Lua (de) Mel…ada

Casei em 1957, 26 de janeiro, eu com 24\5 anos (05\02 estava próximo…) e a Myrtes com 21, depois de 8 anos entre flerte, brigas, namoro, brigas, noivado, brigas e finalmente, para coroar o "vencedor": casamento. Primeira etapa de ciumeiras bi-laterais: a Myrtes muito bonita, e eu um "pão", (sovado e amanhecido, mas perfeitamente comestível…).

Casamento acontecido depois das prerrogativas familiares, que determinavam casamentos dos filhos mais velhos e das mulheres antes, eu fui um dos últimos a ser contemplado. Era o sétimo de uma prole de nove e as duas restantes, mulheres.
Estrutura econômica para a realização do matrimônio? Nenhuma. Membro de uma família numerosa, não tinha, ainda, nenhuma experiência em ganhar e administrar meu salário; todo o envelope de pagamento entregava fechado para minha mãe que, com a preocupação dos enxovais de minhas irmãs, tinha que distribuir e organizar as despesas de tal forma que todos os meus gastos pessoais ficavam ao encargo de meus pais.
Por essa época, meu pai, vítima de uma sociedade comercial com seu irmão, (parente… serpente, repelente e indiferente, mas… isso é outra estória, tenho ainda em mente…), lutava com todas as forças físicas de que dispunha, um verdadeiro herói, arrumou e conseguiu comprar móveis para nós, e assim dar o "start" em minha nova vida. Não pôde dar uma festança daquelas, não nos importamos. O que eu e a Myrtes queríamos era casar. Mesmo assim, seu Bartholomeu conseguiu realizar o casamento com uma pequena reunião familiar, regada a salgados e doces do Bar Viaduto da Rua Direita, cujo confeiteiro e sócio do estabelecimento, era muito amigo (meio parente…) do meu pai e facilitou um pouco as coisas… Com essas atribulações, problemas domésticos, desenganos e desiludido da vida, seu coração não resistiu, viveu mais um ano, morreu em 1958 com apenas 68 anos, em tempo de ter no colo, meu primogênito Maurício, com 11 meses de idade.

Para morar, com o salário de desenhista de embalagens, arrumei uma edícula da casa de um advogado, na Rua Teodoreto Souto, no Cambuci, por apenas 8 meses, o Maurício nasceu no Braz, na Rua do Lucas.
Vamos ao casamento.
O matrimônio, igreja São Vito, padre Hugo Munari; e a tão esperada Honey Moon (lua de mel)? Bem, não podíamos, simplesmente, sair da igreja e direto para casa. Tínhamos uma pequena economia, meu pai, meu herói, arrumou mais "alguns" e daria para passar 3 ou 4 dias em Santos. Dois tios, um materno, com apartamento em São Vicente e outro paterno, com um chalé na Praia Grande. O primeiro não quis ceder o apartamento, deu uma desculpa qualquer, sei lá… O outro me emprestaria o chalé, com a condição de fazer uma "pequena limpeza". Concordamos…

É evidente que para se fazer um juízo perfeito sempre tem que se ouvir as duas partes e vocês não são obrigados a acreditar no que só eu falo, mas dentro dos limites de minha credibilidade junto a todos companheiros da escrita, confesso a mais pura das intenções em relatar realidades… Só o que realmente, aconteceu.

Como dizia, aceitamos a oferta. Depois da pequena festa, fomos pra Avenida Rangel Pestana, na agência do Expresso Brasileiro, tomamos o ônibus rumo a Santos.
Mês de janeiro, verão de rachar, época de férias, todos os hotéis lotados. Guardava, satisfeito, a chave do chalé, garantia de uma pousada segura e… Grátis. O ônibus nos deixa no centro, com duas malas de roupas e um pacote que minha mãe, carinhosamente, preparou com os doces do casamento e alguns salgados, afinal, eram do Bar Viaduto…

Agora, vejam vocês, alguém pode imaginar o que era a Praia Grande, depois da Ponte Pencil, nas imediações do pequeno aeroporto (que ainda existe), há 51 anos atrás? Para se ter uma idéia, o lugar onde mora o nosso querido Miguel, Vila Real, divisa com Mongaguá, só tinha índios e caiçaras. Um descampado só, praias, praias, praias e só… Um verdadeiro paraíso terrestre.
Não tinha condução alguma, o bonde ia só até São Vicente. Fomos até lá de bonde. Nada de ônibus; para atravessar a Ponte Pencil e chegar até a praia, só de táxi, assim mesmo, só até o Boqueirão. O motorista dizia que, na volta não teria passageiros e tinha medo… Medo? Mas… De quê? "Bem… Mais do que isso, não posso", falou o motorista, "Você não está vendo, 1 hora da madrugada, aqui em São Vicente não tem viva alma na rua… imagine lá… Ahhh não, se quiser, só até a praia… agora… posso te perguntar uma coisa?"
“Pode”, respondi.
_Onde vocês vão pousar? Vão acampar? Lá não tem nada, uma ou duas casas e só… Nada de hotel, pensão ou coisa que o valha…
_ O chalé do meu tio, segundo orientação dele, ficava perto do aeroporto…

