Estudei o primário no Meninópolis, que era colégio de padres. Para ganhar ingresso no cinena da escola, era preciso ir à missa e carimbar a carteirinha com o padre.
Existia uma grande educadora lá, A dona Ida. Quando pegava alguém fora da fila, levava o coitado pendurado pela orelha. Tem gente com orelhinha de Dumbo até hoje. Que Deus a tenha no purgatório.
O padre Carlos, com seu cavanhaque de cobre, também era bravo. A coisa mais gostosa eram as festas juninas do Betíssima. Ali fiz cursinho para namorar. Minha mãe me inscreveu para obter vaga no vocacional. Eram mais de mil candidatos para cento e vinte vagas. Eu passei e meu primo Nestor, dançou…
Entrei com a 2ª. turma no ano de 1963. Formamos uma turma à parte com iniciais de nomes próximos: Luiz Celso, Luiz Henrique, Luiz Gonzaga e eu (Luiz Carlos), Marco Otavio, Marcos Chagas, Manuel Victor, Mstislav (Stil), Rodolfo e outros. (Acho que semelhantes atraem seus pares.)
Minhas Lembranças e Visão do Gevoa e da época:
1 – Para entrar no GV, era preciso fazer um exame de admissão, incluindo entrevistas com pais e o aluno. A minha foi com o Professor Joel Martins, e nela fiz a diferença batendo papo em francês. Em informações recentes, obtidas com minha mãe, soube que, na época, uma notícia em um jornal sobre o GV fez com que muitas mães da Vila Nova Conceição corressem para inscrever seus filhos, motivadas pela novidade de escola experimental e pela jornada integral. O fascínio pela escola persiste entre os ex-alunos até hoje. A meta não era preparar para o vestibular e sim para a vida, para enfrentar problemas, adversidades, aprender a aprender e ser um cidadão.
2 – Surgem os Beatles e os bailes. Os jovens, mesmo inconscientes, aderiam com mudanças em seus comportamentos, iniciando uma revolução mundial, cujos símbolos eram os cabelos compridos, iguais aos ídolos de Liverpool. A rebeldia em casa imitava o movimento jovem, que se espalhava pelo mundo. Muitos pais eram contra as inovações surgidas, como cabelos longos, calças justas e camisas coloridas. Este tipo de atitude também se espalhava pelos corredores da escola, em frente aos armários, e em sala de aula. Lembro-me da estréia do filme dos Beatles, "Reis do Iê-Iê-Iê". Guilherme, o Arantes, nosso colega de classe, conseguiu como ninguém registrar a nostalgia da época em canções e letras.
3 – Uma vez por ano, creio que na primavera, acontecia um evento na escola que atuava como uma preparação para a vida social: era um baile no refeitório, com música ao vivo ou com long plays. Nesta atividade, cada aluno deveria levar ao baile uma colega, buscando-a em casa e, ao final, trazê-la de volta à sua casa. Lembro que minha parceira foi a Sonia Maria de Oliveira (63). Fui buscá-la em sua casa de táxi, sendo esta a primeira vez que utilizava um táxi sem companhia de adultos. Na recepção, alunos indicavam uma mesa reservada, onde eram servidos salgadinhos e refrigerantes. Mesmo suando e com a perna bamba, fomos dançar. Esta foi a minha iniciação nos bailes…
Na tentativa de contatá-la, após quatro décadas, reencontrei seu tio. Ao dizer meu nome, ele disse: "Foi você quem levou a Sonia ao baile, não foi?". Que memória, após 40 anos! Em 2005, nos reencontramos na festa de final de ano da GVive.
4 – Ao final de 1964, apesar de notas razoáveis, fui retido por atitudes comportamentais inadequadas, na 2ª. Série. Parte de nossa turma foi aconselhada por Maria Nilde e Glorinha – dona Olga Bechara me garantiu que foi contra – a fazer terapia (chique para época) com os psiquiatras Paulo Gaudêncio e Paulo Sapienza. Iniciei o ano de 1965 com a turma de 1964 (a 3ª.), cursando novamente a 2ª. Série. Desta forma, acabei me relacionando bem com duas turmas 63 e 64.
