"Ser Mais"

Uma janela nunca se fecha para que eu possa visualizar a convivência com um grupo de vizinhos que, mesmo desconhecendo na teoria o significado de "ser mais" – expressão usada por Paulo Freire – sempre o souberam na prática.

De volta a São Paulo, numa rara viagem, minha irmã e eu trouxemos uma muda de "ametista" de Minas Gerais – plantamo-na com o cuidado que se tem com um recém-nascido, e de modo que olhando-se de qualquer um dos apartamentos do bloco podia-se ver aquela preciosidade entrelaçada à pequena árvore que lhe garantia estrutura total, como o filho se agarrando aos pais nos primeiros anos de vida. O abraço de ametista a árvore se fazia firme, sereno, persistente à vida, buscando desesperadamente um raio de sol bloqueado pelo concreto que a sufocava, crescendo em silêncio, suportando as conseqüências da falta de estrutura que o "habitat" artificial proporcionava-lhe. A ametista não escolheu viver ali.

Em décadas naquele conjunto habitacional, completo de pessoas perseverantes como ametista, podia ouvir um morador iniciar um coro em defesa da bela planta, num gesto vívido:
_ Cuidado com a planta, crianças!

O coro se multiplicava, se necessário, ecoando ao redor, reforçado por Lourdes, Detinha, Denise, Santinha, Tânia, Zezé e de muitas outras adoráveis criaturas.

Se era de manhã, lá pelas 4:30h quando os bravos se aprumavam para a primeira das duas ou três conduções que os levavam ao trabalho, um fio a mais de esperança se desenrolava. Se o dia acabava, o pensar no que fazer amanhã para a marmita continuava. Alguns chegavam do trabalho a qualquer hora da noite, enfrentando o fantasma do medo que assombra os dois lados opostos da escuridão; enquanto que outros se preparavam para começá-lo, impossibilitados de ver as nuances nas gotas de orvalho deixadas pela noite nas folhas de ametista.

Ametista cresceu florindo a cada ano, do mesmo modo, a vida oferece flores ao "ser mais", dependendo da visão de mundo que se tenha. Da janela que nunca se fecha aos meus olhos como que dizendo: "eis aqui tua história", mesmo distante de São Paulo, admiro a cada instante a soberana capacidade dos moradores que, sem perder a docilidade, guerreiam, insistem nos valores que cabem a cada um em busca dos raios de sol que nem sempre brilham igualmente para todos.

A leitura do mundo pode não começar exatamente com uma ametista ou um diamante, nem importa em que lugar do planeta se resida, desde que se possa admirar a grandeza das diferenças culturais englobadas num mesmo espaço de um conjunto habitacional – há centenas deles espalhados por toda São Paulo – nestes mesmos que residem jovens desempregados, ignorados pela sociedade, condenados por todos os erros, justificando, desse modo, as faltas vindas do alto. Conforta-me saber que existe uma árvore divina que nos suporta a cada segundo de nossas vidas, em qualquer lugar do universo.

"Ser mais" do que uma planta: fato.

e-mail da autora: [email protected]