Parada Petrópolis

As paradas de bonde da linha Santo Amaro recebiam nome próprio a partir do Biológico. Dos nomes existentes eu não poderia jamais esquecer da minha Parada Petrópolis. À noite, principalmente quando do retorno, eu mentalmente ia falando as que vinham a seguir. De algumas eu me lembro até hoje, particularmente as prediletas: Moema, Indianópolis, Frei Gaspar, Piraquara, Vila Helena. Do Biológico em diante era uma reta só até Santo Amaro. Nessa reta o bonde voava – era aí que o condutor tirava o atraso – nos dias de vento frio as janelas tinham que estar bem fechadas. As paradas Indianópolis e Brooklin eram as mais movimentadas. Nos horários de pico havia um bonde especial para Indianápolis. E um balão – como se dizia então – facilitava a manobra de retorno.
A Parada Petrópolis servia a uma pequena população numa gleba denominada Jardim Petrópolis, com poucas ruas e sem calçamentos. Nenhum serviço básico sanitário. O único melhoramento era a energia elétrica. Lembrava-me e muito a zona rural. A Água Mineral Petrópolis e o Clube Banespa eram os pontos principais de referência. Parte do terreno da gleba era encharcado de água que escorria a céu aberto, dadas as muitas fontes de água que nasciam no espigão que dividia o Brooklin, Congonhas, e o Parque Jabaquara. A altitude desse espigão chegava perto de 900 metros. Era um berçário de nascentes. Daí o nome Águas Espraiadas, antecessor da atual Avenida Jornalista Roberto Marinho.
A comunicação com a Avenida Santo Amaro era feita através do Clube Banespa, que franqueava uma passagem. Não havia muros, e sim cercas vivas.
Os moradores eram na maioria de origem européia, com predominância para os alemães, e essa marca se estendia de Moema até Santo Amaro. Cabelos louros, quase brancos, olhos azuis e verdes como nunca eu havia antes visto.
Na época, acho que o trajeto do Biológico ia até encontrar a Avenida Adolfo Pinheiro, o nome era Avenida Conselheiro Rodrigues Alves. Avenida essa que se iniciava no Largo Ana Rosa, na Vila Mariana.
Andei muito descalço por aquelas águas espraiadas que possuíam elevado teor de minerais.
Automóveis poucos possuíam, e eram importados. Os americanos os mais cobiçados. Mas tinha Citroen e Land Rover. Telefone era a coisa mais difícil do mundo. Somente em alguma casa de comércio. TV ainda um sonho remoto. A rádio era a redentora de todos. E o futebol não era coisa só de homem, as mulheres eram grandes entusiastas e freqüentavam os estádios.
Fim da década de 1940 e início da de 1950.

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