5 – Uma das atividades mais aguardadas pelos alunos no vocacional eram as viagens de "estudo do meio", realizadas nas cidades onde havia outros vocacionais (Americana, Barretos, Batatais, Rio Claro e São Caetano do Sul). Ao sair de São Paulo, longe dos pais (e eles de nós), experimentávamos a tal da liberdade, sem medo. Ficávamos hospedados nas casas dos alunos das cidades visitadas – no meu caso, Rio Claro e depois Barretos. Acabei conhecendo o GV Candido Portinari de Batatais a convite da mãe do Luiz Gonzaga, nas férias escolares. Nessas viagens, levados pelas mudanças de ambiente, aconteciam os "delírios primaveris", o momento certo para descoberta das paixões e conseqüentes sofrimentos.
6 – Guardo lembranças maravilhosas das visitas aos "estudos do meio", pela elaboração de pesquisas, os relatórios e a apresentação dos resultados obtidos em visita às empresas visitadas, como a Caloi, Frigo Eder, Anglo, Lacta e Kibon, e também a Hípica Paulista.
A visita que me marcou foi quando minha equipe, então formada por Maisa, Edna, Dorian, Magaldi, Baruffalid e eu, nos deslocamos até à Rua Barão de Itapetininga, no escritório do grande poeta Guilherme de Almeida, para uma entrevista. Sempre gostei de poesia e durante esse encontro me senti tão pequeno, pois ele, pelo seu "status" literário, me parecia um gigante. Com certeza foi a primeira personalidade a me sensibilizar na vida.
Que saudades da cooperativa, do banco, dos talões de cheques. Experiências que contaram muito, pois, aos 15 anos, meu pai abriu uma conta no Banco Auxiliar de SP para mim.
É claro que também aprendemos a fazer nossos próprios "estudos do meio". O Parque do Ibirapuera era, na época, um grande pólo expositor de Feiras das Indústrias. Ali, anualmente, acontecia a Feira de Utilidades Domésticas, a UD; porém, o mais aguardado, era o Salão da Criança. Visitávamos todos os estandes das empresas em busca de novidades, principalmente quando havia músicas e danças. Pois com certeza haveria apresentações das estudantes da Escola de Bailado Municipal de São Paulo. Essas bailarinas se revezavam o dia inteiro nos stands. Por sinal, a Diretora E.B.M.S.P era a simpática Tia Clarice do Manuel Victor. Lindos Tempos!
7 – Quanto ao conteúdo programático, só tive problemas em matemática, pois na época estava sendo introduzida a Matemática Moderna, com nomes estranhos como conjunto, etc. Minha professora da época não soube perceber minhas dificuldades na matéria e nem me motivar. Acabei travado. Segui pela vida com problemas com os números e acabei fazendo parte da turma que “odeia matemática". Pode ter sido aí o inicio de minhas dificuldades e atitudes indisciplinadas no Gevoa.
Hoje se percebe que:
"Quando a motivação e controle são empreendidos através do medo, da vergonha e da punição, os estudantes sentem-se mais inadequados, medrosos, magoados, envergonhados e inseguros. Interações repetidas carregadas com estas emoções marginalizam os estudantes, diminuindo seu interesse verdadeiro pela aprendizagem. Os estudantes, com uma série de relacionamentos negativos na escola, tendem a se "desligarem"; alguns ficam deprimidos, enquanto outros entram em um ciclo de culpa, raiva, vingança, e possível violência.”.
(Modelo teórico do Projeto VIVE – Vivendo Valores na Educação)
Gostava de Línguas, Estudos Sociais e Educação Física.
Um dos trunfos que os alunos do vocacional sempre tiveram em relação às outras escolas era aprender a pesquisar. Éramos, então, iniciados nas pesquisas bibliográficas no próprio acervo da escola e em bibliotecas diversas. Esse conhecimento continua fazendo a diferença ainda hoje em relação aos colegas contemporâneos de outras escolas. Saber como pesquisar, o que pesquisar e onde pesquisar, é ainda hoje um grande diferencial. Esta dificuldade persiste na grande maioria das escolas e segue pelas academias, onde ainda impera a "cópiagrafia", com raríssimas exceções.
