, onde tinha um armário fechado à chave, cheio de mistérios e coisas interessantes. Também tínhamos tempo livre para brincar por todo o parque. Havia playground, anfiteatro ao ar livre e até mesmo um teatro, onde vez ou outra acontecia algum espetáculo de fantoches. E tinha também o campo de futebol bem de frente para a Avenida Lins.

Certa vez, teve uma campanha educativa no teatro, com distribuição de pasta Kolynos e Biotônico Fontoura, mais o livrinho do Jeca Tatu. Teve criança que tomou o vidro inteiro de um só gole, e outros que comeram toda a pasta do tubo. Tinha muita criança pobre lá, a maioria da famigerada turma da Barroca, que ficava bem no final da D. Duarte Leopoldo. Eles tinham fama de briguentos. Quando surgiam na esquina, vindos do parque, eu e minha turminha entrávamos todos em casa até eles passarem.

O então prefeito Adhemar de Barros, certa vez, fez uma visita e eu pude vê-lo bem de perto, com aquela enorme pança. Minha mãe, adhemarista convicta, foi vê-lo, com a desaprovação do meu pai, janista fervoroso. Nem aí eles se entendiam, sem falar que minha mãe era palmeirense e o meu pai corinthiano.

Lembro bem quando começaram a construção da piscina. Quando finalmente ficou pronta, tínhamos mais esse lazer. No dia da inauguração, o bairro inteiro foi convidado a participar, com direito a banho e tudo. Logo eu tive que deixar o parque, porque comecei a ir à escola. Quando aquilo virou balneário, há muito tempo já tinha me mudado para a Vila Mariana.

Havia outros parquinhos como aquele em São Paulo, mas não tão grandes. O "meu parquinho" chegou a ser capa da revista Seleções, em 1956 ou 1957. Mostrava o anfiteatro lotado de crianças, e até era possível reconhecer algumas delas.

Há muito tempo não passo por lá, mas acredito que o balneário ainda esteja funcionando.

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