Meia-noite em ponto. Uma corrente de ar invadiu a cozinha. A chama da vela azul enfraqueceu para logo em seguida reanimar, repleta de mistério abjeto. Foi uma rajada amena, de vento ligeiro, que passou como um susto sem motivo. Jorge sentiu um calafrio, mas estava por demais empenhado no preparo do solitário jantar. A taça de vinho reluzia – assim como as lembranças, soltas no gélido ar de inverno. Chegara de viagem há pouco, decidido a, desta vez, permanecer por tempo indeterminado.
Cansado de longínquas terras, pressentia remota necessidade de fincar raízes. Afinal, Brasil era seu país, e, São Paulo, sinônimo de cotidiano familiar – sem aquele receio dos que vivem em terra estrangeira. Ressuscitava as aventuras, os romances vividos na cidade, quando uma corrente de entusiasmo percorreu-lhe a espinha dorsal.
Seguiu em direção à Avenida Paulista como se tivesse programado. No inconsciente, resolvera dar início à investida partindo do suposto coração da metrópole. Ao chegar, inspirou profundamente o forte resquício de poluição com imensurável prazer. Prosseguiu o itinerário norteado pelo roteiro da revista que leu no avião. Boates no Itaim Bibi, bares no Ibirapuera, clubes nos Jardins… Conheceu mulheres que instigaram-lhe o ego, a libido… Palavras, drinques, risadas, drinques, sussurros, drinques… Insaciabilidade!
O alvorecer já despontava quando arriscou um derradeiro aporto numa das inúmeras casas de show, localizadas na região central. Embriagado, cismou com a cantora que se apresentava. A moça tinha boa voz, cantava sobre um palco à parte, quase imperceptível devido ao fosco canhão de luz, improvisado. Ao término da canção, Jorge a aplaudiu tão veementemente que chamou a atenção dos escassos clientes.
– Vai pagar um drink, bonitão? – aproximou-se uma garota.
– Não! – respondeu, todo malicioso. – Mas se você trouxer à mesa a garota que cantava vais ganhar uma recompensa! – retirou alguns dólares do bolso… A intrusa enfiou as notas entre os seios e saiu às gargalhadas.
Estava desistindo da fastidiosa espera quando, finalmente, ela surgiu, como uma diva. Sentou-se delicadamente, cruzou as pernas, perfumada, linda, cheia de restrições. Acendeu um cigarro.
– E então? O que deseja? – a voz rouca, sensual.
Jorge deu início a um discurso conhecido, regado a tantos galanteios que poucas mulheres resistiam. Os olhos da rapariga brilhavam, os lábios tremulavam enquanto as pernas se entreabriam.
– Posso saber seu nome?
– Cindy! – respondeu, deslizando o dedo pelo lábio inferior.
Insistiu no cortejo bem cuidadoso e, apesar da avançada ebriedade, nenhum deslize foi cometido, ao contrário, todo o processo exercido sob medida. Armou o bote.
– Por favor, não recuse meu convite! – disse um tanto sôfrego. – Vamos tomar o último drinque em minha casa?
– Não sei se devo…
Manteve as cortinas fechadas, abriu uma garrafa de vinho e acendeu velas, na intenção de criar um clima adequado. A fome de sexo e carinho, nesta ordem, corroía-lhe as entranhas. A moça cabia com precisão no crescente desejo – era o tipo que lhe fascinava.
Cíntia deslocou-se, tímida e manhosa, até o canto da sala, onde dormia o piano. Sentou-se no banquinho, dedilhou algumas notas seguidas de uma encantadora melodia: Maysa. Eis que, subitamente, interrompeu a performance.
– Precisamos ter uma conversa… – anunciou, demonstrando forte apreensão.
– Não pode ser outra hora, mais tarde? Sei lá…
– Não, tem que ser agora!
– Então fale…
– Sou travesti!
– O quê?
– Isso mesmo que ouviu. Sou travesti, entendeu? – e deu as costas.
– Não pode ser… Sua voz, os cabelos, os seios…Você deve estar de gozação!
Cíntia não esperou por maiores reações. Recolheu sua bolsa e partiu, deixando Jorge imerso em indignação. O cara refletiu durante o dia todo, censurando-se pelo consumo exagerado de álcool até lembrar-se que estava em São Paulo, onde tudo pode acontecer. Então, respirou aliviado, e não descartou hipótese de qualquer noite dessas aparecer naquela boate para vê-la cantar novamente.
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