Os Guichês de Antigamente

A palavra guichê soa meio afrancesada, não é mesmo? Postigo seria a nossa palavra portuguesa. Mas quem, como eu, ouvi guichê durante anos seguidos, deixo o postigo quieto onde ele está: no dicionário.
Bem, onde havia filas, com certeza, você iria encontrar no início dela um guichê, ou muitos deles. Para quem Office boy foi muitas recordações sobre filas deve ter. Eu amarguei maus tempos da minha vida em homéricas filas de todo o tipo de guichês de repartições. As governamentais as piores! Com todo o respeito que tenho na idade madura, o funcionário público de então gozava da antipatia geral. Tinha a face fechada. Carrancudo, não mostrava os dentes, a não ser para ranger, e arreganhá-los para intimidar. Muitas das dores de barriga que tive de suportar, pois aquela fila da Xavier de Toledo, se não me engano a do Imposto de Renda, era de dar febres. Finalmente quando você chegava ao guichê o atendente sempre com aquele azedume dizia: “Tá faltando reconhecer firma, aqui, ali, e acolá”. Tantos carimbos, vistos e assinaturas em montanhas de papéis casados com carbonos; pausas para pincelar a tinta na almofada do carimbo; para se retirar clipes, grampos, e aquelas garras com molas, contam os preciosos tempos perdidos nas filas. Mas tinha um lugar que eu ia com prazer: pagar a conta de luz. A Light dava gosto. Amplo salão. Dezenas de guichês. Eram tantos, que o caixa educadamente chamava: Por favor, aqui! E o que falar da decoração? As portinhas tinham grade de caninhos de latão polido, impecavelmente lustrados. O povo pagava em dinheiro vivo. As empresas pagavam com cheque. Esparramada pelo centro havia outros endereços. Aquele prédio no viaduto Santa Efigênia, o INPS da época, também era de tirar qualquer um do sério.
Nos Bancos não era diferente. Várias filas. Você quando conhecia a eficiência de um caixa, você ficava na fila dele. Em primeiro lugar havia a fila de recepção. Para ser chamado você tinha uma senha numerada, geralmente uma enorme medalha de metal, ou uma ficha de plástico. Em muitos bancos a chamada era no berro. Alguns poucos num mostrador luminoso. Os bancos da Rua da Quitanda eram sombrios. Os prédios de então economizavam nos vidros. Dos espetáculos que vinham do exterior os ingressos eram vendidos antecipadamente, e com isso mais filas. As balanças automáticas como eram novidades, nelas também tinha fila de espera para se pesar. Os fura-filas já existiam. Sempre bate-boca era ouvido. Quando não, cascudos! Ainda não havia guichê próprio para idosos, grávidas, e mulheres com bêbes. Geralmente se cultivava o cavalheirismo, e para esse usuário, alguém cedia o lugar.
O capítulo Tabelião merece um lugar no podium das filas. Era desanimador. Você saia da seção de reconhecimentos de firmas, com dores de ouvido. Tanta carimbada nos papéis, que se eles sentissem, seria o vale dos gemidos. Aquele Tabelião do Viaduto do Chá é eternamente lembrado. A tal de fila de espera será sempre indesejada. Menos a do amor.

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