Saudades do Brás

As recordações que tenho do bairro do Brás, onde morei por 16 anos (dos 5 aos 21 anos de idade, quando o Metrô desapropriou a casa em que morávamos), misturam lembranças de pessoas, aromas, sons, gostos e saudades.<br>Saudades das pessoas como o vendedor de "sfogliatella", que passava todos os dias pela rua em que eu morava (Rua Aristides Lobo, que praticamente sumiu do mapa com a desapropriação do Metrô), anunciando seu produto.<br>Saudades do "Mata Sete", que coitado, maluco, brigava com todas as pessoas que ousavam chamá-lo pelo apelido. Era a diversão da garotada…<br>Saudades de ver o Vincenzo, indo comprar pão, todos os dias pela manhã, vestindo apenas uma calça brim, chinelos e camiseta regata mesmo nos dias mais frios…<br>Saudades de ouvir os espanhóis falarem o "portunhol" e do português "macarronico" dos italianos…<br>Saudades das nonnas, das abuelas e de suas histórias.<br>Saudades do meu tempo no Grupo Escolar Romão Puiggari, época em que a maior preocupação de minha vida era passar de ano. Se eu soubesse o que seria a vida de adulto…<br>Saudades do cheirinho bom de panetone, que a fábrica Panetone 900, apesar de ficar na Rua Sacramento Blake, na Mooca, espalhava por todo o bairro do Brás.<br>Saudades até dos cheiros ruins, como o de fumo que impregnava nossa rua e redondezas, vindo da Fábrica de Cigarros Souza Cruz (que ficava na Rua da Alegria) e o da fumaça dos ônibus da Viação Cometa (cuja garagem ficava na Rua Martim Buchard, ocupando uma quadra inteira formada por essa rua, pela Rua Campos Sales, pela Rua Domingos Paiva e pela Rua Coronel Mursa).<br>Saudades da Banda de Música e da Fanfarra da Polícia Militar do Estado de São Paulo, que ensaiava todas as manhãs na Rua Coronel Mursa (naquele tempo o quartel do que depois seria a Rota ficava na Rua Martim Buchard esquina com a Rua Coronel Mursa).<br>Saudades de ouvir de madrugada, quando o silêncio era absoluto, lá ao longe, o barulho das garrafas de leite da Cia. Paulista (cuja fábrica ficava na Rua Almeida Lima ao lado dos trilhos da Central do Brasil) serem enchidas para posterior distribuição.<br>Saudades dos apitos das fábricas, que nos acordavam pela manhã, chamando seus funcionários para o trabalho.<br>Saudades dos pedaços de pizza do "Avenida Chic" (que ficava na Avenida Rangel Pestana, esquina com a Rua Piratininga) e do Tio Pedro, seu pizzaiolo.<br>Saudades do "quebra-queixo" que era vendido na porta do Grupo Escolar.<br>Saudades do pão quentinho, feito no forno à lenha, da Padaria e Confeitaria Flor do Brás (que ficava na Rua Coronel Mursa).<br>Saudades das comidas espanholas que minha avó fazia e que nunca mais pude saborear, simplesmente porque ninguém mais sabe fazer…<br>Saudades das procissões e das verdadeiras festas de Nossa Senhora da Casalluce, na Rua Caetano Pinto, que misturavam pessoas, sons e gostos.<br>Saudades das procissões de Sexta-Feira Santa, da Igreja Bom Jesus do Brás, que era acompanhada pela Banda de Música Carlos Gomes (que só tocava a marcha fúnebre), e do medo que me dava quando a mulher que representava a Verônica, toda vestida de roxo e com um véu preto no rosto, subia na cadeira e desenrolava o pano com o rosto de Cristo.<br>Saudades das minhas avós, dos meus avôs, e de tudo aquilo que eles me ensinaram, apesar do pouco tempo que a vida nos permitiu conviver.<br>Saudades de não poder voltar no tempo, e ter percebido que eu era feliz e não sabia.<br>Foi no Brás que conheci uma menininha que usava tranças, que andava de bicicleta, jogava "queimada" e pulava corda no meio da rua.<br>Aquela menininha está ao meu lado até hoje, é o amor da minha vida e o melhor presente que o velho bairro do Brás me deixou.<br><br>e-mail do autor: [email protected]