A Pequena Vila Lucinda

Nasci em Votorantim, mas com apenas um ano de idade vim para São Paulo com meus pais e passamos a morar na Vila Lucinda. Era uma pequena vila que ficava bem pertinho da Penha, e mais perto ainda da parada de trens da Central do Brasil de nome Engenheiro Trindade. Minha casa ficava na Rua Coperema, que começava na marginal da via férrea (hoje denominada Assis Ribeiro) e terminava na Av. Cangaíba. Porém o ponto de referencia mais importante da vila era a Av. Guarulhos (hoje Gabriela Mistral) onde se localizava um pontilhão da via férrea, construído em aço, que por ter um vão muito baixo os caminhões viviam enroscando. Quase em baixo do pontilhão ficava o ponto de ônibus da empresa Guarulhos com seus veículos verdes.
Naquele tempo apenas a Av. Guarulhos era calçada, enquanto nas outras ruas nem a calçada das casas havia. Quem queria ir para o centro da cidade podia pegar um ônibus no tal ponto que havia quase em baixo do viaduto da Central ou, se não tivesse muita pressa, podia esperar um trem na estação Engenheiro Trindade e ia de Maria Fumaça até a Estação do Norte, no Braz. Mas o mais barato era ir andando até o largo da Penha e pegar o bonde, que podia ser pago com um passe.
A vila se resumia praticamente em meia dúzia de ruas, porque naquele tempo havia muitas chácaras que ocupavam grandes espaços. Na Rua Malacacheta, por exemplo, havia uma chácara que ia até perto de Engenheiro Goulart. Era completamente cercada e nem é necessário dizer que a maioria dos balões caiam dentro dela.
A rua em que eu morava era uma subida incrível, apropriada para descer com carrinho de rolimã e subir chocando os caminhões, que naquele tempo eram lerdíssimos. Recordo-me que certa vez um deles abriu a tampa traseira da carroceria com um garoto grandão dependurado nela.
Foi lá que nasceram meu irmão e duas irmãs. Ali minha mãe me levava para a cama de meu nono nas madrugadas frias quando tinha que enfrentar a fila da Padaria Trípoli (da av. Guarulhos) na tentativa de comprar açúcar mascavo e pão, quando a guerra fazia faltar de tudo. Não tínhamos acesso ao gás de rua nem ao G.L.P, por isso a maioria das pessoas cozinhavam com carvão vegetal, e até o carvão faltava porque passou a substituir a gasolina naquilo que era chamado de gasogênio. Me recordo de ter visto minha mãe tentando acender o fogão com certas bolas, do tamanho de um ovo, feitas de pó de carvão misturado com barro, que foi vendido por alguém nas portas das casas. Recordo-me também que não funcionou, e ela teve que jogar tudo no lixo.
De minha casa podia se ver ao longe a ponte de madeira que atravessava o Rio Tietê com seus dois grandes arcos. Havia uma construtora de barcos quase em baixo dessa ponte e certa vez meu nono me levou até lá para assistir uma competição de barcos a remo. No Tietê, indo em direção a Engenheiro Goulart, eu ia pescar com meu nono e trazia uma fieira carregada de lambaris de rabos vermelhos.
Na vila Lucinda vi, num céu super azul, os aviões escreverem o nome de Hugo Borghi (candidato a um cargo político que não me lembro qual) e BomBril, os aviões voavam tão alto que quase não se podia vê-los. As letras que escreviam apareciam do nada e iam crescendo até se embaralharem e desapareciam. Lá também vi muitas vezes aviões cortando os balões nos meses de Junho, coisa que nunca entendi. Ali, com cinco anos de idade, levei a primeira surra de meu pai, por ter acompanhado minha tia até o ponto de ônibus sem avisar ninguém e ter demorado a voltar para casa.
Pode parecer absurdo, mas me recordo de fatos ocorridos quando eu tinha dois anos de idade, fatos confirmados por meus pais e tios.
Na casa de meu nono, a família inteira se reunia todas as tardes de domingo. Os homens jogavam baralho, enquanto as mulheres conversavam e faziam alguma coisa para comer, e as crianças brincavam. Todos ouviam um programa de rádio de nome Festa na Roça, e ao cair da tarde aparecia um homem com um carrinho que vendia algodão doce, quebra-queixo e balas de noiva. Até os adultos aguardavam com ansiedade a chegada do doceiro.
Em 1949 meu pai comprou um terreno de duzentos e cinqüenta metros quadrados na Vila Jacuí, em São Miguel Paulista onde construiu uma pequena casa e mudamos para lá.
Em São Miguel, cuja estação de trens tinha o nome de Baquirivu, completaria minha infância.
Depois de muitos anos voltei algumas vezes à Vila Lucinda somente para matar as saudades. Mas a Rua Coperema já não era mais a mesma. Passou a fazer parte da cidade grande. Já não havia mais as crianças brincando nas ruas, apenas os veículos tinham o direito de usufruir do seu asfalto, o que faziam apressadamente.
Ainda hoje vejo pela foto do satélite (pelo computador) as ruas da vila onde passei meus primeiros sete anos de vida. Nem sei se ainda tem o mesmo nome, mas ainda está lá. Com as ruas asfaltadas e casas com calçadas pode até ter ficado mais limpa e colorida. Mas duvido que seja melhor ou mais bonita do que a Vila Lucinda que me viu crescer.

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