Não tínhamos escolha: nós com vontade louca de pegar uma cama (não pra dormir, é claro), aceitamos quando o motorista cedeu em nos levar até o Campo de Aviação. Ele nos deixou perto da praia, ajudou com as malas, recebeu e… Deu no pé… Deixando-nos numa imensa e tenebrosa escuridão, (nem lua, tinha), o ruído do mar e só, ninguém mais. A Myrtes me olhou e eu sem saber o que fazer ou dizer, comecei a procurar o bendito chalé. Tinha o nome da "rua" (?) e o número, mas não se enxergava NADA, porca miséria.
Olhei para minha, agora esposa, linda, cabelos longos, depois de tantos anos, tendo a nossa frente a noite dos sonhos, etapa inicial de nossa vida conjugal, respeitando sempre os ditames do comportamento social, para chegar nesse desencanto em forma de lúgubre paisagem marinha, coloquei as malas na areia, sentamos, esperando… Esperando o quê, meu Deus do céu? Que algo acontecesse? De bom ou de ruim?

Depois de algum tempo, trinta minutos, se tanto, nossos olhos foram se acostumando na escuridão. Começamos a vislumbrar alguns arremedos de choupanas, todos aparentemente desabitados. Bem a frente, distante, uns duzentos metros mais ou menos, avistamos um edifício de três ou quatro andares. Animados, rumamos em direção do prédio. Parecia um sonho, no meio de um negrume impenetrável, o edifício parecia ser uma visão, iria desaparecer quando chegássemos perto (eu lia muito gibi na época). Mas, ele não desapareceu, era real. Cheguei à porta, tudo escuro, procurei a campainha, nada encontrei. Dei a volta no prédio, era isolado de todos os lados. Gritei "Tem alguém aí…?", nada, hermeticamente fechado, o prédio parecia rir de nossa situação, como que dizendo: "Quem mandou sair de São Paulo despreparado, sem saber direito aonde vai, só pensando "naquilo".
Respondi para o prédio “Se casado, vou pra lua de mel, vou pensar em quê, pô… Brincar de casinha, fazer castelo na areia?”

De repente, interrompendo esse metafórico diálogo, vindo não se sabe de onde, apareceu um belo Chevrolet sedán 1938 (vinte anos, para um carro americano seria o mesmo, hoje, para um carro de três anos), verde (a cor do meu primeiro fusca), e dele saem cinco rapazes, alegres, contentes, vindo de uma noitada, das boas, evidentemente… Cheguei a um deles, expliquei a nossa situação, queria saber da possibilidade de ele me arrumar um quarto, até amanhecer. O jovem (nunca mais vou esquecer esse gesto) educadamente me explicou que eles estavam, os cinco, ocupando um apartamento, cedido pelos pais de um dos rapazes e que tinha um dormitório só, muito pequeno e que o resto dos apartamentos estavam vazios… Não havia espaço pra nos acomodar. Naturalmente, condoído com nossa situação, ponderou:
_ O que poderia fazer por vocês, é ceder meu carro, vocês saem da noite e ficam protegidos até amanhecer… Querem?
Aceitamos, deu-nos a chave e de bom agrado nos acomodamos nas poltronas do veículo e curtimos, dentro das possibilidades que o exíguo espaço permitia. Vejam vocês, ele me deu a chave do carro… Não há necessidade de maiores detalhes… Choro quando lembro disso!

Amanheceu, dia lindo, ensolarado, calor escaldante, despertamos e resolvemos deixar o carro antes dos rapazes acordarem, me sentia meio constrangido, tinha vergonha de encará-los… Escrevi um bilhete num dos guardanapos de papel (não sei se de papel ou pano, não lembro se, naquela época já se usavam) que embalavam os salgados, agradecendo a gentileza e deixando a chave no porta-luvas, com alguns doces para eles; fomos ao encontro do famigerado chalé.

