Meus Ilustres Conhecidos

Dia desses, depois de passarmos boa parte do dia fotografando o que restou das Salas de Cinema e da Cinelândia Paulistana, fomos até o Brahma relaxar e comentar sobre o nosso “safári urbano”. E, como uma coisa puxa a outra, descambamos para as velhas recordações…
Lá estávamos nós, lembrando dos ilustres conhecidos que encontrávamos pela Cidade, quando esta era o centro da vida Paulistana.
Naqueles, hoje longínquos, anos 60, eu, office-boy e estudante, depois Auxiliar de escritório e estudante, tive a oportunidade de me ver frente a essas personalidades.
A figura mais marcante e, com certeza, mais bissexta que conheci – e que também era a mais conhecida da Cidade, desde o cortiço “Vesúvio”, no Bixiga, até os palacetes da Av. Paulista – foi o Gino…
A “gang” dos office-boys da Mooca (eu entre eles) descia do ônibus na Clóvis e disparava em direção à Rua Santa Teresa. Na Sé, vez ou outra, encontrávamos o Gino. Quando o encontrávamos dizíamos em coro: “Giorno Gino!” (Bom-dia, Gino!) Ele acenava. Gino era, nada mais nada menos que, Gino Amleto Meneghetti! Misto de ladrão e anti-herói, virou lenda na história do crime em São Paulo. E, para nós, era uma espécie de Robin Hood brasileiro. Roubava dos ricos e dava aos pobres… Claro que o “pobre” beneficiado era ele mesmo…
Caminhando pela Paulista em direção à Rua Peixoto Gomide paralisei em frente ao prédio da Vogue.
Não podia acreditar. Era ela!… Era ela, mesmo? Era!!! Saindo do edifício e diante de mim, a Grande Cacilda Becker. Eu não podia acreditar. Dias antes começara a maquinar como gastar o que não tinha para assistir “Esperando Godot” e, agora, Cacilda Becker estava diante de mim. Talvez incomodada, ou feliz ao ver a minha cara “abestalhada” ela sorriu e disse: “Pode dizer oi e apertar minha mão. Eu não mordo.” Como um autômato, eu disse oi e apertei-lhe a mão. Lá se foi Cacilda e eu demorei muito a voltar à realidade. Entrei na Peixoto e segui meu caminho, todo feliz. Nunca poderia imaginar que o Destino, dias depois, levaria “La Becker” para sempre…
Gino e La Becker. O conto e o contraponto marcaram profundamente a minha memória dos anos 60.
Naquele tempo vi e cruzei com muita gente famosa. Adoniran Barbosa, no Jeca; Jece Valadão, na porta do Marabá; Maria Della Costa e Sandro Polônio saindo da Mesbla; Luz Del Fuego entrando no Othon Palace; Consuelo Leandro e Cármen Verônica, no Barroquinho (Galeria Metrópole); Noite Ilustrada e Francisco Egídio, no Jeca; Procópio Ferreira, em bar da Rua. das Palmeiras…
Astros da Bossa Nova, da Jovem Guarda, do Bossaudade… Ah! A Divina Elizeth! Com seus imensos óculos escuros, saindo do Teatro Record Consolação…
Dias havia em que, querendo ou não, via-se de astros e estrelas saindo pelas portas das TV Excelsior e TV Globo…
Dizem que recordar é viver. Eu acho que recordar é estar mais vivo que nunca.

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