À mestra com carinho

Deixa-me contar um assunto que jamais ouvi de alguém. Somente aqueles que puderam gozar dessa felicidade é que saberão dar o devido valor.
Hoje em Santana há uma escola chamada Padre Vieira, nome ilustre e justo para o saber. Contudo, o edifício que abrigou essa escola (doação do governo argentino a São Paulo) anteriormente abrigava o "Grupo Escolar Buenos Aires". À altura de 1932, seu diretor, Sr. Crispim (sepultado no cemitério do Chora Menino)conduzia seus encargos com dignidade e justiça, isto a tal ponto de não permitir que sua irmã, Dona Laura, fizesse parte do quadro de docentes (Dona Maria de Arruda, Dona Paquita, Sr. Celimeno, Dona Estela, Dona Maria Aparecida Brocca, etc.).Sabia-se que o motivo alegado era o de a mesma não ter feito o escalonamento obrigatório, isto é, a normalista formada deveria exercer suas funções longe de São Paulo (Capital) a fim de capitalizar pontos que somados alcançariam o índice hábil de transferência (escolha de vagas por mérito). Essa sistemática afastava as moças para o interior (às vezes sertão de São Paulo) obrigando-as a permanecerem mais de ano longe da família. Desobrigá-la do fato seria uma proteção que beirava às raias da indecência e grande descaramento. O Sr. Crispim era um homem honestíssimo.
Onde hoje está situada a "Escola Luiza de Marilac", a Voluntários da Pátria, havia uma casinha simples; lá morava Dona Laura, irmã do Sr. Crispim. Mulher capaz, inteligente, carinhosa, afável e sempre solícita. Dona Laura foi a professora de um grupo de alunos que faziam o que hoje se chama de prézinho. Com a tabuada e a cartilha do A.E.I.O.U. iniciou nossos passos, abriu nossos horizontes. Se hoje somos o que somos e fomos o que até hoje pudemos ser devemos ao farol de sua paciência que nos orientou. Lembro-me bem do dia 9 de julho de 1932: Dona Laura nos disse: "Meus filhos vamos rezar. Com cuidado e sem parar em lugar nenhum voltem para suas casas. Digam as suas mães que está havendo uma briga muito feia e que vocês voltarão, somente quando eu mandar chamar”. Era a Revolução Constitucionalista. O patriotismo já nos vinha sendo ensinado. Todos os dias, antes das aulas, ficávamos de pé, ao lado das carteiras para rezar uma oração e interpretar algum hino.
Sempre cantávamos os Hinos: Nacional, à Bandeira, da Independência e outros mais, mesmo os religiosos. Sempre cantávamos "Liberdade, Liberdade abre as azas sobre nós, nas lutas, nas tempestades…" e eu perguntava a meu pai: “Que tamanho tem esse pássaro chamado Liberdade que tem que ter asas para cobrir todos os alunos?”. Meu pai respondia: “É grande, o maior de todos e sem ele não poderemos viver…”.
Hoje, nos meus oitenta anos ainda ouço a voz da primeira mestra: “Meninos, não entrem no mato do quintal (hoje a Avenida Santos Dumont frente ao Parque da Aeronáutica) porque aí tem cobras”.
Lastimo, no entanto, que nosso bairro que elegeu seus filhos vereadores (Angelo Bortolo, Antonio Sampaio, Ary Silva, Cantidio Sampaio, Geraldo Silveira Bueno, Valério Giuli – em falando só dos antigos), alguns deputados estaduais e federais, vice-prefeito que interinamente ocupou a prefeitura (Cantídio), mesmo em sabendo, nunca tenha buscado homenagear a mestra Dona Laura!
Queria que o nome de "Grupo Escolar Buenos Aires" voltasse ao primitivo local dando ao Padre Vieira um novo e, não menos importante, consoante o valor do homenageado, e que procurassem dar ênfase aos mestres como Dona Laura e Sr. Crispim.
Sei o que é lecionar, portanto posso imaginar a grandeza de quem pode formatar as mentalidades infantis. Eu nunca seria capaz de executar essa tarefa com tanto brilho e galhardia como foi executada por Dona Laura.
Dona Laura, quase centenária, morreu numa casinha simples à Rua Francisca Biriba esquina com a Avenida Imirim e esta sepultada no cemitério do Chora Menino.
Este é um agradecimento público à mestra dos meus primeiros passos, a esse farol que me ilumina até hoje.

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