Comprando calçados na Mooca

Sábado seria o dia seguinte, e logo cedo o calor anunciava o verão. Programara levar meus filhos para comprar calçados, especificamente tênis, na Loja de Calçados Martinez na Mooca, na Rua do Oratório.
Iria entrar num conflito radical de gerações.
Minha filha maior, hoje casada, mãe de minha mais que amada neta Isabella, queria o tênis da marca Nike, cujo preço era mais que o dobro dos três que eu acabara de adquirir — um para a filha menor, um para o filho pequeno e um para mim (no entusiasmo, resolvera adquirir um par modesto para fazer caminhadas). Minha filha não se convenceu, não arredava pé de seus desejos, queria o da marca famosa. Depois de ponderar prós e contras, decidi concordar com aquela extravagância, eu que na juventude cheguei a ser socialista inflexível e intransigente opositor do imperialismo ianque. Aquilo deveria ter algum sentido para essa geração, pensei.
Querendo contornar possíveis rabugices da filha, argumentei e convenci o vendedor a aceitar cartão de crédito na compra do produto que, apesar de ser de grife, estava em promoção. O atendente foi apanhar o par no estoque, mas, para minha surpresa, não havia o número solicitado. Tentei convencê-la novamente a levar outra marca, mais barata. Ela irritou-se, afastando-se com um resmungo de desgosto, não queria, fechou a cara.
Despencou no banco traseiro do carro com a cara amarrada, sem conversar com ninguém. Seus irmãos estavam felizes com a compra feita, manifestando pressa para chegar em casa e calçar os tênis novos.
Sentaram-se à mesa para o almoço, e ela continuava de cara amarrada.
Pensando em abrandar o ambiente recordei que quando narrava as curiosidades dos hábitos da rotina de vida no cortiço, no velho bairro, minhas filhas riam, achando que brincava e inventava aquelas histórias, mesmo assim eu gostava do fascínio que essas histórias exerciam sobre elas. Histórias do quintal do Macarroneiro, como era conhecido seu senhorio, que fabricava macarrão. Do Escopeta, apelido do proprietário dessa espingarda espanhola. Ambos no bairro do Brás.
Passagens daquela gente simplicíssima, vinte e sete famílias morando no mesmo local, usando o mesmo banheiro. Papel higiênico? Pedaços de jornal antigo, cortados e pendurados em arame junto à torneira do chuveiro, que era utilizado aos sábados e que só tinha água fria. Água quente só de bacia, esquentada no fogão a carvão. Quando havia algo mais importante, esfregava-se o pescoço, limpando-o com álcool, tirava-se o “churrete”, em castelhano (manchas, em português). Descrevia esses hábitos e costumes para que meus filhos soubessem que esse povo, mesmo com dificuldade, acabava tendo bons momentos de felicidade.
Lembrei-me rapidamente da cirurgia da fimose, feita na farmácia do Doutor Rega, na esquina da Rua Caetano Pinto com Rangel Pestana em cuja ocasião fizera um pacto com meu pai: submeter-te-ia à operação, desde que, depois, meu pai me presenteasse com uma bola de capotão costurada à mão, oficial, na época a número 5, a maior de todas.
Resolvi contar o episódio, simulando dirigir-me à esposa, como se somente a ela a história interessasse. Contei que, após o ato cirúrgico, apesar da anestesia local, houve dor. Cobrei do meu pai a compra da bola, indicando a poucos metros a casa de artigos esportivos, (Esporte Gaeta, na Rua Vasco da Gama). Já debruçado no balcão, mostrei a número 5, a oficial, fazendo que meu pai perguntasse o preço. Ao ouvir o valor, percebi que o rosto dele ruborizara. Indagou sobre o preço da número 4, depois da 3, em seguida a 2, e, definitivamente, a 1. Meu pai respirou fundo, veio o silêncio (muitas coisas são ditas no silêncio do olhar), um movimento brusco das mãos no fundo do bolso, à procura do que não havia. Virou-o do avesso encontrando a última nota de um cruzeiro, na época a “manolita”, que perfazia o valor da bola, a número 1. Nesse momento, a ansiedade de seu rosto desapareceu.
“Os meus olhos brilharam ao perceber o vendedor descer a bola da alta estante!” – disse. Contei que a peguei vagarosamente e a levei de encontro ao peito. Ficara com muita pena do meu pai, acreditando que, no ajuste, na promessa de compra, no incentivo a me submeter à cirurgia, não tivera idéia de valor. Comemorei em silêncio, abraçado àquela bola, pequena, com tamanho muito inferior ao da que sonhara, indo contente para casa mostrar à minha mãe e a meus colegas de quintal minha conquista, meu prêmio pela bravura de me submeter à operação. Naquele dia, contei, dormi abraçado à bola, minha nova namorada.
Todos em volta da mesa, cada um com seu prato de sopa, e minha filha, já nem tanto com a cara amarrada, tentavam controlar a respiração. Com o rosto mais solto, ela aumentou o volume da sopa, chorando copiosamente e derramando todas as lágrimas no prato.

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