O Balão de São João

Chega o inverno no Brasil.
Vamos já preparando a noite de Sao João.
Os vizinhos e os amigos vão se reunir.
Madeira bem seca para a fogueira, raízes para preparar o quentão, batatas doces, garrafinhas de guaraná frescas, foguetes… Sem esquecer o mais importante para a rapaziada: o balão.
Em 1963 eu tinha 12 anos e morava na Estrada das Lágrimas, numa praçinha com 8 a 10 casinhas. Todas as famílias tinham filhos, e era eu a única menina.
Em frente da minha casa vivia o Nelson, filho da Dona Dolores. Tinha 14 anos e ele era muito lindo e trabalhador. Poucas semanas antes da festa o Nelson veio à beira do meu quintal pedir minha colaboração para fazer o balão.
Naquela altura, consciente da minha importância, fiz uma exigência um pouco esquisita: aceitava a proposição com a condição de que ele me emprestasse todos os seus gibis.
Começamos o trabalho! Devíamos fazê-lo em segredo, pois ele tinha medo que os outros moços copiassem o nosso modelo.
Nelson cortava meticulosamente as varinhas de madeira. Eu cortava os pedaços do papel de seda. Azul, vermelho, verde… Depois fixávamos as varinhas no papel com cola branca.
Vez ou outra a madeira descolava ou o papel rasgava, mas a gente não se desanimava.
Chegada a noite de São João, enquanto a turma estava sentada ao redor do fogo, íamos ele e eu com a cumplicidade da Dona Dolores procurar o balão.
Com muita precaução o colocávamos por cima da fogueira para ele não arder nas chamas.
A fumaça enchia o balão, e nos com muito orgulho o deixávamos subir.
Porém o Balão nunca chegou às mãos do "Grande Arquiteto do Universo", pois ardia antes.
Hoje, quase 45 anos depois, chega o verão na França. Já não faço o balão.Na noite de São João ponho-me na janela e admiro as "mongolfiadas" organizadas pela cidade de Chalon sur Sâone. Soltam muitos balões enormes no céu. Eles vão muito alto.
Mais devo lhes dizer que lhes falta o mais importante: a arte e a ilusão das crianças.
Um abraço para todos vocês.
Maria Isabel GALLARDO

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