Manias e Superstições 2

Sou do tempo que se beijava a mão do padre, ou então o anel do bispo, de cor vinho, quadrado, quando ele vinha para crismas. Era o mesmo que o dia do beija o sapo.<br>E por falar em padre, ele rezava a missa de costas para a gente. Uma tremenda falta de respeito. <br><br>Muitas outras coisas que davam azar eram feitas com cuidado. Por exemplo: Não ter em casa espelho quebrado, não deixar o chinelo de sola para cima, não passar por debaixo da escada. Não matar sapo e deixar ele secar na rua. Bem, o que eu matei de sapo… Foi uma festa! Não que eu os matasse simplesmente por querer, é que a gente fazia eles fumarem – afinal eles também eram filhos de Deus. Com o cigarro na boca, o sapo aspirava a fumaça e não jogava pra fora. Então, eles iam inchando e viravam uma bola. Então, era vir na corrida e encher o pé como se uma bola fosse. Aí, já viu, né.<br><br>Coisas que faziam mal. Nossas mães tomavam muito cuidado e aconselhavam a gente não comer manga e tomar leite logo em seguida. Comer pepino e tomar pinga, havia o perigo de morte. Não olhar para o céu, ou no espelho depois do almoço. Ficava com a boca torta. Meu irmão José, aos dezoito anos, ficou com a boca torta, e bem torta. Quando ele falava, parecia que estava chapado. Minha mãe ficou desesperada: <br>- Filho, você olhou no espelho depois do almoço?<br>– Não me lembro mãe! <br>- Já falei para tomar cuidado, meu filho. <br><br>Levou ele para a Policlínica e fez um longo tratamento. Meu irmão tinha o costume de ficar olhando naquele espelhinho redondo, para ver se o cabelo não estava despenteado. Tinha um topete que até o Elvis ficaria com inveja, sem contar que usava o jaquetão abotoado. Só sei que foi preciso fazer dois meses de banho de luz para voltar a falar como gente boa. <br><br>Coisas muito estranhas aconteciam naqueles anos 1950. Na Semana Santa não se podia fazer nada. A começar pela quaresma em que, toda sexta-feira, já se fazia abstinência da carne. Na semana santa então… <br><br>Já na quinta-feira, se lavava o pé e o padre beijava o peito dele; aumentava até a potência do chute para quem jogava bola. À meia noite, as luzes se apagavam e o padre entrava com uma vela de um metro de altura e espessura de uns quinze centímetros. <br><br>Eu era congregado Mariano, na igreja do Divino Salvador, Rua Casa do Ator, Vila Olímpia. Meus amigos me chamavam de puxa saco do padre, e minha mãe tirava o maior sarro, dizendo pra todo mundo que eu era filho de Maria. Era eu, o encarregado de apagar e acender as luzes.<br><br>No dia seguinte, a sexta-feira. Não se podia fazer nada. As mulheres não varriam a casa, lavavam louça. Comida então era aquele macarrão alho e óleo, e bem pouco, para não se empanturrar. Quem fumava tinha que fazer sacrifício e não fumar nesse dia, E como demorava para chegar a meia-noite, eu, normalmente às 10 horas da noite, já estava com o cigarrinho na boca. <br><br>Jogar bola então, dava desespero nas mães. Os padres diziam a elas que chutar uma bola era o mesmo que estar chutando a cabeça de Jesus. Os bailes de Carnaval acabavam à meia-noite em ponto. Na quarta-feira de cinzas, os jornais e a revista O Cruzeiro traziam fotos do relógio com os dois ponteiros juntos, e a legenda: “O baile acabou na hora certa.”.<br><br>Agora, o que tinha de gostoso era o primeiro de abril. A começar pela rádio Record, que se aproveitou de uma excursão do São Paulo ao exterior, em 1952, ou 53, para gravar um jogo fictício, na voz de José Geraldo de Almeida, em que o São Paulo tinha perdido de 8×0. Nossa, a burguesia arrancou os cabelos. “Nossa, o que será que aconteceu com nossos considerados patrícios?”, diziam os engravatados da sociedade abastada.