8 – Quando o aluno entrava para o GV, precisava reaprender algumas coisas, como um outro foco, e esquecer outras, pois eram muitos conceitos novos e novidades nas diferentes áreas. Aprendíamos como trabalhar em equipe, com revezamento de liderança. As provas eram chamadas de baterias ou avaliações, baseadas no aproveitamento de cada aluno, dos conteúdos dados, na efetiva participação, na contribuição e interesse do aluno nas diversas atividades. Essas avaliações eram feitas pelo próprio aluno, que iniciava o aprendizado em se auto-avaliar, e também pelos colegas da equipe, pelos professores e pelo conselho, em forma de gráficos. Trabalhar em equipe servia como inclusão, cooperar e compartilhar. A idéia de cooperativa era estudada pelos alunos.
Não havia exame, pois os exames têm como propósito a exclusão. Existiam avaliações onde cada um se expressava dentro de suas características, mostrando aquilo que conseguia absorver. Dessa maneira, era possível observar a evolução que se processava em cada um, nas várias atividades, em períodos determinados (bimestres), que, por meio de amostragem gráfica, era possível ao aluno, visualmente, perceber sua trajetória.
Enfim, éramos todos avaliados, alunos e professores, cada um fazendo a sua: caminho natural na vida para o auto-conhecimento.
Foi no GEVOA que descobri talentos atléticos. Os professores Frank e Ma. Efigênia faziam testes sistematicamente a cada semestre, com aparelhos avaliando e mensurando nosso crescimento físico e biológico. Todos participavam e eram iniciados em várias modalidades de esportes, ginástica e atletismo. Competições de salto em altura e em distância eram meus favoritos.
Havia também uma atividade periódica chamada Projetos, termo bastante em moda hoje em dia. Numa data específica, os alunos escolhiam participar de um projeto, em uma atividade dentro da grade escolar com a qual tinham predileção e intimidade. Quantas vezes nasciam ali escolhas vocacionais e futuras carreiras. Dedicavam um dia inteiro com entusiasmo e, ao final, podiam ver o resultado de idéias a muito guardadas e que, por vezes, se estenderia pelo resto de suas vidas.
Atividade que escolhi foi educação física e nossa equipe foi campeã de tênis de mesa; acabei ganhando um diploma, agora no Museu de Relíquias no site do GVive. Minha primeira incursão no ensino superior foi em Educação Física, trancado no último semestre em 1975 e que não foi possível retornar.
9 – Guardo grandes recordações do primeiro dia de aula, das brincadeiras na integração de alunos, entre as turmas novas e antigas. Uma delas era montar um círculo de cadeiras onde meninas sentavam e os meninos ficavam em pé, atrás de cada cadeira. Eles se posicionavam, colocando levemente as mãos em cima de cada ombro. Uma cadeira permanecia vazia, devendo ser preenchida. O "dono" da cadeira vazia percorria com seu olhar, buscando, nos olhos de cada garota, uma possibilidade para trazer a escolhida para a cadeira vazia com uma piscadela. Todos ficavam atentos para não sofrer perdas. A garota escolhida fazia sua parte no drama, tentando escapar, a um chamado interessante, ou poderia fazer "corpo mole", caso estivesse protegida por alguém lhe fosse simpático. Grandes lances!
No ano seguinte, seria nossa vez de participar dos trotes e recepção às novas turmas. Os meninos ficavam louquinhos com a chegada da nova turma de garotas. Às vezes fazíamos trote com algum calouro. O Stil e eu escolhemos um, de nome Guilherme. Muitos anos depois, ao reencontrar o Stil, ele comentou sobre o trote do tal do Guilherme Arantes. Quase caí de costas, pois G.A. era um de meus ídolos. Nunca havia relacionado um nome com o outro. Desconhecia também que nossa colega de classe em 63, Ana Cristina Arantes, era sua irmã!
Apesar de tanto tempo sem contato, as sementes do espírito do GV, plantadas pelos professores, calaram fundo. A chama continua viva.
Percebo hoje o porquê de tanto interesse por uma educação diferenciada ou uma nova educação tanto me incomodava. O interesse em uma nova escola para o terceiro milênio, a Nova Escola do Futuro. O "estudo do meio" era o elo que mantinha as disciplinas ligadas entre si e que hoje se dá o nome de multidisciplinar. Os anos 60 trouxeram novidades e mudanças de comportamento em diversas áreas da sociedade. E, no que diz respeito à educação, a experiência mais rica que se conhece aconteceu nos vocacionais, sementes da escola em Socorro e da Escola Inglesa "Summer Hill – O Sonho de Liberdade sem Medo", de A S. Neill.
Fiquei feliz em restabelecer o contato. Reencontrei o vocacional pelo Orkut.
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