Outro dia ainda, era Finados, lembrei do Zé do Caixão. Data mais que apropriada para tal, para lembrar dele. Daí fui procurar referências a seu respeito. Achei muita coisa sobre ele, que foi considerado o primeiro gênio do filme trash brasileiro.<br><br>São muitas as citações, mas a que mais me chamou a atenção – talvez porque não sabia disso – foi a de que ele, numa determinada ocasião, houvera trabalhado como repórter do “Notícias Populares”, cobrindo a realização da Fórmula Um para tão prestigioso jornal.<br><br>Imagina só, o Zé trabalhando de repórter para o NP (como nós, íntimos, chamávamos). Devia ser demais! <br><br>Nessa referência que encontrei, consta que ele fora a caráter. Só podia! Eu, pelo menos, não imagino o Zé do Caixão sem aquela roupa característica dele. Aquela mistura de Mandrake com Conde Drácula, com aquela barba de Dom Pedro II, ainda novo e com aquelas unhas enormes e nojentas, enrolando que nem repelente de pernilongo dos antigos. Daqueles fedidos que a minha avó acendia lá em casa, em espiral, espantando mais as pessoas que os pernilongos. Não imagino o Zé tirando a roupa nem pra tomar banho!<br><br>E por estar a caráter pelo autódromo, foi enxotado do local. Acho que no caso do Zé, melhor dizer exorcizado de lá. Dizem que só foi expulso porque estava chamando mais a atenção que os próprios corredores. Pura ciumeira! Justamente ele, que no máximo devia ser habilitado a pilotar um carrinho mequetrefe da Volks, que exatamente acabou ficando conhecido por seu próprio apelido: Zé do Caixão.<br><br>Mas não saiu do autódromo sem mais nem menos. Não sem antes marcar de forma notória sua passagem. Não saiu sem antes conseguir o intento de benzer um dos carros: a Simtek de Roland Ratzemberger, que acabou não se classificando para a corrida. E o pior estava por vir: o piloto acabou sofrendo um acidente fatal dois meses depois, em Imola, Itália, pilotando o tal do Simtek. Êta Zé, senhor das trevas! Não mexam com seu poder!<br><br>Esse era o Zé. E esse era o NP! Sempre com sua primeira página esticada em tudo que era banca de jornal, e um montão de gente de macacão de mecânico, das oficinas da redondeza, olhando as manchetes dele. <br><br>Mas não era só gente de macacão não. Tinha uns de terno e gravata também, que fingiam estar olhando os outros jornais pendurados, tipo Estado e Folha, mas estavam mesmo era olhando o NP. E de canto de olho, pra não dar bandeira.<br><br>Também pudera. O NP sempre chamava muito mais a atenção! Com aquelas letras garrafais, tipo primeira linha de teste de consultório oftálmico e as inconfundíveis e constantes fotos grandes de presuntos fresquinhos, mortos a facadas ou a pau (não os da Sadia, Seu Juvenal). Era tanta tragédia e desgraça no jornal que diziam até que se a gente o espremesse, escorria sangue.<br><br>Lembro do meu tio chegando em casa, trazendo o NP debaixo do braço. Todo dia, a mesma cena. Parece que ele ganhava de um jornaleiro amigo dele, pois vivia duro. E lá vinha ele com o NP. <br><br>Minha mãe ficava brava. Dizia que aquilo não era jornal que prestasse. Só tinha tragédia! Só notícia do mundo cão! Não queria que a gente visse o jornal, nem a pau!<br><br>Meu pai concordava com a minha mãe, mas nunca deixava de dar uma folheada. Na verdade, lia mesmo! Escondido! Como eu sabia? Peguei ele um par de vezes saindo do banheiro com o jornal bem dobrado. E quer saber, acho que até a minha mãe o lia. E bem disfarçada. Bem na hora em que ia forrar a lata de lixo com o jornal já lido por todos. Azar o dela é que sempre lia atrasada. Mas que lia, lia mesmo! Tenho certeza! E quer saber como sei: ela demorava demais pra forrar a lixeira. Ela, que sempre foi rápida em tudo. E como é que sempre sabia das histórias, tais como a do bebê-diabo, que foi manchete do jornal durante quase um mês? Ela não se poupava de dar seus palpites na conversa do meu tio, do meu pai e do meu avô, sobre os fatos do jornal. Tá vendo só, se traía direto! <br><br>E com tanta crítica e polêmica quanto à qualidade do jornal, vocês não acharam que eu ia ficar sem lê-lo, né! Escondido, lógico, como todos lá em casa o faziam. Menos o meu tio, que assumia!<br><br>Pior que hoje é tanta notícia de crime em todos os jornais que acho que, se o NP ainda existisse, já não causaria mais tanto impacto, e, possivelmente, os homens de macacão de mecânico não ficariam mais nas bancas vendo suas manchetes! Nem os de terno e gravata, disfarçadamente, como faziam!<br><br>e-mail do autor: [email protected]