Encontramos, aspecto externo, horrível. Madeiramento caindo aos pedaços, sujo, abandonado, asqueroso, deprimente. Entramos… Ahhh! Pelas barbas de Netuno, pela santa protetora dos desvairados da sorte, pelos mortos de cinco mil anos antes do advento da roda… Vá ser velhaco assim na quinta essência da décima terceira estrela ao norte do planeta Plutão (perdoem-me, quando lembro um gesto de um estranho ao confiar seu carro a mim, que nunca viu na vida e faço a comparação com o gesto de um parente, consangüíneo, irmão de meu heróico pai, perco a nobreza da educação).

Ao entrar, minha esposa, de origem bem humilde, dando sempre louvores a Deus por ter, agora, um dormitório só seu, que nunca soube o que era usar um banheiro seu, convivia com o tanque coletivo no cortiço em que morava, calejada com o mínimo de conforto, não suportou a visão de um quadro dantesco, irreal de "dormitório" nauseabundo, colchão nojento enrolado num canto, coberto de teias de aranha, lagartixas de vários tamanhos e cores, baratas voadoras e de solo, insetos das mais variadas versões que a ciência pode descobrir, ratos que, ao nos ver nem se importaram em nos dar as "boas vindas", simplesmente continuaram a roer qualquer coisa. A cama e o estrado corroídos pelos cupins, nas paredes camada de poeira de mais de um centímetro, uma imundície só… "Modesto, aqui eu não fico…". “Nem eu”, respondi, abraçando-a e maldizendo a…

“Um momento, meu caro Modesto” – fala meu ego – “todos, já falecidos, quem é você pra expor certos comportamentos, julgá-los e esperar ser compreendido pelos amáveis leitores, sem dar-lhes, ao menos, o direito de eles, a seu próprio juízo, conceituar como melhor lhes aprouver”.
_ Mas, eu já pedi licença…
_ Sim mas, amenize um pouco… eles, os leitores, que não podem ouvir a outra parte, não devem fazer um juízo com absoluta imparcialidade. Você sabe muito bem que o autor deve contar fatos, sem conceito algum, apenas relatar o ocorrido… Seus leitores são inteligentes o bastante pra saberem discernir o certo do errado, se você contar direitinho, eles vão entender perfeitamente.
_ Tá bem… Agora deixa eu continuar… Não enche mais o saco, pô…

Novamente na praia… Condução, nenhuma. Sentados, eu numa mala e a Myrtes, noutra esperando o quê?
A manhã, esplendorosa, sol radiante a coroar as "cabecinhas de vento", sonhando com a lua de mel, na realidade do calor senegalês, nem ao menos um mergulhinho pra refrescar…
Ao longe, surge um veículo, trotando na areia, única via de acesso. Aos poucos, tomando a forma de um… Ônibus… Será? Ledo engano, a castigar mais estes desafortunados seres, sonhadores com o mínimo de conforto e prazer. É um caminhão. Serve, vamos pedir carona, um caminhão transportando tambores de combustível, levantei a mão, o motorista parou (ainda bem!).
_ Nós precisamos, pelo menos, atravessar a Ponte Pencil, pode nos dar uma carona?
_ Vou até o Gonzaga, posso levar vocês, mas… Estou com dois ajudantes na cabina… Só se vocês forem na carroceria, junto com os tambores.
Aceitamos…

Viajamos na carroceria, junto aos tambores, com o vento levantando os cabelos da Myrtes e eu, gozando igualmente, levando e ouvindo os uivantes golpes da ventania me sentindo o Super-Homem atravessando Nova Yorque pelo alto, indo atrás do Lex Luthor e acabar com a maré de má sorte do solerte repórter Clark Kent, ao lado de Louis Lane e estabelecer o bem no lugar do mal. Como é bom sonhar…
Chegamos ao Gonzaga, parecia que a população de Santos estava a nossa espera. Descemos do caminhão de cara com o Hotel Bel Vedere, quase na esquina da Ana Costa. Fui procurar o gerente. Vaga? “Desculpe, garoto, nem eu e em nenhum hotel ou pensão você vai conseguir… Janeiro, férias, sem reserva é uma imprudência sair de casa sem nenhum lugar reservado, mais para frente tem pensões, tente por lá, mas acho muito difícil”.
Já tinha passado da hora do almoço e a fome nos rendeu. Comemos qualquer coisa e iniciamos a caminhada pelas escaldantes calçadas da Avenida Atlântica. Se não aparecesse nada retornaríamos para São Paulo.

