Modismos

Calça cano-de-pito, sapato de duas cores, cabelo englostorado (lembram-se da Glostora?) e abotoado atrás com um topete no meio, paletó engole-ele, correntinha presa no bolsinho da calça e girando no dedo indicador. É cafajeste, com certeza! Cuidado filha, não se encante com este tipo, que não serve para nada. Vagabundo, contador de lorotas. Para reforçar o tipo havia uma caricatura – O amigo da onça. Eles eram encontrados nas esquinas tentando seduzir as belas jovens de família.
Outro modismo era o "enxoval" das moças casadoiras. A primeira providência era comprar um baú, quando as jovens tinham lá seus quinze ou dezesseis anos, e daí para frente começar a enchê-lo com "biancheria", ou seja, as roupas brancas, que seriam feitas pelas mãos de fada das mulheres da casa e algumas que eram recebidas como presentes, até que se encontrasse o noivo. Para o casamento, o enxoval já tinha que estar pronto. Geralmente essa “biancheria” era feita em casa, ou seja, lençóis e toalhas de mesa eram feitos em tecido de cretone, com crochês à sua volta e bordados delicados. As famílias mais abonadas as faziam com tecido percal e as mais abastadas ainda as faziam em linho belga – percal, vestida de percal… – colchas em crochê de linha fina levavam anos – 2, 3, até 4 – para serem executadas. Trocavam-se amostras de crochê com vizinhas, amigas e parentes para se conseguir belos desenhos. Havia ainda as toalhinhas de bandeja e as toalhinhas para criado-mudo e muitas outras firulas que depois davam um trabalhão danado para se manter engomadas e bem passadas.
E os panos de prato? Muito trabalhados, com crochê, bordados e aplicações feitas à mão, de frutas, verduras, legumes, de preferência em tecido de saco de farinha alvejado.
Nada era feito com parcimônia, tanto que o enxoval chegava quase até as bodas de ouro do casal. Ninguém então pensava em comprar roupas novas e seguir moda. Dá para imaginar o desespero quando chegaram os tecidos que não amarrotavam e não davam trabalho para passar, até dispensando estes cuidados?
Um capítulo à parte do enxoval era a camisola “do dia” e a lingerie!
Sonhava-se com este detalhe, fantasiava-se sobre ele, buscava-se modelos, trocava-se impressões com as amigas! Por que será, hein? Acho que pelo que havia de proibido por trász disso, ou seja, a primeira noite! “…A camisola do dia. Tão transparente e macia, que dei de presente a ti…”. Tinha que ser perfeita em todos os detalhes. De preferência, como mostravam nos filmes de Hollywood: a garota sentada à penteadeira – que as havia no conjunto do dormitório – escovando os cabelos, vestida com sua camisola e pegnoir do dia; o rapaz entrando no quarto trazendo uma champagne para comemorar o amor dos dois. Copiávamos nossos modelitos das grandes divas da época – Rita Hayworth, Heidy Lamar, Suzan Hayworth, Virginia Mayo, Marlene Dietrich e outras. E os rapazes, de quem copiavam suas roupas? Nunca achei muito romântico uma cueca samba-canção, mas fechava os olhos e fazia de conta que não via. Deve ter havido muito romantismo e atitudes românticas, mas pode ter havido muita decepção de ambos os lados também. Lembro-me de uma conhecida que contou ter feito sua camisola do dia preta. Na noite de núpcias a vestiu gloriosa, achando-se maravilhosa e sexy. Quando o noivo a viu comentou: toda de preto? Parece um urubu! Já imaginaram?
Havia um tecido acetinado, fino, chamado lingerie, com o qual se faziam combinações, anáguas, calcinhas e a sonhada camisola e pegnoir do dia. A Rua 25 de março era a grande fornecedora deste tecido, em branco, preto ou várias cores suaves. A Ladeira Porto Geral fornecia as rendas, chamadas Chanteli, importadas da França, compradas em metros lineares e que eram aplicadas às roupas com ponto Paris e ponto cordão, em linha Moulinet. Era também na Ladeira Porto Geral que encontrávamos os aviamentos necessários para sua total beleza final (tinha renda de Sevilha, a pequena maravilha, que teu corpinho abrigava…).
Lembro-me quando começaram a colocar em vitrines as roupas de baixo -calcinha e soutien. A primeira vez em que vi eu estava passeando na Rua Barão de Itapetininga com um namorado e fiquei vermelha de vergonha, nem parei, fiz de conta que não vi.
As havia também já prontas, só que caras, em lojas da Barão de Itapetininga ou na Casa Cisne, na Praça do Patriarca.
E assim eram os dias, com poucos modismos e um tempo em que ainda nos maravilhávamos com as coisas vindas da Europa e dos Estados Unidos. Lembram-se do Ban-loon? Das meias de seda masculinas? Da casemira Aurora? Do cashemir?
Hoje já não há novidades neste mundo globalizado em que todos os modismos chegam rapidamente a todas as partes do mundo com a velocidade dos meios de comunicação e dos meios de transporte e onde tudo se torna obsoleto com a mesma rapidez. É o consumismo.

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