A Eterna Escola da Vida (Parte III)

No dia 6 de janeiro de 1945 completei 14 anos de idade e fui prestar o exame escrito e oral no Departamento do Trabalho, centralizado na época no Parque Dom Pedro II. Tendo sido aprovado, dirigi-me à Alameda Dino Bueno a fim de obter o atestado de saúde, e no dia seguinte, com tudo acertado, fui buscar a minha Carteira de menor para poder trabalhar. Enfrentei filas enormes, uma série de obstáculos, mas valeu o sacrifício. Uma vez a cada ano o atestado de saúde deveria ser renovado para prevenção de surpresas desagradáveis.

No dia 1º de outubro de 1945 fui admitido pela empresa de origem britânica: Thornycroft Mecânica e Importadora S.A., estabelecida à Rua Pedroso, 238 (Liberdade), por indicação e convite do meu amigo Miguel Sgarro, ele era mecânico dessa firma há algum tempo. Fui registrado como “Menino de escritório”, e, depois, promovido a “Apontador de mão de obra”, com salário de Cr$ 300,00 mensais, direito a férias e gratificação natalina. Eu ainda morava no Bixiga, na Rua Dr. Luiz Barreto, ia e voltava do novo emprego a pé. O meu horário de trabalho era de 7 às 17 horas, de segunda à sábado. Algum tempo depois, com a implantação da “semana inglesa”, o trabalho aos sábados foi abolido. Por ser menor eu tinha o horário reduzido para estudar. O intervalo para o almoço era das 12 às 13 horas, o suficiente para almoçar em casa. Às 17 horas ia para casa, jantava e depois juntava-me a alguns colegas e íamos para o colégio noturno.

O gerente administrativo era o inglês mister Calvert, depois de algum tempo, chegou o inglês mister Peter Dowding, uma espécie de gerente comercial.
A contabilidade e o departamento pessoal era da responsabilidade do Sr. R.Scott, brasileiro descendente de ingleses. O superintendente técnico era o italiano Gualtiero Bendi, poliglota, dominava o português, italiano, inglês, russo, polonês e alguns idiomas eslavos. Ele tornou-se um grande amigo e com ele aprendi muita coisa, era de fato um grande chefe e mestre.

Boa parte dos operários e técnicos era composta por estrangeiros que imigraram para o Brasil logo após o término da 2ª grande guerra mundial. Entre eles havia italianos, russo, polonês, húngaro, alemães e tchecoslovacos.
Uma de minhas funções era contatar todos os operários, anotar o tempo trabalhado por eles, conforme as ordens de serviços, isso era feito no período matinal e à tarde. No inicio contei com a ajuda do Sr. Bendi até acostumar-me e aprender o serviço.

Na escola Maria Pia, eu aprendi o idioma italiano durante os 05 anos que lá estive.

No colégio, era o primeiro da classe em inglês, francês, português, biologia, desde cedo, procurei aprender outras línguas, acabei me tornando um autodidata no assunto, sempre que possível eu adquiria material próprio e estudava por conta, lendo e ouvindo as gravações dos idiomas que mais me fascinavam.

Com o saudoso irmão Pereira, na escola noturna, aprendi (extra-currículo) um pouco de latim, grego e aramaico. Fui coroinha na Igreja N.Sª. Achiropita no tempo das missas celebradas e cantadas em latim. Eu era cantor-solista, tanto na igreja mencionada quanto no colégio São Luiz. Tudo isso facilitou muito a minha relação com os estrangeiros, havia um intercâmbio de idiomas e culturas entre nós. Eu estava aprendendo cada vez mais na escola da vida.

Os dados por mim coletados eram transcritos para um formulário próprio e a via original entregue ao responsável pelos cálculos da mão de obra e o material aplicado em cada ordem de serviços.

Simultaneamente, eu cuidava do almoxarifado de ferramentas e parte do material miúdo. Cada operário tinha em seu poder certo número de chapinhas numeradas e ao entregar-lhes qualquer ferramenta, eram obrigados a deixar no lugar uma chapinha que seria devolvida assim que a ferramenta retornasse ao local devido.

Também exerci as funções de recepcionista de clientes (estrangeiros) que traziam seus veículos para revisões, reparos, pinturas etc. Os veículos ingleses eram procedentes da matriz inglesa e entre eles destaco o seguinte: caminhão pesado Thornycroft (chegavam desmontados e encaixotados na Inglaterra). Aqui eram montados, testados e vendidos para grandes empresas, entre elas a São Paulo Light & Power. Os caminhões mais leves Commer chegavam prontos, os automóveis Hilmann Minx, Humber e Sunbeam Talbot já prontos, testados. A motocicleta Triumph.
Para respectivas reposições eram mantidos no almoxarifado geral (sub-solo) peças, acessórios e tintas especiais vindos da matriz inglesa.

Havia inclusive o atendimento para algumas marcas de classe de veículos norte-americanos e outros, entre eles: Oldsmobile, Chrysler, Dodge, Lincoln Zephir, Lancia, e etc.
Para cada caso era aberta uma ordem de serviços (JOB), numerada sequencialmente, nela era efetuado o apontamento das horas trabalhadas e material aplicado, cabendo ao calculista o fechamento ao término do serviço.
Com respeito aos veículos não ingleses, as peças e acessórios de reposição eram por mim adquiridas nas lojas especializadas, uma delas era “Popoff & Zoudine” esquina da Av. Brigadeiro Luiz Antonio com Rua Humaitá (Bixiga), “Ali-Babá” Av. São João, entre a Av. Duque de Caxias e Praça Julio Mesquita e o último recurso: procurar nas lojas da Av. Duque de Caxias.
Algumas peças, ferramentas especiais e acessórios eu procurava e comprava na Rua Florêncio de Abreu.

Essa empresa dispunha das seções: forja, tornos, fresas e outras, onde poder-se-ia fabricar alguns componentes não encontrados no mercado. Eu me lembro também que nessa seção eram produzidos instrumentos de navegação para navios.

Os acessórios que deveriam ser cromados, principalmente pára-choques e suas sapatas, eu os levava a pé, (não era permitida a entrada em transporte público coletivo devido ao tamanho dos objetos), até a rua Augusta em frente à praça Roosevelt e, quando prontos, fazia o caminho de volta a pé.

Eu gostava do meu trabalho, de todos os que ali trabalhavam e acho que a amizade era recíproca. Enquanto ali trabalhei conheci o Pedro Elias (descendente de árabes), o Pieter Bellof (russo), o italiano Chimente, o Rafael Donio, o Donato (torneiro), o Donato (vendedor), seu Henrique (chefe da oficina), o Elmo (mecânico), o Cunha (funileiro-pintor), o Miguel (mecânico), o Hugo (calculista). Infelizmente, não me lembro do nome dos demais, mas, guardo nas minhas lembranças a imagem de todos.

Durante o período trabalhado nessa empresa os meus estudos no Colégio São Luiz, na escola noturna, continuavam em direção ao sucesso, era o penúltimo ano para a minha formatura, então, diante da recusa de um aumento salarial decidi pedir demissão, depois de ter completado 4 anos, 2 meses e meio, ou seja, no dia 14 de janeiro de 1950 deixei de ser empregado desse local onde muito aprendi e amei.

A empresa já não existe, pelo menos aqui no Brasil, mas ainda sonho que estou de volta e retomando tudo aquilo que fez parte do meu passado, da minha vida…

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