Chegamos a uma pensão, aspecto bem rampeiro, os donos, um casal, tinham um "apartamento", vago, porém… “Myrtes, vamos ver como é, na situação, é em frente à praia… Quem sabe!”
Entramos, abriu a porta, disse o preço, e saiu. Deparamo-nos com um muquifo um pouco, só um pouco, melhor do que o chalé… A "cama" debaixo dos degraus de uma escada, as paredes forradas de lençóis que cobriam buracos nas paredes de madeira, pernilongos e baratas por todo canto, em volta um caixote fazendo as vezes de armário; comecei a abrir as malas, um calor insuportável, a tarde perdia sua luminosidade com a chegada da noite, olhei nos olhos da Myrtes e entendi o recado – Modesto, aqui não por favor. Tonto de tanta raiva, tirei o paletó, para pendurá-lo no "armário" quando recebo, em pleno rosto, o que me pareceu um pequeno lagarto ou um iguana, não sei até hoje… DEI UM BERRO MEDONHO, não é possível tantos desatinos. Os donos entraram na pocilga para saberem o que estava acontecendo.

_ Afinal, como o Senhor vai entrando, sem bater…
_ O berro que você deu… ?
_ E se o berro fosse de gôzo, onde está nossa privacidade… Mas, não foi não, foi de NOJO!
Gritei e dei uma tremenda cusparada no chão. Fechei e peguei a mala, a Myrtes com outra, saímos para rua e o cara gritando atrás de mim: "Ei, você, tem pagar pelo menos uma diária…”.
Dei uma olhada nele, à lá Humphrey Bogart, disse o quê e onde ele iria receber…
Saímos pra calçada, novamente… A tarde morrendo e nossa esperança com ela, em frente novamente do Hotel Bel Vedere, olhei pra cima, além dos últimos andares do edifício e falei com ELE, e ELE, que tudo sabia e sabe, me entendeu e atendeu.

Desci os olhos para entrada do hotel e entrei, novamente, disposto a falar com o gerente.
Quem freqüentou as praias naquela época, e muitos anos depois, deve se lembrar o hábito de senhoras e senhores sentarem nas varandas dos hotéis, apreciando o movimento do "vai e vem" das pessoas passeando, crianças alegres brincando, moços e moças com namoricos e a beleza do panorama da praia…
Quando estava entrando, uma destas senhoras, de estatura mediana, bem vestida, me olhando fixamente, se aproximou.
_ Você não é irmão da Joana?
_ Sim, por quê?
_ Vi você e te reconheci, está hospedado aqui?
_ Quem me dera, quem é a Senhora?
_ Sou a tia-avó do Chico, o noivo da Joana. Tia Gasperina da Antonia, mãe do Chico, Você não lembra de mim? Lembro de ter visto você – continuou tia Gasperina – no noivado de sua irmã…
Contei pra tia Gasperina nossa situação: "Pode deixar comigo… imagina o irmão da minha querida Joana, casando e não tem onde ficar… Sr. Alberto, – berrou – quero um apartamento pra esse casal, já!”.

Eu não sei se algum dos colegas conhece o "Poema Sinfônico 1812" de Tchaykowsky, cujo tema se refere a Napoleão Bonaparte e no final se ouve um coral cantando parte da "Marselhesa", sagrando a libertação, ribombar de canhões que, em gravações de certas orquestras, são empregados canhões de verdade. Eu me sentia, naquele momento, como parte do coral, dando aleluia e glória diante da libertação. Um êxtase só.

Olhei para Myrtes e disse: "ELE nos atendeu".
Agora, vou encurtar o relato, (já está muito longo, eu sei…), tia Gasperina e seu marido, Emílio, chefe dos garçons do Jóquei Clube de São Paulo, ganhando muito bem, e ela, jogadora inveterada do Cassino Atlântico (já fechado na época), clientes antigos e fiéis do hotel, tinham larga penetração junto aos proprietários. Além de conseguirem um apartamento, ou melhor, O APARTAMENTO, no último andar, de frente para o mar, foram, nos cinco dias que ficamos (a grana não dava pra mais), nossos cicerones nos passeios em todos os lugares pitorescos da cidade; um deslumbre só, até hoje sou grato por esse casal que nunca mais os vi pra agradecer-lhes… Tenho fotos deles que tiramos nos passeios guardados com carinho.
Sem ser parentes, não eram serpentes e nos deixaram muito contentes.

Já falecidos, os dois, minha irmã Joana, viúva do Chico, diz que sempre que a encontrava nas reuniões familiares, perguntava por nós e nessa crônica quero prestar-lhes uma justa homenagem, pelos bons momentos no início de nossa vida conjugal, em que, tenho certeza, eles nos cobriram dos melhores votos de felicidade. E também aos cinco rapazes que nos cederam o carro na primeira, de uma longa série de noites, até hoje, inacabadas, graças a Deus.
Prova disso, 51 anos de felicidades (com brigas, evidentemente).

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