Um casal de jovens vinha em sentido contrário ao meu trajeto na calçada. Em nosso caminho uma árvore daquelas cujas raízes afloram do chão arrebentando cimentados e criando crateras.
Como de costume, parei. Os dois olharam para mim, estático, à frente, depois de uma olhada um para o outro, deram uma risadinha que não pude entender direito e passaram.
Passaram, passei, foram-se, fui. O que estariam pensando daquele boboca parado e olhando para eles? Nem pude imaginar, só sei que por esta fantástica máquina do tempo que chamamos de pensamento pude viajar e me situar numa calçada um pouco mais larga, um pouco mais cuidada, cerca de 50 anos antes.
Como acontecia em todas as manhãs, um grupo de pessoas se aglomerava num ponto de ônibus na Rua Gabriel Monteiro da Silva. Cerca de 10 ou 12 pessoas, entre crianças, senhoras e senhores, que aguardavam o 54 – Jardim Paulistano – Vila Buarque, que em todas as manhãs, entre 7h e 7h05, passava por ali.
Pessoas comuns, com os murmurantes comentários matutinos, algumas sonoras algazarras infantis, obsequiosos bons dias, ou o silêncio de outros. As vestimentas mais variadas, desde o uniforme escolar mais desleixado até o requintado tailleur ou terno e gravata dos demais.
Eu estava nesse grupo e aquele senhor, Mestre e Cavalheiro, também. O amarrotado da minha calça curta contrapunha-se com o terno mais apurado dele; à minha blusa do uniforme displicentemente amarrada à cintura, tínhamos tudo combinando, sua cinta, seu terno, sua camisa; meu surrado tênis conga invejava o sapato tão lustroso, imaculadamente limpo; minha camisa há pouco tempo passada e já estava totalmente amarfanhada, enquanto a dele, uma alvura só. Na lapela, sempre, uma pequena e viva flor, colhida talvez agora há pouco, junto com a primeira brisa que soprara no seu jardim nesta manhã.
Meu alarido morria no silêncio dele, tão calmo, impassível, afável e atencioso, sempre vindo com um bom dia respeitoso e num cumprimento elogioso, a qualquer um e a todos do grupo.
Chegava o ônibus e eu, na maior rapidez, subia, passava a catraca, deixava o passe escolar com o cobrador e ia me instalar no primeiro banco do ônibus onde, sempre à minha maneira, e para desgosto do motorista, ia de co-piloto.
Dentro da molecagem, minha primeira missão era ver pelo espelho retrovisor do ônibus quem subia e como subiam. E no retrovisor, lá estava ele, o senhor Mestre e Cavalheiro aguardando a sua vez. Às vezes por ter menos pessoas no ponto eu o percebia já na catraca, mas, na maioria das vezes eu o enxergava ainda na rua.
Um dia, o ônibus teve um pequeno atraso e aquele senhor veio falar comigo. Falamos de escolas, de famílias, onde eu morava, onde ele morava, eu das minhas entregas de bicicleta, ele de suas andanças pelos programas de televisão e eu ouvia e avaliava quão díspares éramos nós dois, tão antagônicos, qual noite, qual dia; qual branco, qual preto; tão arrumado, tão desleixado; tão senhor, tão moleque; qual água, qual fogo; quanta disparidade, mas naquela conversa ele fez a química, e do antagonismo da água e fogo fez surgir o vapor, vapor que impulsionou, que mudou o mundo. E ele me fez ver e também me fez mudar, apenas ao pronunciar algumas palavras mágicas, que foram mais ou menos, estas:
“Garoto, bom dia. Nos vemos todos os dias, vejo que você está indo para a escola, e sei onde trabalha, com seu pai, apenas uma observação: seja cavalheiro para subir no ônibus, primeiro sobem as mulheres com suas crianças, ou idosos, depois as moças e senhoras sozinhas e depois nós, os homens”.
Da simplicidade do seu gesto e sem abdicar de sua majestade ele chegou até o meu patamar e, muito mais importante, fez com que eu me elevasse e enxergasse o horizonte dele. A partir daquele momento, perdi minha cadeira quase cativa no ônibus, deixei de ser o co-piloto informal, aprendi a viajar de pé, e nem precisar de bancos cinzentos ou marcados para assegurar que um outro ser deveria ter a preferência sobre mim. Aprendi a parar e entender que fisicamente dois corpos não ocupam o mesmo lugar. Perdi meu banco, sei lá, nem sei o que perdi, só sei que ganhei uma lição para a vida toda.
O casal já vai lá longe. Existirão outros casais e tantos outros insignificantes idosos (ou velhos, ou “melhores idades”) vão aparecer em seu caminho e por certo pararão para deixá-los passar. A alguns falarão obrigado, alguns nem serão notados, não importa, porque eu, em todos os momentos, em qualquer momento, darei um imenso sorriso dentro de mim e sonharei gostoso.
Cavalheiro e Mestre, ou Mestre e Cavalheiro, Marcelino de Carvalho, foram talvez alguns meses, esparsos dias, poucos minutos que valeram por uma vida inteira.
Sei lá o que pensam, Mestre, para mim, simplesmente, valeu.
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