Memórias familiares

Conforme já afirmei em outras oportunidades, eu incorporei como minha toda a família da minha exposa. Até hoje, mesmo já se fazendo 10 anos da desunião, ainda tenho todos no meu relacionamento direto e convivo com eles dentro do maior carinho. Somos, tanto eu como eles, de origem humilde e assim nos consideramos.
A memória hoje trouxe-me um fato pitoresco que estava escondido lá nos porões da lembrança e que veio à luz com ímpeto e realidade. Assim sendo, vamos aos fatos.
A Cida, (minha exposa), tinha entre os tios irmãos de sua mãe, um certo “Tio Durval”, temido por todos os filhos e sobrinhos por se tratar de homem rígido, de opiniões personalizadas e possuidor de uma vontade férrea. Com ele não tinha lesco-lesco, o SIM era SIM mesmo e o NÃO era mais NÃO do que nunca.
Era funcionário da antiga CMTC, na verdade acho que já fazia parte do Imobilizado daquela Empresa. Trabalhava na área de marcenaria (um artista, como viria a comprovar depois) e dava aulas da matéria no SENAI.
Eu, namorado da sobrinha, de tanto ouvir estórias e presenciar tremores dela e de uma prima dela que era filha dele, confesso, não estava muito interessado em ser apresentado e compartilhar de sua presença.
O namoro continuava. Todos os dias, esperava a saída dela da escola e a levava até a porta de sua casa, que ficava na Rua Augusta, 1172. Ali na porta, normalmente, dona Otilia ficava aguardando a menina.
Nossas conversas se limitavam a reservados boas noites, e minhas despedidas ocorriam dentro da normalidade, sem nenhum tipo de arroubo maior.
Eis que é chegado dezembro e com ele as festas natalinas. Fui comunicado, então, que no dia 25 após o almoço, que era uma confraternização familiar tradicional, à minha chegada, eu seria introduzido na casa e apresentado a todos os parentes que, certamente, ali estariam.
Algumas primas, a mãe e a Tia Marica (mãe por dedicação) eu já conhecia, os outros ser-me-iam apresentados naquele dia.
Confesso, o tremor de minhas pernas diante daquela comunicação foi bastante forte e nem sei se notado por ela. Conhecer o já famoso tio Durval passou a ser um fato com data marcada e criou uma expectativa demasiadamente grande.
Chega o dia, depois de me refestelar no almoço com minha família, me preparo, pego o regalo que já havia preparado para presentear a Cida e faço o trajeto entre minha casa na Rua Major Diogo até a Rua Augusta.
Na época os táxis eram, quase, uma raridade em São Paulo e nas datas festivas como aquela, sumiam de vez. Fui, então, a pé, com passos não muito largos e criando coragem dupla, parte por saber que ao entrar naquela casa estaria dando um passo bastante sério e assumindo um compromisso que até pouco tempo atrás eu nem sonhava e, outra parte, por saber que ali estaria me esperando o famoso tio Durval.
Mesmo a passos de tartaruga, fiz o trajeto e cheguei à porta do prédio, a Cida morava no 1º andar e eu subi as escadas, frente à porta me recomponho e aperto o botão da campainha.
Mesmo não querendo ser notadas, percebi um agitado corre-corre acompanhado de risinhos nervosos, das meninas e, então, a chave da porta sendo movimentada, a porta se abre e surge a Cida.
Cumprimento-a, entrego meu presente e desajeitadamente aceito o convite e entro.
Estou na pequena sala de visitas do apartamento. Percebo que ela tem uma mesinha com a TV, duas poltronas e um sofá de três lugares.
Nesse sofá, noto que tem um senhor sentado, firmo mais minha visão e confirmo que ele esta ressonando. A figura é bastante pitoresca e a visão da cena se registra na memória. Ele está vestindo calças de sarja na cor cáqui, camisa de cor azul com uma parte para fora das calças e abotoada com notados erros. Calça sandálias tipo franciscano.
Firmo mais o olhar e vejo que no seu ombro direito, sustentando-se ora numa ora noutra pata está um papagaio e deduzo que as manchas da camisa foram lembranças que o bichinho deixou. Aos seus pés está também um garrafão de vinho. Ao lado desse homem, deitado pachorrentamente está um cachorro da raça Fox todo branco que deduzo ser o Bimbo, de quem eu também tanto ouvira falar.
A Cida se desculpa pelo sono do tio Durval, me introduz ao interior da casa e me apresenta ao resto da família (avó, tios, tias, primos), sou tão bem recebido que minha adoção por todos foi imediata.
Horas depois, acorda aquele que era pintado como o vilão da família, olha pra mim, diz um boa tarde, levanta-se, ajeita as calças que estavam quase caindo da cintura, me oferece um gole de vinho que aceito sem pestanejar e, pronto, estava selada uma grande e total cumplicidade entre nos.
O terror da família passou a ser meu “chegado” e foi, durante muitos anos ainda, meu grande companheiro de copo e mesa.
Passei a gozar de tamanha confiabilidade da parte dele que, sempre que precisavam sair, suas filhas tinham o alvará se dissessem que eu estaria junto.
Foi um grande tio postiço e a ele hoje rendo esta homenagem in memoriam.

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