O Volkswagem do meu irmão

Meu irmão tinha um fusquinha branco, todo arrumadinho, limpinho e caprichado. Ele tinha muito carinho por aquele fusquinha, foi o primeiro carro que ele teve, fora o caminhão do ferro-velho do meu pai que ele dirigia, eles eram sócios no ferro-velho, o depósito que ficava na Rua Joaquim Floriano, 1095 – Itaim Bibi (era um depósito enorme).
Resolvi aprender a dirigir, entrei numa auto-escola e tirei minha carteira de motorista. Como eu não tinha carro, meu irmão me emprestava o fusquinha nos sábados e domingos na parte da tarde, à noite ele saia com os amigos dele, nós morávamos no Bairro do Brás.
No começo, como eu não tinha prática, meu irmão ia comigo, nós morávamos na Rua Carneiro Leão e ficávamos dando voltas pelas ruas da redondeza: Rua Visconde de Parnaíba, Rua Azevedo Júnior, Rua Wandenkok, Rua Caetano Pinto, Rua Sobral, Rua Claudino Pinto, passávamos pela Mello Barreto, enfim, por aquela redondeza, o máximo aonde até eu ia era à Rua Piratininga.
Depois, como eu já estava indo bem no volante, meu irmão Nenê deixou de me acompanhar, mas dizia: fica só por aqui.
Aí eu saía para dar voltas sozinha com alguma amiga, com minha mãe, namoradinho nem pensar, naquele tempo era feio uma moça sozinha num carro com um moço, e assim foi indo.
Num dia de sábado à tarde fomos dar umas voltas, foi minha mãe e minha sobrinha Tânia que estava com uns 7 ou 8 anos de idade, aí eu falei para minha mãe: “Vamos até a casa da Dirce”, era e é uma grande amiga minha que morava na Rua Carneiro Leão e havia se mudado para a Rua Joli, em frente de havia a Casas Pirani. Lá fomos nós!
Eu estava toda cheia, me achando o máximo no volante, entramos na Avenida Rangel Pestana, fui indo, passei o Largo do Colombo, fui indo na Avenida Celso Garcia, toda feliz, pois já estava me sentindo bem no volante.
Parei na esquina da Rua Joli, dei sinal que ia entrar a esquerda, naquela época tinha os Saudosos Bondes, aconteceu que parei bem na linha do bonde, nos trilhos do bonde, e vinha vindo um bonde em sentido contrário, vinha da Penha. Meu Deus: fiquei paralizada, não sabia o que fazer, não conseguia dar ré no carro, aí eu comecei a falar para o motorneiro para dar ré no bonde, afastar o bonde, ele dizia que não podia, o trânsito começou a ficar parado, minha sobrinha de uma janelinha na outra só dizia: “Tia, tá cheio de carro”. Comecei a chorar, chorava tanto, que veio um moço do outro carro, tirou meu carro da Avenida dizia para eu não chorar, para ficar calma, minha mãe dizia a mesma coisa, colocou meu carro bem na Rua Joli, agradecemos a ele, e ele saiu correndo, pois o dele havia ficado no meio da avenida. Confesso: nunca cheguei lembrar do rosto do moço, pois eu chorava tanto que não via nada.
Chegamos à casa da Dirce, a mãe dela me deu um copo de água com açúcar, telefonei para meu irmão, que veio nos buscar, chegou sorridente, me abraçou e disse: “Não te falei que não podia sair lá da redondeza?”. Mas depois com o passar do tempo fiquei CRAQUE no volante, até hoje. Mas que eu gostaria de ver os SAUDOSOS BONDES circulando por São Paulo gostaria… Ah! Que saudades.
Abraços a todos
Pilar

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