<br><br>Agora, primeiro de abril gostoso era na firma que eu trabalhava: Móveis Artesanal, Rua Arnaldo (hoje Urussui). Naquele tempo não existia a ABRINQ, e menor de 14 anos podia trabalhar sem ter fiscal de “araque” enchendo o saco. <br><br>Aquele primeiro de abril de 1954 foi o dia mais engraçado desse dia tradicional do calendário gregoriano. Na fábrica, tinha um quartinho onde se fazia o café para os funcionários. Um italiano muito invocado era o cafeteiro, que a gente chamava de Cafetão. <br><br>Nesse primeiro de abril, o Balota (Osvaldo Balotta) comprou um cocô de plástico igual o estrume real. Por mais que se olhava de perto, era difícil acreditar que não fosse cocô de verdade. Logo pela manhã, Balota colocou bem no meio do chão, em cima de uma folha de jornal e com um pouco de água, como se fosse xixi.<br><br>Logo de manhã, quando o cafeteiro, aquele italiano chucro e ignorante, chegou e viu aquilo, foi um fuzuê. Gritos altos, palavrões, gesticulações, muito a gosto dos peninsulares. Foi ao escritório, e falando alto, chamou o gerente, Seu Guido. Seu Guido era um homem muito sério e intransigente no trabalho e respeito ao local. Ao chegar, olhou detidamente, deu uma empurrada com o bico do sapato, e percebeu que o acessório era de plástico. Meneou a cabeça e saiu do seu normal, rindo do que viu. Na certa, percebeu que era o dia primeiro de abril.<br><br>Mal podia ele saber que também seria vítima desse dia. Era ele quem dava o sinal para entrar, na hora do almoço e na saída. Para isso, tinha um arco de ferro que, com uma barra também de ferro, batia no meio do arco, fazendo um barulho danado que toda a fábrica ouvia e deixava todos felizes por ser a hora de parar de trabalhar. O Balota, sempre ele, pediu ao Mario Alimári, o “dono” da serra de fita, para fazer um arco de madeira nas mesmas dimensões do de ferro, e pediu para o Abílio pintar na mesma cor do original. Num momento que seu Guido saiu do seu local de trabalho, Balota colocou o arco de madeira no lugar do de ferro. Quando o meio-dia estava para chegar, todos os funcionários da fábrica estavam escondidos por perto para ver o espetáculo da mentira. Quando o relógio deu o toque do meio-dia, Seu Guido pegou a barra de ferro e mandou ver, com toda força, como sempre fazia. Somente ele ouviu as badaladas. Ficou vermelho e logo percebeu que também tinha sido vitima do primeiro de abril. O pior de tudo é que, depois, ele viu todos os funcionários pelas imediações do escritório. <br>Ainda bem que ele levou na esportiva. Depois do vermelhão, riu muito, falando alguns palavrões, mas na esportiva.<br> <br>O último primeiro de abril que me lembro na televisão foi ainda nos anos 1960, feito pela TV Record. Uma das maiores expectativas que se tinha era quando Frank Sinatra viria ao Brasil. Tinha-se notícia que ele havia dito que no Brasil jamais viria, porque era uma terra de índios e outras coisas – que talvez nem tenha dito. Mas o povo sonhava em vê-lo de perto um dia fazendo um show por aqui. <br><br>Em março de um daqueles anos 1960, a TV Record estava anunciando um show de Frank Sinatra aqui em São Paulo. A TV Record já tinha trazido grandes artistas estrangeiros para o Brasil. Todos estavam na expectativa do dia 31 de março daquele ano para ver Sinatra, sem contar com aqueles que tinham comprado ingresso para ver o espetáculo no teatro. No dia marcado, as horas iam passando e o espetáculo não começava, o que aumentava a ansiedade do povo. Quem não tinha TV, ia à casa de amigos parentes ou bar onde, por ventura, coloca-se o aparelho para ser visto por consumidores. Quando o relógio marcou meia-noite, as cortinas do teatro foram se abrindo, e Frank foi entrando com a imagem na penumbra, onde só se via o vulto do cantor. Quando as luzes se acenderam, foi visto o clone do Frank Sinatra, cujo nome não me lembro, mas era famoso por cantar as músicas do grande cantor e ator americano, e que tinha uma fisionomia quase parecida. <br><br>Aí foi explicado para o povo que se tratava de um primeiro de abril, já que, depois que o relógio tinha passado da meia-noite, não era mais 31 de março, e sim primeiro de abril. <br><br>Agora, outro dia primeiro de abril que ficou famoso foi o movimento militar que derrubou o presidente João Goulart. Há quem diga que o evento não se deu a 31 de março de 1964, e sim dia primeiro de abril.<br><br>e-mail do autor: [email protected]